Entre a impressão e o juízo, a pesquisa

Chama a atenção, nos textos críticos de Antonio Candido, além da simultaneidade dos planos de análise, a circularidade do método pelo inesperado das entradas. Diante deles é como se o aprofundamento das distinções entre os elementos da imaginação estética e os da lógica da linguagem, que os exprime, dependesse cada vez menos da elucidação do principal, gradualmente enriquecido pela inserção transformadora dos fatores acessórios, que a análise vai aos poucos desvendando fora do esquadro das normas e da interpretação convencional.

ANTONIO ARNONI PRADO, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

Como se sabe, foi assim que surpreendeu a crítica dos anos 40 e 50, ao ampliar as relações entre as ideias e as formas, antecipando-se em muito à análise da intuição criadora frente aos estilos e às influências, que ele incorporou à estrutura não apenas na dimensão estética dos fatores externos, mas na da própria significação do texto no substrato crítico de suas ressonâncias. Com isso adensou a compreensão do poético enquanto função histórica, hoje sabidamente uma das tarefas mais relevantes da crítica literária. Isso para não mencionar o critério de só reconhecer um estilo ou uma tendência depois de conhecer o conjunto inteiro das obras e do período estudado; de só falar em corrente ou movimento literário quando nesses se pudesse identificar, mais que a presença dos autores, a influência de uma obra sobre a outra em sua evolução ou transformação no tempo, além de só admitir a pertinência de seus próprios juízos depois de conhecer o espelho crítico das ressonâncias inovadoras, indispensáveis à compreensão do autor ou do tema em análise.

Longe de reduzir a criação literária a um mero apêndice do processo de construção nacional, como supôs o reducionismo erudito dos formalistas, a crítica de Antonio Candido veio justamente propor o contrário, quando insistiu na fragilidade metodológica dessa atitude "cheia de equívocos". A dificuldade, talvez, esteja em compreender ainda hoje o verdadeiro alcance que um projeto avançado como o da formação da literatura brasileira acabou impondo aos limites cronológicos da velha historiografia, ao suspender a descrição linear do processo através do recorte sincrônico da análise das obras com foco na crítica fragmentária dos estilos em jogo.

A partir daí, a identidade nacional só passou a ter sentido se articulada ao pressuposto de que o nacionalismo artístico compromete a universalidade do juízo sempre que se fixa no pitoresco e na experiência bruta do localismo para fazer valer a sua própria afirmação. Foi por meio da análise das obras e de sua expansão no quadro das ambivalências estilísticas de um momento histórico específico - o da transição do arcadismo para o romantismo - que, por intermédio de Antonio Candido, se catalogaram pela primeira vez os sinais concretos da nossa identidade literária, descritos na acepção mais funda de sua imaginação inventiva. E não se trata de submeter a avaliação estética à mera interpretação ideológica, dado que para Antonio Candido "a ideologia é uma deformação, e todos nós lemos deformando". O mais importante para o teórico e o crítico - nos diz ele - "é que isso não seja erigido em critério de valor, embora possa ser usado como elemento de identificação e análise".

Isso explica que só será possível compreender a lógica de seu método, se o tomarmos na mobilidade dialética que articulou a "busca dos condicionamentos" da primeira etapa (Introdução ao Método Crítico de Sílvio Romero, 1945) aos fatores opostos da "funcionalidade", na segunda (Parceiros do Rio Bonito, 1954; Formação da Literatura Brasileira, 1959), para chegar, na terceira (Literatura e Sociedade, 1965), à descrição do processo pelo qual "o que era condicionante se torna elemento pertinente". Ou seja: muito longe da ideologização mecânica e empobrecedora, o estético, em Antonio Candido, ao recusar-se à imobilidade da redução formal, vale-se da própria forma para exprimir a condição histórica de sua expressão humana, literariamente construída.

Mas é preciso assinalar que esse recorte foi concebido entre 1940 e 1960. Nos 50 anos que se seguiram a essas três etapas preliminares, os núcleos de suas direções críticas conheceram uma integração hermenêutica sem precedentes em nossas letras. Caberá aos críticos, de hoje e do futuro, a tarefa de avaliar os modos como eles se expandiram a ponto de ser hoje reconhecidos como uma das referências mais expressivas da nossa afirmação literária. Em seu conjunto, o ponto alto é a tendência para integrar os contrários, mesmo quando o significado histórico do conjunto destoe do caráter singular dos autores estudados, sempre levando em conta - nos termos do próprio Candido - "que um autor e uma obra podem ser e não ser alguma coisa, sendo duas coisas opostas simultaneamente". Para ele, no centro do processo, a ênfase estará sempre no esforço para compreender, interpondo entre a impressão e o juízo crítico "o trabalho construtivo da pesquisa, da informação e da exegese".

ANTONIO ARNONI PRADO É PROFESSOR DE LITERATURA NA UNICAMP, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE TRINCHEIRA, PALCO E LETRAS (COSAC NAIFY) E ITINERÁRIO DE UMA FALSA VANGUARDA (EDITORA 34)

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