Kean Collection/Getty Imagens
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Entre a glória e a vergonha

Na obra-prima O Emblema Vermelho da Coragem, Stephen Crane tenta destrinchar a incômoda [br]questão da finitude do homem: como antecipar o seu comportamento em situações extremas?

João Cezar de Castro Rocha, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2011 | 00h00

De todas as coisas, ensinou Heráclito, a guerra (pólemos) é pai. Inclusive da literatura, poderíamos acrescentar, pois, no fundo, a "Ilíada é o primeiro grande livro dedicado à arte da guerra e, sobretudo, às consequências de um prolongado conflito no comportamento humano - o tema da obra-prima de Stephen Crane.

Não será, portanto, casual que o protagonista de O Emblema Vermelho da Coragem, o soldado Henry Fleming, desejasse "presenciar um combate à moda grega". E mesmo reconhecendo que os tempos heroicos de Aquiles e Heitor pertenciam ao passado, decidiu alistar-se, lutando a favor da União na Guerra Civil Americana (1861-1865). Afinal, "histórias de grandes feitos sacudiam a terra. Talvez não fossem distintamente homéricas, mas parecia haver nelas muita glória".

Entenda-se a motivação do jovem soldado: antes do advento da alta tecnologia, que transformou a guerra numa espécie de sangrento videogame, a própria ideia do conflito armado revestia-se de paradoxal sabor metafísico. Ora, o campo de batalha, para além das escaramuças e das estratégias militares, podia, a qualquer momento, oferecer o encontro incontornável com um tema por excelência filosófico: a finitude.

Provavelmente por isso, se aceitamos a cronologia tradicional, a literatura ocidental se desenvolveu a partir das reflexões homéricas acerca da guerra e seus avatares. Desde então poucos temas foram tão importantes para a imaginação literária. Duelos, prélios, disputas: a narrativa de corpos em confronto direto, sempre a um passo da morte ou da consagração, exerceu um fascínio permanente e estimulou autores como Tolstoi, Stendhal, Hemingway, Orwell, Guimarães Rosa - apenas para citar poucos nomes.

Em suma, filosofia explosiva e pouco afeita à abstração dos conceitos, a guerra impõe perguntas incômodas sobre a condição humana. O núcleo de O Emblema Vermelho da Coragem nasce de uma dessas questões. Na véspera de sua primeira batalha, o soldado estreante viu-se "diante de um problema seriíssimo. Subitamente, parecia-lhe que talvez fugisse de uma batalha". De fato, os primeiros 6 dos 24 capítulos do romance - claro, o leitor é levado a pensar nos 24 cantos da Ilíada - são dedicados à dúvida metódica do jovem soldado.

E logo em sua primeira batalha, embora tenha presenciado a fuga de inúmeros soldados, Henry Fleming manteve-se firme e pôde mesmo congratular-se: "Então, finalmente, tudo terminado! Passara no teste supremo. Venceu as rubras, formidáveis agruras da guerra".

Contudo, o valente debutante não suportou o recomeço quase imediato das hostilidades e, depois de um esforço ocioso de racionalização do medo, seguiu o exemplo de companheiros mais prudentes que provavelmente nunca tinham lido o seu Homero: "Houve uma revelação. Também largou a arma e fugiu".

O avesso dessa revelação é a vergonha pelo ato de covardia, que o impede de retornar a seu regimento: como justificar a ausência durante a batalha? Compreende-se, então, a força irônica do título do romance: "Desejou ter também um ferimento grave, um emblema vermelho da coragem".

O dilema se agravou quando ele encontrou um amigo do regimento, Jim Conklin, à beira da morte, porém dono do emblema que tanta falta lhe fazia. O contraste das duas atitudes não poderia ser maior, autorizando a amarga conclusão do jovem desertor: "Aonde quer que fosse no acampamento, encontraria olhares longos, insolentes e cruéis".

Porém, Fleming será salvo ironicamente por um novo grupo de resolutos fujões. Atordoado pela dimensão, em tese universal, ou no mínimo contagiante, da covardia como autêntico instinto de autopreservação, ele interrompeu a fuga de desesperados combatentes, a fim de perguntar-lhes: "Por quê?". Pouco disposto a solilóquios hamletianos, um soldado "atingiu em cheio a cabeça do importuno e saiu correndo".

Principia a possibilidade de uma nova história, pois, graças à ferida na cabeça, semelhante a uma bala que o tivesse atingido de raspão, Fleming retornou a seu regimento, sendo recebido como um soldado valente, ferido em combate.

Na segunda metade do romance, do capítulo 13 ao 24, o protagonista luta por sua redenção, expondo-se a situações de alto risco, surpreendendo a todos por sua bravura e determinação. Aos olhos dos companheiros, um novo homem surge: "E agora o encaravam como se ele fosse um demônio da guerra". O próprio Fleming já podia pensar, esquecendo sua fuga e vergonha anteriores: "Era agora o que chamava de herói".

Nem apenas fujão, tampouco somente herói, a saga de Henry Fleming ilumina a existência dos leitores da obra-prima de Stephen Crane: como antecipar nosso comportamento em situações extremas? Enfrentaríamos a proximidade da morte como heróis ou simplesmente recuaríamos dominados pelo medo?

Ninguém conhece a resposta. Talvez por isso, diante da impossibilidade de "presenciar um combate à moda grega", a literatura continue sendo a melhor arma de que dispomos para imaginar respostas possíveis para outras tantas perguntas incômodas.

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

O EMBLEMA VERMELHO DA CORAGEM

Autor: Stephen Crane

Tradução: Sérgio Rodrigues

Editora: Penguin (216 págs., R$ 25)

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