Entre a ficção e o real

Romance do lisboeta João Tordo esmiúça a conflituosa condição da escrita literária

Manoela Sawitzki, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2012 | 03h10

Ao cair da escada, o personagem-narrador de O Bom Inverno, quarto romance de João Tordo, finalista do prêmio Portugal Telecom 2011, se retira de uma vida que já não sustenta. Convalescente de corpo e espírito, tranca-se em casa, se vicia em um programa americano sobre um médico que coxeia, e planeja a "obra magistral" que escreverá para se vingar do mundo. A alta médica não o libera das dores imaginárias na perna direita. Restringe-se a imitar a fórmula televisiva: compra sua própria bengala Rosewood e entrega-se a uma existência cínica, manca e amortecida por analgésicos. Mas não escreve uma linha sequer.

O Bom Inverno, publicado em Portugal em 2010, esmiúça a tortuosa condição de escritor. Deus dos microcosmos que organiza ou mero covarde que se poupa, corre sempre o risco de ser "o único interessado no que escreve". Livro que sucede As Três Viedas (vencedor do Prêmio José Saramago de 2009), vem reforçar o intenso fôlego de Tordo. Sob o viés da ironia, trava um embate entre verdade e realidade, tencionando as fronteiras que separam a ficção da vida.

Com o acidente, o personagem-narrador abandona uma panaceia de atividades que iam do jornalismo à escrita de menus para restaurantes. Sem dinheiro, aceita, a contragosto, o convite para uma série de conferências literárias em Budapeste, onde conhece o jovem escritor italiano Vincenzo Gentile, Olívia, Nina M. Pascal (que aparece no romance anterior) e ouve falar do produtor de cinema Don Metzger. Impetuoso e anárquico, Gentile o convence a acompanhá-los até a casa de campo de Don em Sabáudia, antigo reduto fascista na Itália, para desfrutar do Bom Inverno - evento mítico que reúne anualmente artistas ungidos pela atenção preciosa do anfitrião.

O narrador que, à certa altura, ironicamente se diz autor de policiais, logo converte sua história num sanguinolento thriller, cuja ignição é o assassinato brutal de Don Metzger.

A partir do crime, todos passam a reféns de um certo Bosco - a metáfora dupla do leitor que exige a cabeça do assassino, sempre ávido por uma "verdade" que a realidade talvez não disponha, e do escritor que não pode descansar até que solucione os dilemas que se autoimpinge. Ainda que, para isso, precisem sujar com sangue as próprias mãos.  

MANOELA SAWITZKI É FICCIONISTA, AUTORA DO ROMANCE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)

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