Entre a crítica e a história

Coletânea de artigos mostra um autor em trânsito, passando da literatura à análise do País

Francisco Foot Hardman, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2011 | 00h00

Se não houvesse tantas boas razões para se aventurar nessas mais de mil páginas, em dois volumes, com quase uma centena e meia de artigos dispersos de Sérgio Buarque de Holanda, agora reunidos pelo historiador Marcos Costa, eu ficaria só com esta: o enorme poder que ainda guardam de nos surpreender.

Surpresas presentes em variadas escalas: seja pela amplitude e diversidade de temas e formas, seja pelo largo intervalo histórico de mais de meio século em que foram produzidos - desde 1920, quando o autor ainda não completara 18 anos, até 1979, quando ingressara em definitivo no domínio do livre ensaísmo -, seja pela prosa fluente e imaginativa, em que a alta erudição não cobra pedágio ao leitor não especializado, seja, enfim, pela imaginação crítica que conduz o texto por caminhos imprevistos, não imunes a contradições e ambiguidades.

Na estante sergiana, estes Escritos Coligidos (o título retém um travo arcaizante e acadêmico que pode ocultar o caráter jornalístico e de militância político-cultural de muitos dos seus artigos) possuem lugar seguro ao lado de outras obras importantes que reuniram postumamente textos do autor: Raízes de Sérgio Buarque de Holanda (1988), organizado por Francisco de Assis Barbosa, aproximação pioneira à experiência europeia de Sérgio; O Espírito e a Letra (1996), em dois volumes organizados por Antônio Arnoni Prado, pesquisa inovadora e abrangente de sua atuação como crítico literário; além do Livro dos Prefácios (1996), reunindo prólogos e introduções que fez para tantas obras de história e literatura. Esse lugar é mesmo obrigatório, porque Marcos Costa optou por não republicar, agora, os escritos saídos nas antologias citadas, nem tampouco nos dois volumes de ensaios dispersos editados pelo próprio Sérgio em vida: o "literário" Cobra de Vidro (1944; 1978) e o "historiográfico" Tentativas de Mitologia (1979). Mas o pesquisador da Unesp já havia oferecido um roteiro abreviado do que estava por vir, ao organizar, em 2004, pela Fundação Perseu Abramo, o livro Para Uma Nova História: Textos de Sérgio Buarque de Holanda, que enfeixa 21 dos 146 artigos ora recuperados.

Daí ressalta o relativo ineditismo - em livro impresso - de boa parte dos materiais aqui postos a serviço dos leitores. A edição dos textos, agrupados por década de sua publicação original, beneficia-se ainda de uma boa disposição gráfica e da presença de bibliografia ampla de referência das obras citadas por Sérgio, bem como cronologia do autor e índice onomástico. Uma sequência de seis artigos publicados em alemão na revista Duco, de Berlim, recebeu tradução cuidadosa do colega Mário Luiz Frungillo, da Unicamp, que certamente merecia crédito menos avaro que o rodapé. Abre o conjunto uma apresentação geral do organizador, algo tímida diante do próprio resultado da empreitada. Seria de esperar maior esforço de contextualização dos textos, por seu vasto espectro. Notam-se também vários erros de revisão, supostamente devidos a incorreções nas fontes impressas de jornais e revistas de onde foram transcritos, a exigir cotejo técnico mais apurado, que edições dessa natureza sempre reclamam.

Mas o que resulta dessa coleção assim exposta resta impressionante. Nos primeiros textos, crônicas despretensiosas para A Cigarra, entre elogios a d. Pedro II e farpas contra a bandeira republicana, insinua-se o crítico da prenunciada hegemonia norte-americana no continente e do utilitarismo industrialista, como nesse interessante O Homem-Máquina, que certamente ressoa o Ariel do uruguaio José Rodó. Seu futuro e persistente antidogmatismo podia ser sugerido na espontaneidade de uma dessas "homeopathias": "A mudança de opinião é num pensador o sinal mais evidente de sua vitalidade. Só os imbecis têm opiniões eternamente fixas."

Na passagem dos anos 30, encontramos o autor regressando da Alemanha, com as primeiras formulações do que iria desembocar em Raízes do Brasil. Seu ensaio Corpo e Alma do Brasil é seminal, a justo título, e põe a análise dos impasses da política nacional sempre em perspectiva da luta ideológica contemporânea na Europa. Além disso, se lembrarmos que o calhamaço trazido no seu desembarque era rascunho de obra mais ambiciosa, Teoria da América, teremos mais um sinal do internacionalismo como marca fundamental de sua formação, traço que o torna refratário a apropriações provincianas ou grupais do sentido das revoluções estéticas modernistas. Cujos efeitos na historiografia e nas ciências sociais não lhe passavam despercebidos: já em 1929, resenhando livros para Duco, destacava a importância do relato de viagem, da fotografia e da câmera cinematográfica como novos instrumentos de um "realismo cosmopolita".

Como cronista do "mínimo e do escondido", para retomar imagem machadiana, muitos materiais e motivos de suas notáveis futuras obras Monções, Caminhos e Fronteiras, Visão do Paraíso e a póstuma O Extremo Oeste encontram-se aqui em estado latente. Isso para não falar de textos mais combativos, como O Índio no Brasil (1940), verdadeiro libelo ante o processo de extermínio e deculturação dos povos indígenas; e os dois artigos de 1949 em que relata sua experiência como investigador convidado pela recém-criada Unesco, em comissão de oito intelectuais presidida pelo historiador britânico marxista e anti-stalinista Edward Carr, para produzir relatório sobre o estado atual dos conceitos e práticas da democracia.

Lê-los, hoje, é ser tomado por inquietante sentimento de atualidade. Se em Corpo e Alma do Brasil, o personalismo é visto como essa doença crônica da política moderna entre nós, em A Democracia e a Tradição Humanista vê-se que a busca de bases para um socialismo democrático esbarra na solidez de Estados nacionais autocentrados, partidos burocráticos e regimes tirânicos. É quando a razão humanista recolhe-se ao autoexílio de palavras no mais das vezes incompreendidas.

FRANCISCO FOOT HARDMAN É PROFESSOR DE TEORIA E HISTÓRIA LITERÁRIA NA UNICAMP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE A VINGANÇA DA HILEIA: EUCLIDES DA CUNHA, A AMAZÔNIA E A LITERATURA MODERNA (UNESP).

SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA - ESCRITOS COLIGIDOS ( VOL. 1)

Organizador: Marcos Costa

Editora: Unesp/Fundação Perseu Abramo (648 págs., R$ 69)

SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA - ESCRITOS COLIGIDOS ( VOL. 2)

Organizador: Marcos Costa

Editora: Unesp/Fundação Perseu Abramo (496 págs., R$ 65)

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