Entraves para o Rio ter seu Guggenheim

Toma ares de novela a vinda do Guggenheim para o Rio. No início da semana a prefeitura anunciou o fechamento de contrato para estudar sua viabilidade, mas a direção da instituição em Nova York negou, embora admitisse as negociações. Mas não basta saber que é possível. É preciso decidir quem paga a conta e os termos dessa associação. Aí, a história se complica.Segundo o prefeito César Maia informou em e-mail à reportagem, as negociações deram certo em maio. "O restante são detalhes", informou. Ele disse que manteve contatos pessoais com o presidente da Fundação Solomon Guggenheim, Thomas Krens. Esta semana, o fechamento do acordo, que custaria R$ 5 milhões ao Rio, foi manchete no Diário Oficial do município.O Guggenheim negou o contrato e confirmou as negociações incluindo Recife (PE) no páreo. O prefeito do Recife, João Paulo Lima, esclareceu: a Veneza Americana concorre com a Cidade Maravilhosa e não contra. A proposta é uma unidade pequena lá, ao custo de R$ 28 milhões, e outra aqui, orçada em R$ 100 milhões. O local escolhido foi o Píer Mauá, desativado com a modernização do porto do Rio, há duas décadas.Mas há alguns problemas. Primeiro: de onde saem os R$ 100 milhões. No mesmo e-mail, o prefeito é enigmático: "Os R$ 2 milhões (sic) já estão reservados e os 100 (sic) o estudo definirá. A prefeitura já tem o que se fizer necessário para viabilizar o projeto."Segundo problema: a área do píer pertence à Companhia de Docas, estatal que o arrendou em 1997, por 50 anos, ao consórcio Píer Mauá S.A. O negócio não deslanchou, segundo o presidente da Docas, Francisco Pinto, entre outros motivos, porque a prefeitura não determinou os usos para a área, o gabarito e outras definições necessárias à ocupação da área. Não ocorre rápido, depende de aprovação pela Câmara Municipal.Terceiro: a Docas torce para que a zona portuária seja revitalizada e o Guggenheim é uma alavanca perfeita. Mas não se dispõe a gastar R$ 100 milhões. "Somos totalmente a favor, assim como os arrendatários, mas não temos essa verba", diz Pinto. O diretor-executivo da Píer Mauá, Américo Rocha, quer o museu, mas ressalta que cede a área em troca de uma garantia de receita mínima. "Um empreendimento desse depende de apoios institucionais, como dos fundos de previdência e do próprio Banco Mundial", garante, Rocha, que não tem encontrado eco para seus investimentos.A iniciativa privada não tem sido receptiva a projetos de revitalização. Planos para áreas decadentes da cidade (além da zona portuária, o bairro de São Cristóvão, reduto da nobreza no século 19, e a Lapa, berço da música e malandragem carioca) empacam na falta de sócios privados. Além disso, o Guggenheim não está em seus melhores dias financeiros. No mesmo dia em que foi anunciado o acordo com o Rio, o New York Times contava as agruras da instituição, nos Estados Unidos, com a queda de 60% de sua visitação e quase outro tanto de dinheiro de mecenas.Há mais um problema correndo por fora. Os museus Guggenheim são projetados por Frank O. Gehry, estrela que não costuma dividir os louros com outros. Mas a lei brasileira não permite que estrangeiros assinem projetos aqui. E entidades reguladoras, como o Instituto dos Arquitetos do Brasil, pretendem ficar atentas, embora seja comum a associação de estrangeiros com profissionais locais.

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