Enterro de Bussunda deixa judeus inconformados

Circula entre a comunidade judaica manifestações de inconformismo pelo fato de Bussunda ter sido enterrado em um cemitério cristão, o São João Batista, no Rio, pois o humorista do programa da Globo Casseta & Planeta, Cláudio Besserman Vianna, era judeu. E, portanto, deveria ter sido enterrado conforme a tradição e os rituais judaicos, o que talvez tivesse chamado a atenção de seus inúmeros fãs para o fato de ele ser judeu. Aos poucos, em sites na internet, vão surgindo as informações sobre este lado desconhecido do humorista. Um depoimento do jornalista Alberto Dines, no site do jornal da comunidade judaica do Rio, Alef, dá a medida de seu envolvimento com a comunidade."Claudinho (como era chamado) ganhou a alcunha que o celebrizou nacionalmente na Kinderland (?país das crianças?), a colônia de férias do grupo progressista do judaísmo carioca (que ele freqüentou junto com outros Cassetas). Foi membro do Hashomer, da linha sionista-socialista. Pode ser que a sua arte de fazer rir tenha sido fabricada pela irreverência carioca, mas outra parte dos seus chistes vem de mais longe - da irrefreável e penosa compulsão de gozar a todos, inclusive a si mesmo, vulgarmente conhecida como "humor judaico". Não se trata de interpretação post mortem, é uma avaliação dele mesmo, em vida. Bussunda considerava-se herdeiro dos humoristas e comediantes judeus e assumia-se como judeu. Não importa se a matriz era Woody Allen ou Groucho Marx, importa é a condição judaica que jamais escondeu e a forma através da qual ela se manifestou. É lamentável que este traço marcante da sua biografia tenha sido desconsiderado pelas empresas para as quais trabalhava. Não fosse uma discreta referência na crônica de Luis Fernando Verissimo (O Globo e Estado de S.Paulo, segunda, 19/6) e um comunicado fúnebre da Federação Israelita do Rio de Janeiro, Bussunda passaria à posteridade com apenas uma parte da sua história revelada. A outra parte certamente está rindo daqueles que não quiseram conhecê-lo por inteiro".No mesmo site, José Roitberg, que foi colega de faculdade de Bussunda por oito anos postou na quarta-feira o seu comentário: "Se Bussunda era judeu, por que foi enterrado no cemitério São João Batistae não em cemitério judaico? Bussunda sempre se considerou judeu. Temos uma entrevista dada ao nosso programa de TV que foi ao ar em dezembro de 2003 e irá novamente neste domingo, onde ele conta sua história familiar e sua ligação com o judaísmo, sendo neto de chazan, filho de mãe judia e de pai convertido ao judaísmo aos 20 anos, com circuncisão e tudo. Portanto, judeu de pai e mãe".Bussunda decide ser humorista no Teatro da HebraicaO programa de televisão da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (FIERJ), Comunidade na TV, vai prestar uma homenagem a Bussunda, exibindo um especial e uma entrevista que Bussunda concedeu ao jornalista Arnaldo Bloch, em dezembro de 2003, onde fala de sua origem judaica e de seu contato com o judaísmo. Mais, explica que decidiu virar humorista durante uma apresentação no Teatro da Hebraica. Ele deveria chorar apoiando-se no Muro das Lamentações, mas a precariedade do cenário fez o muro cair e o que era para ser um drama virou uma comédia, com o registrou a Coluna Gente Boa de Joaquim Ferreira dos Santos, em O Globo de terça-feira, e que vem circulando por e-mail entre membros da comunidade judaica. (O Comunidade na TV é exibido das 12h às 13h pela CNT-Rio Canal 9; Net-Rio Canal 22; Sky-Brasil Canal 24 e reapresentado aos domingos das 19h às 20h pelo canal 14 da NET-Rio). A coluna registra ainda que outro casseta, Beto Silva, cujo nome verdadeiro é Roberto Adler, também é judeu, e seu casamento com uma mulher católica teve "bênção" com orações em hebraico, de um "rabino" desconhecido: Bussunda.E há ainda manifestações indignadas, como a de Daniela Apelbaum Serradela, no site do Alef: "Se ele foi enterrado lá pois a esposa dele não poderia ser enterrada em um cemitério judaico, precisava colocar uma cruz no túmulo? Estranho... Eu sou judia de pai e mãe, também fui do Hashomer Hatzair e da Kinderland, meu marido não é judeu mas sabe que serei enterrada em cemitério israelita e ele não. Fazer o quê?".Família não fala sobre o assuntoA família não quer comentar o assunto. Sua mulher, a jornalista Angélica Nascimento, se recusa a falar com a imprensa. Sua mãe, Eunice, atende delicadamente ao telefonema para dizer: "ela não quer falar sobre nenhum assunto". Tanto a mulher como o irmão do humorista, Sérgio Besserman, recusaram-se a falar com os repórteres que fizeram plantão na porta do prédio onde Bussunda morava quando a notícia de sua morte na Alemanha foi divulgada no Brasil. Segundo a repórter da sucursal do Estado no Rio, Fabiana Cimieri, o contato era feito pelo casseta Hubert, e a informação que circulou na ocasião era de que Bussunda não era ortodoxo e de que seus pais não haviam sido enterrados em cemitério judaico, e que sua mulher queria ser enterrada ao lado dele, o que não seria possível em cemitério judaico.Cláudio Besserman Vianna, o Bussunda morreu na manhã de sábado, vítima de um ataque cardíaco. Estava hospedado em um hotel da cidade de Parsdorf, na Alemanha, a 15 minutos de Munique. Parte da equipe do Casseta encontrava-se no país produzindo programas especiais sobre a Copa do Mundo. Bussunda, atuava como "Ronaldo Fofômeno", em referência a Ronaldo Fenômeno. O humorista sofreu um ataque cardíaco fulminante no hotel, por volta das 8 horas, horário local (3 horas em Brasília). Ele já havia passado mal na tarde de sexta-feira, depois de jogar uma pelada com funcionários da Rede Globo e outros membros do Casseta em um campo próximo ao hotel. Seu corpo foi enterrado no final da tarde de domingo, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio, logo após o jogo do Brasil e da Austrália.Matéria alterada às 18h

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