Ensino da literatura está em debate

Uma dúvida vem tirando o sono de acadêmicos e literatos do Brasil. Afinal, a disciplina de Literatura está ou não perdendo seu espaço no ensino médio (antigo segundo grau) brasileiro? Apesar de estar presente na grade curricular deste ano, o futuro da disciplina nas salas de aula é incerto, na opinião de professores e escritores. Eles temem que os estudos literários possam ser diluídos e usados como ?estepe? para que outras matérias, como Língua Portuguesa e Redação, sejam ministradas no horário."A literatura é uma forma de conduzir os jovens ao idioma", declara o escritor gaúcho Moacyr Scliar, autor de livros como O Centauro no Jardim e o recente Os Leopardos de Kafka. ?Num país em que se redige tão mal, isso é absolutamente fundamental, independentemente da profissão da pessoa. É um reflexo da trajetória de um povo, uma forma de conhecer suas raízes."O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, de Viva o Povo Brasileiro e A Casa dos Budas Ditosos, lembra que somos o país em que anafalbetos são aprovados nos vestibulares. "Sem a literatura, empobrecemos", protesta ele. Para o escritor Alberto da Costa e Silva, a leitura na adolescência de autores como Camões, padre Antônio Vieira e Gregório de Matos faz parte da formação do homem. "Ao longo da minha vida, só presenciei o currículo nas escolas diminuir de qualidade e quantidade, em vez de ampliar", queixa-se.A reação do poeta, ensaísta e tradutor Claudio Willer não é diferente. Presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), Willer revolta-se perante a possibilidade de pulverização da disciplina Literatura nas escolas brasileiras. "A associação entre ensino e literatura, entendida como fonte de saber, vem desde a Grécia Antiga, por isso é constitutiva da nossa civilização", ensina. "Isso basta para mostrar as dimensões do retrocesso histórico promovido ao se diminuir a força dos livros no currículo das escolas." Para ele, promover o conhecimento literário faz subir o nível educacional.Referências - Para essa ilustre casta de letrados, o grande problema é que os chamados Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), determinados pelo Ministério da Educação (MEC) ? documentos que reúnem um conjunto de orientações e referências para a atuação do professor -, teriam diminuído indevidamente a força da disciplina Literatura na grade curricular do ensino médio, ao não especificar a importância dela na educação do aluno. Para eles, o texto poderá dar vazão para que as escolas interpretem os PCNs da maneira que desejarem.A professora de literatura Izabel Faria acredita que o fato de a Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (SEE/RJ) ter reeditado recentemente a grade com 1 tempo (leia-se: uma aula por semana) dedicado à Literatura, é um "progresso às avessas". "Sabemos que até 1998 eram 2 tempos (duas aulas semanais) obrigatórios para a disciplina; em 1999, passamos a 2 tempos apenas para turmas de primeira série do ensino médio, e em 2000 e 2001, sequer tínhamos Literatura", revela Izabel, professora de ensino fundamental e para universitários do Rio. "É uma disciplina que em 1987 conseguiu se libertar da Língua Portuguesa."Independência - No Rio, a militância contra a exclusão da matéria é uma das mais fervorosas. Foi no Estado que nasceu o grupo defensor da preservação dos estudos literários como um exercício independente de outras disciplinas. O Núcleo ?A Literatura Portuguesa no Brasil?, uma das vertentes do Pólo de Pesquisas das Relações Luso-Brasileiras, aderiu à causa. "Essa flexibilidade pode ser mal interpretada", alega a coordenadora do núcleo, a professora Ida Ferreira Alves. Para a professora, os alunos deveriam assistir a, no mínimo, duas aulas semanais de Literatura, aumentando a carga para quatro horas - em vez das atuais duas horas. "Em março, publicaremos uma carta-manifesto no nosso boletim e entregaremos um abaixo-assinado para a Secretária de Educação no Rio."Pelos colégios e universidades de São Paulo, educadores estão em alerta. Maria Helena Nery Garcez, escritora e professora de Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP), comenta que chegou a correr boato que as questões literárias seriam abolidas do vestibular da Fuvest, mas permanecem no manual de 2003. "Na própria USP, no curso de Letras, há quem esteja defendendo o fim do estudo das literaturas nacionais", completa.Chefe do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP), o escritor Benjamin Abdala Junior une-se ao coro contrário à exclusão da disciplina. "É preciso haver prazer em ler; a partir de então, é possível refletir sobre questões filosóficas, psicológicas, culturais e de cidadania", observa. Na opinião dele, deve-se aplicar uma estratégia que atraia e sensibilize o aluno. "O mundo mudou. Não se pode realizar uma literatura instrumental, como foi com a minha geração", avalia Abdala.O escritor acredita que televisão, cinema ou teatro podem funcionar como instrumentos complementares no processo de compreensão, mas a leitura do texto literário, segundo ele, continua a ser imprescindível. "Literatura é uma ferramenta para aprender a língua portuguesa, é um espetáculo das palavras."Segundo o secretário de Educação Média e Tecnológica do MEC, Ruy Berger, a preocupação dos escritores e professores é descabida. "Eu sou o primeiro a defender a literatura, já que sou professor da matéria. Trata-se do conteúdo de mais importância no ensino médio."

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