Ensina eles, Ronnie

Ron Wood, o mais subestimado dos stones, fala de seu novo e inspirado CD, da possível vinda ao Brasil e de sua relação com a banda

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2010 | 00h00

Primeiro, as más notícias: só saberemos em dezembro se os Rolling Stones farão uma turnê mundial em 2011, e se virão ao Brasil mais uma vez. Eles têm um encontro agendado em dezembro para discutir sua agenda comum. Agora, as boas notícias: Ron Wood, segundo guitarrista dos Stones, fez um disco solo maravilhoso, I Feel Like Painting (ST2/Eagle), e virá mostrá-lo no Brasil, e pode ser mais rápido do que a gente imagina - falta só uma oferta sensata. Melhor ainda: a mitológica banda sessentista The Faces também poderá vir ao Brasil.

Tudo isso é sério, palavra de stone: o Estado entrevistou Ron Wood anteontem com exclusividade, e antecipa as boas novas em relação à maior banda de rock do planeta.

Entre seu último álbum solo, Not for Begginers, e este agora, passaram-se 7 anos. O que acha que há de diferente entre aquele e este disco?

Acho que esse é um álbum mais quente. Minha vida sofreu uma poderosa mudança desde aquele último disco. Esse trabalho é como uma viagem com novos acompanhantes, uma viagem até certo ponto acidental. Eu não queria, inicialmente, fazer um novo disco. Entrei no estúdio com alguns amigos apenas para gravar Spoonful, composta por Willie Dixon. Eu pensei que era uma boa época, por conta de meu espírito renovado, de arriscar uma leitura dessa canção, que nasceu com uma bateria enérgica, uma marcada percussão, um vocal rascante. Aí, fui resgatando coisas que compus nesses últimos anos, como 100%, Tell me Something, Fancy Pants, Sweetness my Weakness. Foi tudo muito rápido, muito espontâneo. Agora eu quero sair com esse disco por aí, excursionar, fazer shows.

Keith Richards disse à revista Stern que os Rolling Stones devem fazer uma turnê em 2011.

Nós não sabemos. Temos um encontro marcado em dezembro para definir o que faremos, qual o próximo passo. Nada está definido no momento. Charlie (Watts) está excursionando com sua banda de jazz, eu tenho meus planos, Richards está com seus projetos.

Seus planos incluem excursionar antes com seu disco solo?

Farei uma turnê curta ainda antes do Natal. Tenho um show já agendado em Nova York. Talvez a gente vá depois até o Brasil, estamos tentando fazer Brasil e Argentina. No próximo inverno, farei shows com o The Faces, tocamos juntos recentemente em Randers, Dinamarca, e há mais alguns shows marcados pela Europa. Vamos ver, tudo é possível.

Esse disco novo tem 5 guitarristas convidados: Slash, Billy Gibbons (ZZ Top), Bobby Womack, Waddy Watchel. É mais que uma guitar band. O que pretendia?

Eu sempre me diverti tocando guitarra. Quando Billy Gibbons veio a Los Angeles, eu e ele resolvemos fazer um som no estúdio. Tudo muito espontâneo. É bom ter várias cores de guitarra num trabalho,

Falemos sobre as músicas do seu disco. O reggae Sweetness my Weakness, por exemplo. Como surgiu?

É um tipo de homenagem ao Gregory Isaacs. Parece brincadeira, mas não é. O Bernard (Fowler, vocalista de apoio dos Stones) chegou no estúdio dizendo essa frase, de brincadeira: Sweetness my Weakness. Eu adorei, e nós fomos fazendo uma música dela. Quando estava pronta, eu disse: parece Gregory Isaacs. Aí, ficou como uma homenagem a ele (Isaacs morreu essa semana). Eu adorava a voz do Isaacs, era um esteta do reggae, tinha muita alma e paixão naquela voz.

De todas as músicas, em minha opinião, a que mais parece uma música dos Stones é I Don"t Think So. Estou errado?

Não, está certo. Aquele riff é muito Stones. Acho que eu estava tentando alguma coisa mais Motown, mas saiu Stones. Aí eu pensei: por que não? Partimos de uma dessas frases muito ditas para chegar a uma música. De qualquer forma, é preciso dizer que eu tenho muito apoio da banda dos Stones, os vocais, o baixo, os técnicos. Quando soa como se fosse algo do nosso time, é genuíno.

Você já leu a nova autobiografia do Keith Richards?

Não, ele me enviou uma cópia só ontem. Mas nós não fazemos livros coordenados, ele vive as coisas dele separadamente. Ainda bem (risos).

Ele disse, no livro, que às vezes se sente como uma "paródia de si mesmo". Você também tem essa sensação?

Sim, às vezes. Nos Rolling Stones a gente se sente assim como paródias andantes. É muito louca essa sensação, de que seu corpo às vezes está fora de tudo, olhando para o mito. É muito difícil não ter essa sensação na banda.

E como foi compor com Eddie Vedder, do Pearl Jam?

É um homem adorável. Poderíamos fazer discos inteiros juntos, mas ele não podia. Aí eu disse: me ajude aqui com essa canção. Super gentil, super inteligente. Hey, quando eu estiver aí, venha nos ver. Minha namorada é do Brasil.

Sim, a Ana. Por falar nisso, como está o namoro?

Bom, quente. Venha nos ver.

Vou tentar. Tenho uma curiosidade: o Keith sempre deixou clara sua ligação com o blues americano, mas não sei quando começa sua ligação com esse gênero. Como foi seu primeiro contato?

Eu tinha uns 10 anos. Meus irmãos mais velhos ouviam o blues, ouviam jazz, Louis Armstrong. Eu comecei a ficar fissurado em Muddy Waters, Howlin" Wolf, Bo Diddley, Chuck Berry, Buddy Guy. Muitos anos depois eu vim a conhecer e tocar com o Buddy Guy, um homem elegante, um grande artista. Eu ouvia de tudo: Big Bill Broonzy, Little Walter, John Lee Hooker. Será uma influência para sempre.

PÉROLAS DO DISCO

Why You Wanna Go and Do A Thing Like That For

Dylanesca, essa folk song com o baixo de Flea, a guitarra de Slash e Ivan Neville, dos Neville Brothers, nos teclados, é uma das canções do ano.

Spoonfull

A composição de Willie Dixon é uma obra fundadora do rock. Ronnie a reinventou.

I Don"t Think So

Stoniana, essa canção faz a gente pensar que Ronnie devia ter mais protagonismo em seu grupo principal. É gênio.

Sweetness my Weakness

Reggae vitaminado, com Slash de novo na guitarra (toca em cinco canções do disco), é a diversão inglesa em cima do ritmo jamaicano elevada à onésima potência.

Lucky Man

Coisa de louco: tem Bobby Womack (compositor de It"s All Over) nos vocais de apoio, é composta por Eddie Vedder e tem Bob Rock, ex-produtor do Metallica, na guitarra, além de Ian McLagan nos teclados.

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