''Ensaios que não seriam prova num tribunal''

Autor inglês Geoff Dyer fala no Rio e em SP sobre gênero que o consagrou

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2011 | 00h00

Em Ioga para Quem Não Está Nem Aí (Companhia das Letras), espécie de livro de relatos informais de viagem, o escritor britânico Geoff Dyer informa que tudo o que está descrito ali de fato aconteceu, embora algumas partes tenham ocorrido apenas em sua mente. "Digamos que os ensaios que eu escrevo não serviriam como prova em um tribunal", disse o autor de Londres, na semana passada, em entrevista por telefone ao Estado.

Conhecido pelo estilo debochado e pelo misto de ficção e não ficção que usa em seus livros - dele, saiu por aqui também Morte em Veneza, Jeff em Varanasi, pela Intrínseca -, Dyer faz palestra hoje, no Rio, e na quinta, em São Paulo, no lançamento da revista quadrimestral serrote #7 (leia abaixo). A publicação inclui seu texto Sobre Ser Filho Único, em que analisa como o fato de não ter tido irmãos influenciou sua vida, e que integra Working the Room, seu livro recém-lançado no Reino Unido. Hoje e na quinta, Geoff Dyer fala justamente sobre o gênero ao qual recorre nesse volume, o ensaio pessoal - pouco conhecido no Brasil, e a respeito do qual discorre na entrevista a seguir.

Você vai falar no Brasil sobre ensaio pessoal, gênero pelo qual seu trabalho é mais conhecido, mas que não é tão comum por aqui. Como o definiria?

Bem, pretendo começar minha apresentação justamente dizendo que não sou capaz de definir exatamente o que é o ensaio pessoal (risos). Acredito que, de certa maneira, o que vou fazer é falar sobre o tipo de liberdades que o gênero permite e dar alguns exemplos, contar como tudo começou, com Montaigne, na França, falar do ensaio na comparação com o romance e a poesia, esse tipo de coisa. Na verdade, acho que ao longo da palestra até consigo responder de alguma forma a essa questão.

Como você começou a escrever esse tipo de ensaio?

Escrevo livros de estilos variados, mas, quando começo um deles, nunca penso: "Isso será um romance, isso será outra coisa". Com certa frequência, escrevo sobre algo em que esteja particularmente interessado. E então a forma particular que o livro ou o artigo toma é gerada pelo tema que abordo. Há algum tipo de impulso compartilhado entre o assunto de que estou tratando e a maneira como o trato. Com certa frequência, meus ensaios são incategorizáveis. Por exemplo, o meu novo livro tem um texto que trata de uma escultura de Zadkine sobre Vincent e Theo Van Gogh, e de David Murray, o saxofonista americano, e que é também uma espécie de carta de amor para uma namorada. Você vê que nessa conversa vamos chegando a uma espécie de definição. O que gosto nesse tipo de ensaio é que não há separação estrita entre o que é estudado, literatura ou algum outro tema, e coisas que acontecem na vida de alguém.

E para tratar desse objeto "estudado" você faz alguma espécie de pesquisa ou recorre apenas às suas impressões?

O ponto de partida é como no poema, algo que você experimenta, que pode ser um livro ou uma pintura ou uma fotografia, algo que você viu ou que aconteceu com você. E então você tenta explicar por que aquilo provoca uma emoção tão forte. Daí, sim, é preciso fazer algum tipo de pesquisa, embora eu nunca sinta isso como pesquisa, mas como uma maneira natural de seguir meu entusiasmo e minha curiosidade. Como quando você vai ver um filme, acha um ator incrível e quer saber mais sobre ele... É uma expressão muito natural da curiosidade.

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