Ensaios discutem rumos e impasses da poesia

A vasta produção poética dos últimos anos tem sido mostrada e discutida em um número cada vez maior de revistas, edições, sites e eventos. Mais Poesia hoje (7 Letras), reunião de ensaios organizada por Celia Pedrosa, é em si mesma uma prova dessa vitalidade. Os artigos foram escritos por poetas de origem e perfil variados, que se juntaram a críticos brasileiros e latino-americanos num seminário realizado em outubro de 1999 na Universidade Federal Fluminense. Dois anos antes, um primeiro encontro já tinha resultado na publicação do livro Poesia hoje. O sucesso do projeto deveria estimular uma maior aproximação entre os estudos universitários e a cultura contemporânea.Diversidade, dispersão, fragmentação, errância. São palavras-chave que se repetem nos textos de Mais Poesia hoje indicando quanto ainda pesam sobre a reflexão contemporânea os fantasmas ditos "pós-modernos". As análises são abrangentes, às vezes díspares, e não dizem respeito apenas ao nosso fim de milênio. Mesmo quando o foco é atual e específico, reconhecemos impasses que se vêm desdobrando há muito tempo.A falta de um projeto coletivo se traduz na multiplicidade de vozes, que é vista como um sinal de força. De acordo com Antonio Cícero, uma descoberta crucial para a poesia contemporânea foi a "pluralidade infinita de caminhos possíveis porém contingentes para a arte". Nesse sentido, o fim da vanguarda seria a plena realização da modernidade. Mas teria a "indiferença pós-utópica" neutralizado o "choque" que dava pulso e beleza à experiência estética moderna? É a pergunta que se faz, em tom melancólico e crítico, o professor Wilberth C. Salgueiro, do Espírito Santo.Para Antonio Risério, liberdade e pluralidade são motivos de louvação. Ogum, "orixá da invenção semiótica", cobriria de bênçãos essa poesia faminta de signos e novidades.O fato de estar "na encruzilhada, no meio do redemoinho" (título do artigo do poeta mineiro Ricardo Aleixo) significaria, afinal, que ela continua cumprindo o seu roteiro de crises. O problema, no entender de Chacal, é que a "esfera do signo" afastou os poetas da "roda da vida".Nisso eles seriam o oposto da geração marginal dos anos 70, formada por "pastores de uma religião sem nome", com seus versos "ciganos, impuros, delinqüentes". Mas longe da vida de que se alimenta a poesia? E para que serve? A quem se destina?Opiniões - A poesia é a salvação do corpo e da alma, diz o capixaba Valdo Motta. Para alguns ela ainda pode ser o canal de um "erotismo sagrado", que resiste à pulverização dos valores. O que predomina, no entanto, é a visão de que toda identidade (étnica, cultural, etc.) é múltipla e evanescente, a realidade é vazia e a história não possui nenhum sentido. Sozinhos, exilados e sem passado, poetas como Heitor Ferraz e Nelson Ascher estariam entregues à "desmesura do presente", que segundo Celia Pedrosa é uma tendência ligada aos atuais "virtuosismos" de linguagem. Dessa "poética da deriva", o melhor exemplo talvez seja Néstor Perlongher, que é objeto de um longo ensaio do professor Adrián Cangi, de Buenos Aires. Nela também se inclui Anibal Cristobo, que nasceu na Argentina, mas vive no Rio de Janeiro, em busca de uma "poesia sem certezas" e até mesmo "sem língua".Os poetas de hoje estariam negando e desqualificando a memória. É a hipótese da organizadora de Mais Poesia hoje, fartamente ilustrada com versos de Carlito Azevedo, Antonio Cícero, Moacir Amâncio e Arnaldo Antunes.Dispersa em areia e esquecimento, a memória parece incapaz de constituir a presença poética. Mas só agora ela passou a ser ausência? No ensaio de Wander Melo Miranda, que trata do memorialismo em Drummond, reencontramos a mesma associação entre esquecer e lembrar - significação e morte -, que é um tema antigo na história da filosofia.Substituição - Decisiva mesmo foi a substituição da "memória do vivido" pela "memória do lido", como observa Paulo Henriques Britto. De acordo com o poeta, essa tendência, que acompanha vastos setores da modernidade, tem aproximado o "pós-lirismo" cada vez mais do discurso crítico, dirigido a escritores e estudiosos. Daí para o decadentismo, continua ele, vai apenas um passo.Mas a poesia é sempre contra, lembra Ricardo Aleixo. Talvez a memória e a "vulgaridade do real" não estejam assim tão ausentes da produção contemporânea. Entre os escombros do real dissolvido ou uniformizado, mesmo aparentemente rendida às convenções do seu tempo, a poesia é sempre contravenção. Ela é um "impulso primordial" que se abre para o mundo, não para um círculo limitado de leitores. E se pode ser vista e praticada de tantas maneiras diferentes, como mostra o livro Mais Poesia hoje, esta é a melhor prova de que ela se mantém viva e necessária.Mais Poesia hoje, de Celia Pedrosa (organizadora). 7 Letras, 195 págs., R$ 20.

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