Ensaio sobre mutantes

Estilo, erudição e simpatia pelos desajustados marcam a obra do escritor americano, prestes a lançar um romance

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2013 | 02h14

John Jeremiah Sullivan já foi definido pela revista Time como o melhor ensaísta norte-americano de sua geração. Também foi comparado a David Foster Wallace e Tom Wolfe, mas nada disso o envaidece. Aos 39 anos, vivendo na Carolina do Norte com a mulher e duas filhas, a mais nova de 7 anos, Sullivan sente uma atração irresistível por tipos que abandonaram tudo e foram morar longe do que se convencionou chamar civilização.

Há alguns desses tipos em seu ótimo Pulp Head (Companhia das Letras), livro que veio promover na recente 11.ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde discutiu a arte do ensaio com o crítico de fotografia inglês Geoff Dyer.

Um dos citados outsiders presentes em Pulp Head é Andrew Nelson Lytle (1902- 1995), escritor, ensaísta e professor de Literatura que ajudou a promover os contos de Flannery O'Connor e a poesia de Elizabeth Bishop, entre outros autores. Sullivan conta a comovente história de seu mestre, um intelectual avesso aos costumes burgueses, no terceiro ensaio do livro. Nele, o ensaísta relata como deitou na cama desse homem de 92 anos para aquecer o velho professor Lytle, que sentia frio e falta da mulher morta. Foi o último encontro dos dois - e teria sido o primeiro de natureza sexual, se Sullivan não tivesse pulado da cama quando acordou com Lytle mordiscando sua orelha e agarrando seu pênis.

Em entrevista ao Estado, ele revela como vai tratar da vida de outro outsider no livro que acabou de escrever, cujo lançamento está previsto para 2014. O Primeiro-Ministro do Paraíso fala de um intelectual alemão da Saxônia, casado e com cinco filhos, que, no século 18, abandonou a família para viver por seis anos com os índios cherokees na Carolina do Sul, conta Sullivan, surpreso com a própria obsessão por renegados e inadaptados. "Sabe que não tinha pensado nisso?"

Você parece atraído demais por tipos marginais, gente com incontida aversão por burgueses. Qual a origem dessa simpatia pelos deslocados sociais?

Poderia arriscar que foram as conversas que tive com Gavin Davenport. Lembro de Gavin falando de Robinson Crusoé, que ele identificava com o que há de mais radical no ser humano, no sentido de alguém que enfrenta um ambiente inóspito mesmo sabendo que vai morrer, que sua luta é inglória. A história de Lytle me estimulou, pois ele era igualmente um tipo fora dos padrões, como Pribes, o alemão de meu novo livro, O Primeiro-Ministro do Paraíso (título provisório), que desembarcou em 1735 nos EUA com o sonho utópico de criar uma cidade chamada Paraíso, onde não existiria discriminação racial ou sexual. Leitor de Spinoza e abolicionista, ele foi perseguido e morto por mercenários. Dizem até mesmo que foi influenciado pela experiência dos jesuítas com os índios brasileiros.

Por falar em tipos excêntricos, há no livro um ensaio sobre Michael Jackson, no qual você conta como foi decisivo seu encontro com Quincy Jones, que realmente deu um novo rumo para a carreira do cantor. Você acha que a música de Jackson vai sobreviver como um clássico, do tipo Cole Porter ou Gershwin?

Difícil dizer. O certo é que Michael Jackson é incontornável, não só como personalidade, mas como músico. Qualquer pessoa que pretenda estudar a música do século 20 terá necessariamente de passar pelo álbum Thriller, uma experiência sonora que empregou alta tecnologia em seu registro. Sua música abriu uma porta para que eu entendesse sua personalidade, a de um homem que tinha de se recriar o tempo todo, a ponto de desenvolver um falsete para cantar não com a voz de castrato, mas de mulher mesmo.

Ele, a exemplo de algumas pessoas que usam máscaras em manifestações públicas, não seria fruto de uma mutação antropológica, de alguém que, paradoxalmente, tenta se passar por invisível, usando um disfarce uniformizador? Você acha que isso é fruto da internet, que tende a fazer as pessoas acreditarem mais no mundo virtual do que no real e a viver uma espécie de "second life" ao vivo?

O excesso de material que circula pela internet me apavora. Os usuários da rede se colocam na posição de deuses diante das informações, sem perceber que são mais vítimas do que beneficiários da rede. Outro dia vi um cara com máscara de gás reclamando sua invisibilidade - isso numa sociedade em que todos querem ocupar tudo, não deixando espaço para reflexão. Há um perigo nessas manifestações de "anonimato" em que se aceita a uniformização. Perdemos o foco. Esses protestos se tornam difusos como as mensagens do Twitter que parecem dizer "Estou aqui, mas você não vê meu rosto". Veja como o movimento Occupy se esvazia, perde energia, por falta de foco.

Isso me faz lembrar o ensaio sobre o reality show The Real World, que você incluiu em Pulp Head, no qual descreve os participantes como insanos dentro de um hospício. Esse ensaio já tem duas décadas. O mundo ficou mais maluco desde então? Somos mutantes assumidos?

Esses tipos bizarros do programa que eu analiso no ensaio são oriundos da classe média americana, o que mostra que não somos só rústicos, mas produtos de uma mutação antropológica, como você bem observou, gente pronta para ser manipulada e louca para ser consumida, como nessas manifestações de massa. Sim, isso me preocupa muito.

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