Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Ensaio de Orquestra

Um dia na preparação da Sinfonia n.º 9 de Gustav Mahler com a Osesp e o maestro Isaac Karabtchevsky

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2011 | 00h00

"Não, não, não." O maestro abaixa os braços e, com o gesto, interrompe os violinos durante o ensaio na manhã de terça-feira na Sala São Paulo. "Não façam essa passagem convencionalmente, como se estivessem em um conservatório." São 12 notas, carregadas de tensão e desespero, divididas entre os primeiros e segundos violinos. "Olhem para mim, sigam o meu braço." As notas voltam a soar; violoncelos, contrabaixos e violas se juntam à massa sonora. E os braços do maestro, então, se abrem. "É como se uma janela se abrisse", diz ele, sem que a execução se interrompa. "Preciso que vocês me ajudem a empurrar essa janela."

São apenas três compassos - e o fato de que em poucas notas possam existir tantos significados é testemunha da riqueza expressiva da obra e de seu compositor. Ao longo de 2011, se lembram os 100 anos da morte do austríaco Gustav Mahler; e poucas homenagens são tão especiais - e complicadas - como a execução de sua Sinfonia n.º 9, atração dos concertos desta semana da Osesp, de hoje a sábado, com regência do maestro Isaac Karabtchevsky, que hoje a partir das 19h30 também participa de conversa com o público na série Música na Cabeça.

"A questão é que, em especial no adágio que encerra a sinfonia, você tem que chorar cada nota", diz o maestro, pouco depois, durante o intervalo para o almoço. "Ele é o movimento mais curto em notas, mas o mais longo em intensidade", explica. Karabtchevsky, aos 76 anos, é nosso grande especialista na obra do compositor; encontra rival talvez apenas no trabalho de John Neschling, último a fazer a peça com a orquestra, em 2009. No começo do mês, fez uma elogiadíssima Sinfonia n.º 2 do compositor com a Sinfônica de Heliópolis. Mahler, por sua vez, é o novo Beethoven - ao menos no que diz respeito à maneira como orquestras usam a interpretação de suas sinfonias como atestado de maturidade. Por tudo isso, os concertos desta semana da Osesp são aguardados com expectativa.

"Mais, mais, mais." De volta ao palco da sala, o berro do maestro pede intensidade maior na interpretação. "Cada nota é como a batida do coração do compositor, um coração, ele acabara de descobrir, com um grave problema, que o levaria à morte." A música recomeça mas, em seguida, é interrompida. "Vocês precisam ficar arrepiados quando tocam, senão não faz sentido."

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