'Ensaio', de Leonardo Moreira, faz referências ao cinema

O cinema nasceu devedor do teatro. Sua técnica de capturar imagens em movimento era inédita. Mas, para levar às telas obras de ficção, enredos e formas de interpretação tiveram que ser importadas diretamente dos palcos. Com o tempo, essa história mudou. E hoje, não raro, são as artes cênicas que incorporam traços da linguagem cinematográfica.

AE, Agência Estado

18 Janeiro 2013 | 11h25

Exemplo desse percurso é "Ensaio", espetáculo que o diretor Leonardo Moreira estreia sexta no Teatro Geo. Na peça, filmes não surgem apenas como evocação. Estão na base de construção das cenas, dos diálogos e até dos gestos que os atores reproduzem em cena. "Quase todas as frases ditas foram retiradas de filmes. O que faz da peça uma brincadeira com os clichês do cinema", diz o encenador, responsável também pelo texto. Para escrevê-lo, ele conta, recebeu sugestões dos atores, que selecionaram trechos e cenas de dezenas de longas. Em alguns casos, o espectador verá referências explícitas a certos títulos, caso de "Trama Macabra", de Hitchcock, e de "Blow-Up, Depois Daquele Beijo", de Antonioni. Também não faltam rastros das obras de Woody Allen, David Lynch e John Cassavetes para o público perseguir.

O cinema não está só no conteúdo. Desponta na forma como a criação se organiza. Jargões de roteiros cinematográficos aparecem projetados no alto das cenas. Anunciam à plateia, por exemplo, que aquilo que se vai ver a seguir é uma "Interna. Dia. Casa de Artur". "É uma forma de revelar a estrutura. E de deixar claro que o registro de interpretação dos atores é uma opção consciente", observa o diretor.

A observação faz sentido se considerarmos que tanto o estilo de atuação quanto a dramaturgia que se veem em "Ensaio" diferem radicalmente do trabalho que notabilizou Moreira como um dos mais festejados nomes da sua geração. À frente da sua cia. Hiato, ele construiu uma obra pelo qual já foi duas vezes reconhecido com o Prêmio Shell de melhor autor. Um reconhecimento, aliás, que transcende o cenário nacional. O conjunto foi a Berlim em 2012. Agora, participa do Festival Santiago a Mil, relevante evento teatral do continente, e leva para lá os quatro títulos de seu repertório: "Cachorro Morto", "Escuro", "O Jardim" e "Ficção". Esta última, estreada no ano passado, é um conjunto de monólogos em que alguns dos procedimentos criativos do grupo apareceram radicalizados. É comum, por exemplo, que o autor use na sua dramaturgia traços biográficos, seus e de seus intérpretes, como matéria-prima. Ficção levava essa proposta a certo grau de paroxismo: não trazia personagens - cada ator utilizava a própria identidade. Vinha ainda desprovida de qualquer efeito cênico, como cenário e iluminação.

Projeto independente do jovem diretor e dramaturgo, a atual "Ensaio" está muito distante dessa assepsia: aqui não faltam recursos de vídeo, projeções e até uma cenografia que se movimenta com o desenrolar da trama. Nela, um roteirista Artur (Rafael Primot) se envolve com Marília (Maria Helena Chira), atriz de sucesso muito parecida com Norma, sua mulher que se matou. "Era minha intenção fazer o papel de uma atriz e lidar com esses dilemas que nos são tão comuns, essa dúvida sobre o que é realmente seu e o que é do personagem", diz Maria Helena, que além de atuar é também idealizadora da proposta. Os bloqueios criativos de Artur, assim como os dilemas de Marília com sua condição de celebridade, são alguns dos temas que atravessam o enredo. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

ENSAIO

Teatro GEO. Sala Multiuso. Rua Coropés, 88, Pinheiros, 4003-9949. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 40. Até 3/3.

Mais conteúdo sobre:
teatroEnsaio

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.