Ensaio afinado com a pauta do mestre

Sessenta anos após sua morte, e um século depois do seu Tratado de Harmonia, Arnold Schoenberg tem seu período americano - em geral apontado como decepcionante - reavaliado num novo estudo

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

As grandes efemérides musicais de 2011 são as de Liszt e Mahler, lembrados em 2011 respectivamente pelos 200 anos de nascimento e 100 anos de morte. Que tal soprar velinhas também para Arnold Schoenberg, o mais discutido e menos ouvido compositor do século 20? Afinal, a música contemporânea deve-lhe os fundamentos de sua postura de inovação ou, como escreve Esteban Buch em seu excelente O Caso Schoenberg (2006), o próprio conceito de vanguarda em música.

Trata-se de uma dupla efeméride. Primeiro, pela passagem dos 60 anos de sua morte, em 13 de julho de 1951, em Los Angeles. Celebremos também os 100 anos da publicação de seu Tratado de Harmonia, o livro-texto mais importante do século 20, que Schoenberg dedicou a Mahler. Num gesto de impressionante lucidez, Alberto Nepomuceno começou a traduzi-lo para o português em 1916, apenas cinco anos depois de sua primeira edição em Viena. Mas precisamos esperar até 2002, quando a Editora da Unesp lançou a primeira edição brasileira, em ótima tradução de Marden Maluf.

Poucos livros cumprem o que prometem, escreve Flo Menezes na apresentação. Este possui "o extraordinário mérito de, uma vez lido, dar conta com plenitude de seu objeto de estudo. Para compreender com profundidade o funcionamento do sistema tonal, suas leis e propriedades, assim como se dar conta de suas limitações e do porquê de sua superação histórica, basta lê-lo".

Schoenberg quis - e conseguiu - "estabelecer a compreensão do passado e abrir perspectivas para o futuro". A edição brasileira é um best-seller: 12.500 exemplares vendidos em nove anos. Deveria ter vendido dez vezes mais, porque é livro de consulta diária de todo músico, que não tem o direito de ignorá-lo. "É pura ilusão", alerta Flo, "pensarmos que uma atitude substancialmente revolucionária ou ao menos autenticamente atual possa prescindir de um conhecimento histórico de um sistema de referência tão significativo quanto o foi a velha tonalidade (...) a música se exerce de modo eficaz pela aquisição e sobreposição cada vez maior de conhecimentos técnicos, históricos ou atuais".

Schoenberg esclarece, num livro posterior, que "o desenvolvimento da música é, mais do que qualquer outra arte, dependente do desenvolvimento de sua técnica". Cada capítulo combina notáveis miniensaios de abertura com o ensino da harmonia passo a passo. Dos fundamentos da tonalidade ao mundo pós-tonal, está tudo lá.

Na mesma apresentação, Flo Menezes repete um lugar-comum sobre a produção de Schoenberg dos anos 30 em diante, que os livros repetem há décadas: ele "deixa, pouco a pouco, o papel de mestre e inventor para tornar-se, em menores proporções, um diluidor de suas próprias invenções". Ainda bem que ressalva estarmos diante de um "diluidor, porém, responsável por obras de não menor relevância artística, e isso - vale ressaltar - sem nenhuma exceção!".

A ressalva justifica a empreitada de Sabine Feisst, professora da Universidade do Arizona, que "reabilita" o período norte-americano do compositor no recém-lançado Schoenberg"s New World -The American Years (380 páginas, Ed. Oxford, 2011, disponível na versão eletrônica para kindle; é possível ouvir as obras norte-americanas de Schoenberg em excelentes gravações no "web companion" do livro físico, que dá senha para acesso ao portal da Oxford). Ao contrário das centenas de livros que esmiúçam a fase vienense, é bem magra a bibliografia sobre seus 18 anos finais vividos nos EUA. Feisst mostra que Schoenberg atuou intensamente por 12 anos e mesmo nos últimos seis, já abatido pelas sequelas de um ataque cardíaco em 1946, manteve-se em atividade: "Ele produziu um importante conjunto de obras, destacou-se como professor influente e imprimiu sua marca inconfundível na vida musical norte-americana".

Venderam-nos erradamente que ele foi "um outsider desorientado, isolado e ignorado pelo mundo musical". Os comentários de Feisst sobre o quarteto n.º 4, a Ode a Napoleão Bonaparte, Um Sobrevivente de Varsóvia, obras corais, arranjos e a importante Sinfonia de Câmara n.º 2 mostram-no à vontade em seu país de adoção.

"Profeta incorruptível da dissonância". O que Schoenberg compôs nos Estados Unidos é historicamente tachado de reacionário diante do brilho radical dos seus anos europeus nas primeiras décadas do século 20, quando rompeu com a tonalidade, assumiu a atonalidade e formulou a técnica de composição com 12 sons. Por causa do nazismo, o incorruptível profeta da dissonância teria sido "expulso do paraíso artístico da Europa e jogado no deserto cultural dos Estados Unidos".

A versão convencional dá conta de que ele conviveu com alunos despreparados, dificuldades financeiras e problemas de saúde. Compôs obras convencionais no berço do capitalismo - até tonais, escrachadas por Pierre Boulez, àquela altura o novo "enfant terrible" da vanguarda europeia. "Sua criatividade teria murchado e suas ideias jamais poderiam vingar neste solo infértil." Aqui Feisst é enfática: "Tais mitos, embora persistentes, não se sustentam quando investigados mais de perto".

Repetidos desde as primeiras biografias europeias de Schoenberg escritas pouco depois de sua morte por Stuckenschmidt e Willi Reich, reforçaram-se com a distorcida edição de sua correspondência por seu aluno Erwin Stein (1958), que privilegia as queixas ao novo país.

Ora, diz Feisst, na verdade ele se adaptou muito melhor aos EUA do que Adorno, Brecht e Thomas Mann. Incorporou com prazer, afirma Feisst, o "american lifestyle"; adorava Chaplin, Harold Lloyd e os irmãos Marx.

Politicamente, amaciou, é verdade. Durante a caça às bruxas macarthista, declarou que jamais havia sido comunista e que os artistas deveriam ficar de fora da política. Ao contrário de Adorno, que detestava o jazz ou a música popular, ele julgava "infantil" a música clássica produzida pelos norte-americanos. Em certo sentido foi herdeiro de Dvorák: queria mostrar-lhes como se fazia boa música. E, ao recorrer nostalgicamente ao passado (na orquestração do quarteto de Brahms, em 1937, por exemplo), exibia evidente preocupação pedagógica.

Também não se deve desprezar o fato de que pela primeira vez teve seu ego afagado, anteviu aceitação e até inédito sucesso relativo junto ao público. O levantamento de Feisst aponta que, ao contrário do que se pensa, suas obras foram executadas centenas de vezes. "Toda a sua produção do período documenta essa adaptação", reconhece. A hegemonia schoenberguiana nas universidades norte-americanas levou até seu ferrenho adversário Igor Stravinski a adotar a técnica serial em 1954, três anos depois da morte do autor de Pierrot Lunaire.

Em certo sentido, Sabine Feisst força um pouco a barra ao supervalorizar demais mesmo as obras claramente descartáveis. Mas abre nossos olhos e ouvidos: daqui pra frente não será mais possível decretar em bloco que ele apenas diluiu o que inventara décadas antes em Viena.

JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA E CRÍTICO MUSICAL, AUTOR DE NO CALOR DA HORA (ALGOL)

SCHOENBERG"S NEW WORLD - THE AMERICAN YEARS

Autora: Sabine Feisst

Editora: Oxford

University Press

(380 págs., import.: R$ 78,10)

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