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Enredados nas redes

Criadas para aproximar pessoas, as redes sociais, frequentemente, produzem resultado oposto

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

31 de dezembro de 2019 | 03h00

Não foram as redes sociais, é claro, que inventaram a agressividade, a grosseria e outras perebas da alma – mas está difícil imaginar ambiente mais propício do que elas para o exercício daquilo que de pior tenha o ser humano. 

Antes que me acusem de estar fazendo mimimi, fique claro, também, que a constatação não ignora a existência de um lado bom nas redes sociais – as quais, para o bem e para o mal, obviamente vêm a ser um dos fenômenos globais mais impressionantes da última década. Quantos já não se valeram delas, por exemplo, para recuperar no breu do tempo afetos que em alguma curva se desconectaram? Quantos, ainda mais numerosos, não se valeram das redes para pescar algum amor insuspeitado? Inclusive no Tinder, esse aplicativo concebido para facilitar a saciedade imediata dos apetites do corpo.

Viva pois o Facebook, o WhatsApp, o Twitter, o Instagram e o que mais tenha criado o engenho humano para congregar e interligar pessoas – balaios virtuais que, no entanto, tão frequentemente têm produzido efeito oposto, carregados que estão de impulsos de desagregação. Alguma coisa desandou entre os bons propósitos de seus criadores (impossível não pensar num nerd aninhado no Vale do Silício, com a pele alva e o rosto cravejado de espinhas) e o uso que se deu a suas criações. Não tardaram as redes, de fato, a se converter em campo fértil para a plantação de mentiras abrigadas hoje sob o rótulo menos contundente de “fake news” – as quais, lembrou ontem no Estadão um pesquisador do Massachusetts Institute of Technology, têm o poder de se espalhar 70% mais rápido do que as informações verdadeiras. O uso de notícias falsas, acrescentou o professor Sinan Aral, marcou, entre outras consultas populares, a eleição brasileira de 2018.

Sem o olho no olho, é fácil pingar nas redes as mais corrosivas aleivosias, abatendo a ilusão de quem pensava encontrar ali um território para exposição e discussão de ideias. A não ser excepcionalmente, elas já não são, se é que um dia foram, lugar onde discutir e divergir civilizadamente. Uma pesquisa Datafolha revelou, dias atrás, que 51% dos usuários brasileiros do WhatsApp desistiram de postar opiniões políticas, como forma de evitar encrenca com amigos ou familiares. 

A não ser por exceção, as redes sociais não toleram nada além do preto no branco, não sendo admitidos os meios tons e as nuances de que se tecem os bons debates. Existe nelas pouco espaço para que se possa exercer a democracia, nos moldes da sábia recomendação de Millôr Fernandes, para quem “todo homem tem o sagrado direito de torcer pelo Vasco na arquibancada do Flamengo”. Melhor cair fora, portanto, quem não pense como os demais naquela reserva do pensamento unânime e rombudo. E que se contente, quem fica, com a mesmice de uma confraria onde, sob pena de bordoada e bloqueio, todos concordam com todos. Já vimos esse filme na ditadura de 64, quando, nos domínios da esquerda, a menor divergência resultava em ruptura, levando à multiplicação de grupúsculos, cada um deles, dizia-se, numeroso o bastante para lotar um fusquinha.

Território predileto do iracundo clã que alguém chamou de “Bolso-família”, o Twitter parecia trazer, no início, um salutar desafio na busca de uma expressão exata, lipoaspirada, capaz de dizer a que veio em no máximo 140 caracteres, aí incluídos os espaços. Não tardou, aliás, a inspirar um livro, Twitterature, delicioso exercício em que grandes – em mais de um sentido – obras da literatura universal foram desidratadas para se ajustarem àquele limite e no menor número possível de tuítes. 

O figurino exíguo me fez lembrar uma observação de David Belasco, homem de teatro americano morto há quase 90 anos: “Se sua ideia não cabe no verso do meu cartão de visita, você não tem uma ideia clara”. Ou o cronista José Carlos Oliveira, quando veio nos lembrar: “Palavra é sangue. Não se derramar”. A mesma busca de economia guiava Jack Dorsey quando, em 2006, criou o Twitter – palavra inglesa que significa “gorjeio”, jamais desenfreada cantoria. Dois anos atrás, porém, decidiu-se dobrar o limite – embora uma pesquisa tivesse mostrado que apenas 9% dos usuários gastavam todos os 140 caracteres. Para muitos usuários, e aqui não me refiro a nenhum clã em especial, dobrou-se também a possibilidade de maltratar, além das boas maneiras, a ortografia e a gramática. 

Já que este cronista parece ter tirado o último dia do ano, que felizmente se vai, para ver o lado ruim das coisas, lhe seja permitido lembrar também a extraordinária indigência verbal em que um prêt-à-porter como os emojis e emoticons nos dispensam de elaborar opiniões e sentimentos sob medida. Meus intrincados sentimentos por você irão se traduzir no lugar-comum de um rubro coração pulsante, e a resposta à ansiedade de meu coração verdadeiro poderá se reduzir a um polegar amarelo empinado. Se alguém lançar mão do bom humor, precisará talvez acrescentar “rs” ou “kkk” para avisar que acaba de dizer algo engraçado.

Quanto ao Facebook, há tempos registrei aqui umas tantas práticas bizarras lá observadas – entre elas, o fato de existir ali uma razoável quantidade de defuntos, e nem sempre por falta de uma alma piedosa que lhes proporcione o descanso eterno. Criou-se, assim, um cemitério virtual, em que, por iniciativa de sobreviventes, gente morta segue recebendo mensagens de feliz aniversário. (De uns tempos para cá, sem eliminá-los, o aplicativo nos faz a gentileza de informar que fulana ou fulano já não estão entre nós. Não ficaria bem cutucar defunto.)Sugeri que se dote o Facebook de um dispositivo semelhante ao “curtir”: “cremar”. E já autorizei meus filhos a remover o pai tão logo ele bata as botas. 

Mas que diabos foi fazer ali este antipático? Entrei, confesso, para divulgar o meu trabalho de escritor, na suposição de que quem vê Face, vê book. Parece que, uma vez mais, peguei o bonde errado.

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