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Lúcia Guimarães
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Enquanto Roma arde

Chegamos ao ponto em que é preciso pedir desculpas para interromper a conversa sobre o raio do vestido branco/azul para anunciar que o Boko Haram se uniu ao Estado Islâmico? "Pensei que Boko Haram era o nome de um grupo de rap", pode responder ao interlocutor hipnotizado pela imagem do raio do vestido na tela.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

09 Março 2015 | 02h06

Como qualquer pessoa que criou adolescente sabe, não se chega a lugar nenhum com sermões. Quem se atormenta com uma nova espinha no canto direito do queixo, justo antes de uma festa, não quer saber de ser instado a agir com mais responsabilidade. Muito menos pensar no futuro. Uma tática que testei com alguma eficácia foi o ataque preemptivo. Esperava um momento de total relaxamento e placidez, por exemplo, dirigindo no campo num dia ensolarado, para avançar sobre o território até então considerado livre de ingerência materna, com uma mensagem curta e clara sobre as consequências da infração. Para logo aumentar o rádio porque esta música do Prince é o máximo. Adolescente quer saber de si mesmo, de suas tempestades em copo d'água e não suporta o drama adulto que o espera quando dobrar a esquina da maioridade.

Ofereço modestamente minha experiência materna para interromper o idílio do gatinho que rola na grama com o cachorrinho. Sem querer fazer drama, não vou tomar o tablet de suas ilusões, mas, sim, o Boko Haram se uniu ao mais formidável grupo terrorista da atualidade, o Estado Islâmico. E não, não se trata de uma banda de rap e sim de um bando de islamistas que já matou mais de 6 mil pessoas na África. O nome deste exército que desafia a definição do que é humano, se traduz "educação ocidental é proibida", na língua hausa, falada em vários países africanos. Já o Estado Islâmico, que compete online com o raio do vestido quando degola reféns, controla, no Iraque e na Síria, uma área quase do tamanho da Jordânia.

No Ocidente iluminado, não haveria de ocorrer a ninguém proibir a educação, se não contarmos os fundamentalistas evangélicos que tentam banir o ensino da Teoria da Evolução das escolas públicas em alguns Estados norte-americanos. Não há a menor necessidade de usar métodos violentos para promover ignorância e alienação. É só disparar o vídeo do felino recém-nascido tomando mamadeira na palma da mão de alguém.

Do ponto de vista neurológico, podemos olhar simultaneamente para duas telas, uma com o raio do vestido, outra com o anúncio oficial da nova aliança do terror. Mas, do ponto de vista psicológico, não é possível processar a importância desta notícia que afeta o Oriente Médio e a África e, ao mesmo tempo, decidir a cor do raio do vestido.

Em algum momento, responsáveis por entreter e informar o populacho decidiram que nossa adolescência não precisa terminar e não queremos saber de drama, só de autorreferência. A certa altura, decidiram que um fato como a invasão da Ucrânia, que não pode se encapsulado numa postagem de rede social, merece tanto texto quanto um não fato. A diferença é a supressão das figuras adultas para explicar que uma dieta restrita a junk food leva à deficiência vitamínica e obesidade. O que dizer de uma dieta de bichinhos, memes e GIF's animados? O raio do vestido é o biscoito de polvilho Globo cheio de ar que minha mãe me dava na praia do Leme, desde que eu comesse bife, arroz e feijão quando chegasse em casa.

Muito antes de Roma arder e Nero ser acusado injustamente de tocar uma lira diante da catástrofe, os assírios construíram Nimrud, 900 anos antes da era cristã. Há uma coincidência perversa no fato de que o Estado Islâmico destruiu as ruínas de Nimrud, para apagar um tesouro da memória da humanidade, enquanto centenas de milhões se consumiam em deliberações sobre o raio do vestido.

Vamos ficando incapazes de processar moralmente o significado de tratores destruindo a herança de um reino da Antiguidade. Preocupados com o bebê panda que caiu do galho, nem notamos que a Petrobrás ardeu.

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