Enquanto isso, em Juazeiro

Só quem vai à sua cidade pode entender, afinal, o que é que o baiano tem

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Que história de gênio que nada. O que João Gilberto queria ser mesmo era um ônibus. E um ônibus bem mazela, daqueles que vinha desmanchando pela Avenida Carmela Dutra, na orla do Rio São Francisco, lá pelos anos de 1950 em Juazeiro da Bahia. João via a cena com ternura ao lado de amigos que o viam com espanto. "Eita que o rapaz é doido mesmo", era a frase que se ouvia. Ao sentir os colegas o estudando, tentava explicar a origem dos seus desejos. "Olha que coisa feliz, eu queria ser um ônibus desse." "Que isso, João? Ser um ônibus velho e feio desse?" "Não rapaz, repare só. Eles passam embaixo das árvores e as folhas coçam a cabeça deles. É lindo." Ninguém entendia João e João não entendia ninguém. O que faltava ao mundo, dizia, era um pouco mais de poesia.

A Juazeiro de João Gilberto ainda está lá, com um sol que só não torra seus 197 mil habitantes como amendoim graças à brisa do Rio São Francisco. Uma ponte de 800 metros liga suas casinhas e ruas estreitas às avenidas de Petrolina, espécie de prima pernambucana mais rica e mais robusta. O prato mais servido do lado de cá do rio é o bode - com guarnições suficientes para sustentar três cabras famintos. E o time com mais torcedores - pobre Sociedade Desportiva Juazeirense - é o Flamengo de Ronaldinho Gaúcho.

De João Gilberto mesmo, quase nada. A Casa de Cultura João Gilberto é um espaço que nem aula de música tem. A irmã Vivinha, única da família em Juazeiro, mora ali ao lado. "João não gosta que falamos dele." O endereço em que ele nasceu, no centro, está alugado para a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrário. Na praça em frente ao Country Club há a estátua de um homem tocando violão. Mais de perto vê-se que tem barriga. E, ainda mais de perto, lê-se: "Homenagem a Alsus Almeida de Sangalo". Alsus, ex-ourives, violonista nas horas vagas, foi pai da também juazeirense Ivete Sangalo.

O João que sobrou em Juazeiro da Bahia está na cabeça de gente com mais de 80 anos que nunca saiu de lá, lúcida o suficiente para ajudar a entender por que aquele menino com jeitão esquisito que assustava visitas na casa da mãe, Dona Patu, se tornou esse caso raro de homem elevado a lenda ainda em vida. Até fazer 18 anos, quando foi estudar e tentar o caminho das artes em Salvador e depois no Rio de Janeiro, João brincou na grande casa de cinco quartos no número 20 da Praça Imaculada Conceição; nadou nas águas do São Francisco com o amigo Galo; dançou valsa e bolero no Clube 28 de Setembro com a bela Edhete; tocou violão com o gozador Pedro China; e foi expulso, ou melhor, convidado a se retirar da escola pela professora Maria de Lurdes Duarte - um dos episódios não visitados nem pelos livros de época sobre o cantor.

Uma senhora com lembranças que valem ouro diz o seguinte: "João, o aluno, era terrível". Ao menos naqueles anos primários na escola que funcionava em um prédio de 1928 onde fica hoje a Casa dos Artistas, ele bagunçava as carteiras da classe e a vida dos amigos. E nada em seu boletim dava a entender que haveria compensações futuras. As notas de João eram "normais", lembra a professora Lurdes Duarte, hoje com 93 anos. "Ele tinha uma personalidade danada, era bagunceiro, trocava tudo de lugar." Seu irmão, um bom garoto, estudava na mesma escola. Quando a paciência de Lurdes se foi, ela chamou a mãe de João para uma conversa. "Dona Patu, lamento muito mas não tenho condições de ficar com o seu filho. Ele é impossível." Patu, que sabia ser dura, se indignou: "Tudo bem, então eu tiro os dois". João dançou pela primeira vez. E levou o irmão junto com ele.

Juazeiro da Bahia não é a Juazeiro do Norte, de "Padim" Padre Cícero, que fica no Ceará. É menor. Quando João veio ao mundo, calcula-se, seus vizinhos não eram mais do que 10 mil pessoas. O pai, Joviniano, era dono de armazém na cidade. A mãe, Patu, católica de dobrar os joelhos. A casa da família onde João nasceu fica em frente da Igreja da Imaculada Conceição, no centro. A mãe acendia as velas nas missas de domingo, João as apagava. Sem vocação para terços e rosários, rejeitaria até mesmo ser incluído em uma elogiosa figura de linguagem, ao lado de Tom Jobim e Vinicius de Morais. "Ele não gosta quando dizem que só sobrou ele vivo da Santíssima Trindade", diz o amigo Maurício Dias. "Diz que é mau agouro."

O menino era danado não só na escola. Dona Juzy Duarte, 82 anos, lembra de uma cena testemunhada na casa de Dona Patu por uma amiga, Maria, que lá ficaria hospedada uma noite. "Dona Patu pediu para João pegar um copo d"água na cozinha. João foi e voltou girando uma espécie de bandeja com cordinha da época que trazia o jarro e os copos com água. Ele fazia isso tão rápido que a água não caía." Sua amiga queria sumir: "Não fico mais lá não", disse depois.

Violonista amigo de João, Pedro China tem uma das boas. "Eu estava na casa de João um dia. Enquanto eu falava com ele, seu pai, Joviniano, fazia a barba. João disse pra mim: "Quem ver meu pai cortar o rosto com a lâmina?" Eu disse "como é?". Aí João gritou: "Seu Joviniano!" Ao se virar, o pai cortou o rosto na hora. E João sorriu: "Eu não falei?"".

A força da música teria sido transformadora na personalidade de João Gilberto. "Ele não gostava nem mais de namorar. Ficava no cais do São Francisco tocando violão sozinho", fala Pedro China. Foi com China que João formaria seu primeiro grupo. "João fazia a gente ensaiar 20 vezes para cantar uma. E dizia: "Fulano entra assim, cicrano entra assim"". Os grupos que chegavam a eles pelo rádio eram Anjos do Inferno, Quatro Ases e Um Coringa e o cearense Verdade Tropical. A esse, João reagia: "Esses "cabeças chatas" não cantam é nada".

Bem antes de criar a batida da bossa nova, que só viria em definitivo com Chega de Saudade, o violão já era um parceiro nas dores de João Gilberto. Dona Juzy, da turma da irmã de João, Maria, tem uma imagem que não desbota de suas memórias. Era velório do pai de João. O corpo estava sendo velado em casa. Os adultos choravam, as crianças brincavam. E João, cadê João? "Estava tocando violão. Nunca me esqueço daquilo. Enquanto o pai era velado ele ficava lá, sentado sozinho na pracinha perto da casa com aquele violão triste."

Antes de agradecer às mãos pelo bem de puxarem as cordas de seu instrumento de um jeito que ninguém puxara antes, João deve agradecer aos pés. João Gilberto, o garoto de 16 , 17 anos, era um pé de valsa de fazer as garotas do Clube 28 de Setembro suspirarem. Edethe Moreira Duarte, 79 anos, era uma delas. Elegante, bela ainda hoje, era rigorosa com parceiros e usava de um expediente cruel para evitar os pernas de pau que se aproximavam: corria para o banheiro. Mas, com João era diferente. "Eu não poderia dizer não para ele. Era um ótimo dançarino de valsas e boleros. Dançava calado e fazia a dama voar em seus braços." Seu tom parece aquele das paixões antigas. Mas ela diz que não. "Éramos apenas amigos."

João se vai de Juazeiro, ganha o mundo, cria a bossa, vira o mito, e não parece sentir saudades da carne de bode. Como João, o Grande, voltaria poucas vezes a Juazeiro, sempre protegido pela aura de mago excêntrico que o livraria da condenação de louco em sua própria terra. E então, ganha carta branca. Quanto mais insanidade dizem que tem, mais gênio parece ser. E aí, dá-lhe história: "Rapaz, era 3h da manhã quando fomos a um bar e ele pediu um caldo de mocotó. Tomou tudo aquilo e quis uma manga. Eu disse: "Mas João, você vai passar mal?". E ele: "Se eu não vomitar é porque meu fígado está bom"", diz Maurício Dias. "Certa vez ele tocava na casa de um primo quando ouviu a torneira da pia da cozinha pingando. Aí percebemos que ele diminuía o andamento da música para colocá-la no ritmo daquele pinga-pinga", diz o mesmo amigo. Seu retorno mais doloroso seria em 1981, com a morte da mãe Patu. "Ele tocou violão baixinho lá no último quarto da casa quando soube da notícia", diz Fernando Oliveira, de 85 anos.

Fernando se tornou o cabeleireiro oficial de João Gilberto em Juazeiro. Amigo da família, era sempre ele a atender às demandas da vaidade de João que, diga-se, não eram muitas. Única exigência diante dos espelhos de Fernando: esconder a calvície do cocuruto, cada vez mais pronunciada. "Eu passava um lápis escuro nos fios para dar volume e disfarçar. Hoje acho que não resolveria mais."

Seu Jorge é filho de Seu Galo, músico amigo de João no grupo Enamorados do Ritmo e nadador dos bons capaz de atravessar o São Francisco para comprar cigarros em Petrolina e voltar também a nado com o cigarro amarrado na cabeça. Ao retornar certa vez a Juazeiro, João quis ver a casa do amigo falecido. "Ele veio sem avisar, entrou e foi direto para o quarto deitar na cama do meu pai. Ficou olhando para o teto e dizendo: "Ah, esta é a cama do Seu Galo". Eu criança, fui correndo contar pra minha mãe assim que ela chegou: "Mamãe, tem um homem deitado na sua cama"".

Insanidades em Juazeiro é com o doutor Dewilson. Dewilson Oliveira, 87 anos, é primo de João Gilberto, psiquiatra e dono do Sanatório Nossa Senhora de Fátima desde 1957. Fala com dificuldades mas tem tutano para dar um diagnóstico ao parente, seja como doutor das faculdades mentais, seja como primo de mil histórias. Afinal, doutor Dewilson, João Gilberto é louco ou é gênio? "Que louco que nada. O problema é que João só faz aquilo que ele quer fazer."

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