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Enquanto há sorriso, há esperança

'Mesmo em meio às situações tensas sorrir é um sinal de que, apesar dos pesares, está tudo bem'

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 03h00

Eu promovi uma aglomeração gigantesca por ocasião de meu aniversário. Não me julgue: isso foi há quase três décadas, quando fiz 18 anos. Estava então no terceiro colegial, hoje terceiro ano do ensino médio, e resolvi chamar a classe inteira para comemorar em minha casa. Acontece que era emenda de feriado, e a turma toda resolveu comparecer. Não havia espaço no apartamento para tanta gente. Não tenho muita saudade dos meus 18 anos nem especial apreço por aglomerações. Mas guardo essa festa com carinho em minha memória. Na ocasião ganhei de presente uma camiseta que guardei por anos. “Preserve a humanidade: sorria”, dizia. Era a minha cara, segundo os amigos. Acredito que estavam pensando nas minhas palhaçadas, já que seriedade nunca foi meu forte. Mas a camiseta também pode ser lida como uma referência à teoria da evolução já que o sorriso talvez seja realmente uma das habilidades mais importantes desenvolvidas pelos seres humanos. Animais fracos, lentos e vulneráveis que somos, foi a cooperação que nos fez chegar até aqui. E ela fica muito mais fácil com um sorriso. Além disso, ele é frequentemente o primeiro movimento que culminará meses depois com o nascimento dos bebês, perpetuando a espécie.

Por falar em bebês, com cerca de um mês e meio, após passarem a primeira fase da vida deixando bem claras todas as suas insatisfações por meio do choro, eles logo aprendem a comunicar seus prazeres por meio do sorriso. O surgimento do sorriso social eleva o nível do relacionamento entre pais e filhos para outro patamar. É como se após nos ensinarem o que os incomoda eles passassem a nos dizer o que lhes apraz. E como funciona: receber um sorriso é ser agradado por estar agradando, o que coloca uma sequência de reforços positivos em marcha, que durará por aproximadamente a vida inteira. Sorriremos pelo resto de nossos dias diante do que aprovamos, e estaremos sempre à espera de sorrisos de volta. 

O sorriso é assim, um selo de aprovação automaticamente reconhecido. Cruzamos olhares de longe com alguém e sorrindo mostramos antes mesmo de nos aproximarmos o prazer que temos naquele encontro. (Preste atenção: escondê-lo sob as máscaras como hoje somos obrigados a fazer é quase como andar de olhos fechados no que diz respeito à comunicação dos afetos a distância.) Ouvimos um elogio e antes de abrirmos a boca para dizer algo os lábios já se ergueram em agradecimento. Poucas formas de comunicação transmitem tanta informação com tanta economia.

Mesmo em meio às situações tensas sorrir é um sinal de que, apesar dos pesares, está tudo bem. Levamos um tombo e diante dos olhares assustados dos outros nos levantamos sorrindo para aliviar-lhes a preocupação. Iniciamos uma apresentação, nervosos, e nos obrigamos a sorrir para pedir a todos que não sejam hostis. Quando casais encerram conversas desagradáveis com sorrisos estão, sem falar, dizendo que apesar das desavenças seguem juntos. Quando sorriem para nós, então, sabemos imediatamente que estamos no caminho certo.

Nestes dias complicados, sempre que puder mostrar o rosto, sorria. Pois, enquanto há sorriso, há esperança.

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

 

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