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Enquanto corria a barca

A dependência da barca era total, o que tornava a distância entre Niterói e o Rio mais acentuada

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2022 | 03h00

Em memória de Morais Moreira e para Edson Nunes

Andei muito de bicicleta, bonde, ônibus e – acreditem, de cavalo e mula –, de trem e, acima de tudo, de barca.

A barca com duas frentes (ferry boat) que ligava Niterói ao Rio e vice-versa, mas que nós, niteroienses, concebíamos mais como nos ligando ao Rio de Janeiro que era, ao mesmo tempo, a Capital da República e a cidade mais bela do mundo. 

“Pegar a barca para o Rio” era visitar o futuro e o melhor do Brasil, voltar para Niterói era voltar “para casa”, para uma capital não competitiva – o lado pequeno e invisível da Cidade Maravilhosa.

Ir ao Rio e voltar a Niterói salientava a perene emoção entre o “estar em casa” e o “sair de casa” e, pior que isso, o de esperar inseguro na fila e “na rua” de encruzilhadas perigosas. 

Fora da casa, tirando a praia das Flechas e a de Icaraí, onde fui criado vendo a paisagem magnífica do Rio; a “rua”, naquele tempo como hoje, é o contrário da “casa”. Não tenho espaço para relembrar as ruas de um Brasil escravocrata onde, nos seus onipresentes pelourinhos, negros eram chicoteados. 

A divisão central e implacável entre os espaços de senhores e de escravos, ambos submetidos a um sistema do mais ou menos nobre, fez com que a rua e o seu espaço de mobilidade – as “paradas” de bonde e ônibus e, no caso niteroiense, a estação das barcas – fossem, e continuam sendo, lugares de ansiedade. 

Quando sozinho fui ao Rio pela primeira vez, recebi uma bíblia de conselhos relativos aos perigos dos espaços abertos onde não se é conhecido. Locais onde “tudo poderia acontecer” e “se pode encontrar qualquer um”. Locais de extremo anonimato e sem se saber quem é quem, corre-se o risco do roubo e da “falta de educação”. E depois ficamos espantados com o “você sabe com quem está falando?”.

No caso das barcas, um comportamento tipo “salva-se quem puder” era visto quando os portões se abriam e havia uma corrida para a barca, cuja fila existia apenas na compra da passagem. Lembro-me da sofreguidão para encontrar lugares em barcas muitas vezes vazias. 

Mas o traço distintivo de ir ao Rio era que a cidade só permitia a passagem entre casa e rua, entre o mundo gratuito da casa e o universo comercial e do trabalho da rua, por mar. Não havia meios alternativos e a dependência da barca era total, o que fazia com que a distância Niterói-Rio fosse social e simbolicamente acentuada.

Felizmente foram tempos passados. Hoje, os engarrafamentos da ponte e a infernal ausência de transporte público tornaram tudo pior. 

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