Enigma de Silva

Aos 23 anos, um capixaba ex-músico de rua na Irlanda desponta como ótimo criador

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h10

Silva, só Silva. Assim, sem perfumaria, Silva talvez não fosse a alcunha ideal de quem pensasse ir longe com um punhado de boas músicas nas mãos. Aos 23 anos, o capixaba Lúcio Silva Souza vem sem pretensões, mas com vivência suficiente para saber que quanto mais chique se quer ser, maior o tombo. Sem querer ser nada, Silva se firma como quem pode ter bastante, e em pouco tempo. Suas músicas são espalhadas como gripe pela internet, de uma forma que o impossibilita contabilizar, afinal, quantos ouvintes tem. Seu termômetro é o que lhe chega pelas portas do mundo real. Jornalistas começam a ligar e uma gravadora de porte no Rio de Janeiro (não divulga o nome para não 'melar' o negócio) quer porque quer lançar seu disco no início do ano que vem. E isso porque ele disponibilizou apenas cinco músicas na internet.

A força de Silva está no poder de fazer de cada canção uma história de vida própria. É como se ele fosse um artista diferente a cada criação, desprendido dos clichês que poderia cultivar naquilo que deu certo na faixa anterior. Há ali muito de programação digital, mas com timbres analógicos que não o deixam no vale dos 'novos eletrônicos'. Não há tristeza nas nuvens que sustentam suas canções, as camadas de timbres não as sufocam e sua voz está sempre a serviço de uma bela melodia, pop e assobiável. O cara tem um radar de longo alcance, mas tudo vem com uma espécie de 'selo Silva de produção'.

Silva é a personificação da figura do web compositor: solitário na criação, planetário na criatura. "Não encontrei músicos que entendiam o que eu queria fazer, por isso fiz tudo sozinho." Seria chato se a história começasse assim, mas ela é anterior ao quarto fechado. Um tio que tocava piano oito horas por dia em casa o embriagou logo de óperas e Chopin. A mãe, professora na Faculdade de Música do Espírito Santo, teve grande influência. Sua formação, pode-se dizer, é clássica. Ano que vem Silva se forma em violino, depois de já tocar piano, baixo, guitarra e violão.

Quando a Europa começou a se despedaçar, em 2009, Silva foi estudar inglês na Irlanda. Sem dinheiro para pagar o curso, decidiu tocar violino com um grupo de músicos de rua que conheceu no centro de Dublin. Um irlandês, um tcheco, um espanhol e dois brasileiros faziam algo que ficava entre o funk, o disco, o blues e o dub. Seja lá o que for isso, o negócio deu certo. Dieudonné, polêmico humorista francês, esquerdista até a pleura, estava entre os passantes em frente ao Temple Bar no segundo dia em que os rapazes faziam um som. Parou e os convidou a abrir seus shows em Dublin. Dali, vieram convites para outras apresentações e um dinheiro a mais começou a pingar. "Era assim que eu pagava meu aluguel."

De volta ao Brasil com uma música na manga, A Visita, Silva passou a compor mais em português. Suas faixas foram parar nas mãos de Carlos de Andrade, um produtor carioca que apostou suas fichas no garoto. Lucas Paiva, amigo formado em engenharia de áudio em Londres, fez a mixagem e deu palpites em cada composição. Assim que seu primeiro EP ficou pronto, começou um exercício dos ouvidos para classificá-lo. Chillwave? Talvez Imergir tenha essa leveza, e só. Folk? A Visita faz essa inclinação, e só. Los Hermanos? Aí a coisa pega. "Já falaram que tenho algo parecido com eles, mas não é o que eu tenho vontade de fazer nem o público que eu quero atingir. Não quero fazer música para uma galera metida a cult." Silva se tranca no quarto para fazer virar o que deve ser o seu primeiro disco físico a ser lançado no início do próximo ano, pela tal gravadora misteriosa.

Lúcio Silva prepara agora seu

primeiro disco. Mais eletrônico,

deverá sair por uma gravadora carioca

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