Engenho e arte de José Lins do Rego

Reedições de obras clássicas trazem de volta a narrativa sensível do autor paraibano

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

O projeto de reedição da obra do paraibano José Lins do Rego (1901- 1957) pela José Olympio não poderia vir em momento mais oportuno: há uma saudável retomada, pelo mercado editorial, de narradores da primeira metade do século passado cujos trabalhos, agrupados sob o estigma "regionalista", revelam atualmente outros matizes além do ideológico e sociológico. Não apenas está mais visível a faceta da engenhosidade técnica de autores como Erico Verissimo e Jorge Amado, como há uma resposta positiva do público ao ritmo e aos objetivos de entretenimento de qualidade que seus livros oferecem.

Dentro dessa proposta, voltam às livrarias, em edições bem cuidadas, dois romances centrais da ficção de Lins do Rego. Menino de Engenho, de 1932, primeiro passo para a década mais criativa do autor; e Fogo Morto, de 1943, uma operação narrativa riquíssima que retoma todos os temas do ciclo da cana-de-açúcar.

Menino de Engenho é um dos livros mais sensíveis da literatura brasileira. Carlos, órfão de pai e mãe, vai viver no engenho do avô, o Coronel Paulino. O leitor sabe que o futuro de Carlos é ser um latifundiário, mas Lins do Rego capta extraordinariamente no romance a capacidade de o ser humano se apaixonar por aquilo que não cabe em sua vida - seu destino.

Fogo Morto, um dos poucos títulos de Lins do Rego escrito em terceira pessoa, é dividido em três partes, cada uma explorando um personagem distinto. Todos vivem no Engenho Santa Fé, mas seus mundos são diferentes. O engenho está seco, empobrecido: seus habitantes parecem sofrer de alguma espécie de demência enquanto lutam para vislumbrar algum horizonte. Os temas que eram doces e ingênuos no ciclo da cana-de-açúcar são retomados aqui em chave amarga.

O argentino Jorge Luis Borges relacionava simplicidade com sabedoria, e não há dúvidas que Lins do Rego sabia disso. Há uma profunda dor em seus livros, um contagiante sentimento da armadilha do tempo, ainda que exista um febril erotismo em seu trabalho. As ruínas dos canaviais simbolizam a morte de toda uma temporalidade - o frêmito cadavérico estraga a alma de homens que crescem com valores que os preparam para um mundo que, quando se tornam adultos, deixou de existir. E é por isso que a obra de José Lins do Rego ainda emociona e contagia: o leitor retoma sonhos de juventude enquanto tem a experiência de ler seus romances.

MENINO DE ENGENHO

Autor: José Lins do Rego

Editora: José Olympio

(192 págs., R$ 25)

FOGO MORTO

Autor: José Lins do Rego

Editora: José Olympio

(416 págs., R$ 39)

Estante

O COBRADOR

Autor: Rubem

Fonseca

Editora: Agir

(224 págs., R$ 39,90)

O título deste livro de 1979 refere-se ao protagonista, misto de bandido e poeta, e também é uma resposta ao fato de a obra anterior de Fonseca, Feliz Ano Novo (1975), ter sido recolhida por ordem da censura.

O MUNDO

VISTO DAQUI (PRAÇA GENERAL OSÓRIO): 1980-1983

Autor: Millôr

Fernandes

Editora: Desiderata

(224 págs., R$ 44,90)

Coletânea de pensamentos, crônicas e desenhos que tratam de temas como futebol, sociedade, corrupção e imprensa num Brasil ainda em redemocratização.

SATORI EM PARIS

Autor: Jack Kerouac

Tradução: Lúcia Brito

Editora: L&PM

(128 págs., R$ 12)

O livro, um dos últimos de Kerouac (1922- 1969), parte da busca do americano pelos antepassados na Europa, ao mesmo tempo em que se aprofunda no misticismo oriental - o Satori do título significa "iluminação súbita" em japonês.

TEMPOS DE CASA-GRANDE (1930-1940)

Autora: Silvia

Cortez Silva

Editora: Perspectiva

(244 págs., R$ 36)

A historiadora e professora da Universidade Federal de Pernambuco parte da ideia de que Gilberto Freyre era racista para mostrar como ele teria acobertado tal faceta em Casa-Grande e Senzala.

A ORIGEM DO

CRISTIANISMO

Autor: Karl Kautsky

Tradução, introdução e notas: Luiz Alberto Moniz Bandeira

Editora: Civilização Brasileira

(560 págs., R$ 69,90)

Intérprete da doutrina de Marx, o polonês (1854-1938) analisa condições econômicas e sociais que culminaram na religião cristã.

PEQUENAS MARAVILHAS

Autor: Idan

Ben-Barak

Tradução: Diego

Alfaro

Editora: Zahar

(264 págs., R$ 39)

De subtítulo Como os Micróbios Governam o Mundo, a obra do israelense, colaborador da New Scientist, relata

a ancestral história dos microorganismos.

THE ART OF THE LP: CLASSIC ALBUM COVERS 1955-1995

Autores: Johnny Morgan e Ben Wardle

Editora: Sterling

(Importado, 400

págs., R$ 53)

Mais de 350 capas antológicas de LPs, organizadas por temas visuais, como a criada por Andy Warhol

para Sticky Fingers, dos Rolling Stones.

CLINT - A

RETROSPECTIVE

Autor: Richard

Schickel

Editora: Sterling Pub

(Importado, 288

págs., R$ 68,90)

Neste volume ricamente ilustrado, o renomado crítico de cinema e documentarista Schickel repassa a carreira de Clint Eastwood. O próprio ator e diretor assina a introdução.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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