Engajamento e Emotividade

Produção adulta une memória da violência, os mecanismos da difamação e a pulsão amorosa

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2012 | 03h10

Uma das mais celebradas imaginações da literatura infanto-juvenil do século passado, ganhadora do prêmio Hans Christian Andersen, o Nobel da literatura infantil, Ana Maria tem toda uma de suas facetas - romances para adultos - soterrada pela magia e excelência de livros como Bisa Bisa, Bisa Bel, Menina Bonita do Laço de Fita ou Mico Maneco, cúmplices intensos de milhares de infâncias. Mas os leitores crescem e envelhecem, e a cada ano o apego aos primeiros prazeres é maior; ler a Ana Maria Machado em versão adulta é uma ameaça de soterrar esses primeiros prazeres. Contudo, nada mais contraproducente. Impressiona a variedade de formas e de temas das narrativas destinadas ao público adulto reeditadas até o momento pelo selo Alfaguara, da Objetiva, como também seu último romance, Infâmia (2011). Ambicioso e vernacular, ele possui um tipo de malícia política e sentimental que enfrenta tanto fantasmas da violência histórica autoritária recente, que escapam do horizonte majoritário da literatura brasileira atual, como conjura algo mais abstrato e rarefeito, a proteção de nossas identidades sob o assédio de um mundo construído insistentemente sobre a calúnia e a difamação. Com seus momentos afáveis e líricos, é um romance de forte engajamento emocional.

E não é de agora que Ana Maria demanda tal engajamento: Alice e Ulisses (1983), seu primeiro romance adulto, também relançado agora, é uma história envolvente. Alice, que acaba de se separar, e possui um desejo intenso de se abrir para vida, se envolve com Ulisses, um cineasta culto e blasé, sufocado pela sua covardia de deixar a mulher, e cuja relação com o mundo se dá mais pelas referências culturais do que por um efetivo envolvimento. O breve relato é atrapalhado apenas pela insistência de Ana Maria Machado em confundir literatura com jogos literários: a linguagem está a léguas de distância do vigor estilístico de Infâmia, investindo em um tom narrativo que torna as personagens, tão críveis e humanas, algo herméticas e distanciadas. O livro engaja porque o amor é amor, e mesmo escondido sob a antipática carapaça da metáfora, o leitor sente sua temperatura.

Alice e Ulisses, no entanto, foi um aprendizado. Para Sempre, de 2001, retoma o mesmo universo de novela rosa do primeiro romance, de amor e de paixão, mas ele é franco e direto, com uma linguagem tão simples e persuasiva que demanda um domínio completo do idioma. Nelson e Suzana se amam, entretanto o cotidiano do casamento faz com que se afastem e busquem em outros corpos algo do sabor antigo perdido. Antônia, a filha do casal, sofre com uma herança cuja leveza se torna um fardo: o desejo de repetir com Daniel, que a arrebata, um amor tão pleno como o que os pais viveram mas que dê certo. Onde o amor erra? Quando ele se transforma? Existe apenas uma forma de amar? O que eu faço com a parte de quem eu amo que me desagrada?

A fortaleza do projeto de reedição vem mesmo com Tropical Sol da Liberdade (1988) e A Audácia Dessa Mulher (1999). A literatura adulta de Ana Maria é abertamente política e ataca em três frentes: a memória da violência, os mecanismos de difamação e o frêmito da sexualidade. Tropical... condensa todo esse programa. Helena Maria retorna do exílio e ata dois nós perdidos de sua vida: a sua complexa relação com a mãe e o espaço afetivo de sua juventude. O livro, na superfície, é um documento: retrata com riqueza de eventos o que era a atmosfera brasileira nos anos de chumbo. Porém sua força nasce de outra seara: a de escrever um romance sobre a energia criadora expansiva da juventude sob a égide gradeada e sinistra da ditadura. As armas tomam o lugar dos poemas para uma geração sequestrada.

A Audácia Dessa Mulher é extraordinário. A referência chave do livro é clara: A Mulher do Tenente Francês (1981), de Karel Reisz, em que, no coração de uma equipe de filmagem nasce um romance extraconjugal que se reflete no enredo do filme de época em produção. O longa-metragem é dotado de mestria, contudo aponta para uma relação entre arte e vida que não ocupa o romance de Ana Maria. A Audácia... tem um interesse mais profundo: uma radiografia da sexualidade, bem-humorada e jocosa, em que, por meio de um relacionamento amoroso nos bastidores do desenvolvimento de uma minissérie histórica para TV, traça um arco do lugar da mulher na sociedade e de seu direito crescente em viver seus afetos livremente. O que torna A Audácia... uma experiência maior é o desprendimento com que alça seu projeto sofisticado: um raro caso em que sofisticação de ideias e de crítica social encontra um texto de contagiante legibilidade - que democratiza uma energia crítica corrosiva e entusiasmada.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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