Susana Vera/Reuters
Susana Vera/Reuters

Enfim, Vargas Llosa

Eterno candidato, o escritor peruano foi lembrado pela Academia Sueca por seis décadas de carreira literária

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2010 | 00h00

Em mais de um século de existência, o Nobel premiou apenas 11 escritores de língua espanhola, desde que o dramaturgo espanhol José Echegaray y Eizaguirre (1832-1916) recebeu o prêmio, em 1904. Ontem, a Academia Sueca corrigiu uma injustiça e finalmente lembrou do peruano Mario Vargas Llosa, que, aos 74 anos, vai receber o Nobel de Literatura por seis décadas dedicadas à literatura, carreira que começou com uma peça de teatro escrita aos 16 anos, La Huida Del Inca (A Fuga do Inca). Até mesmo Llosa demonstrou surpresa. "Achei que a Academia Sueca havia me esquecido", declarou ao ser notificado do prêmio. "Há muitos anos mencionou-se meu nome, mas não sabia se era sério ou não", disse Vargas Llosa, colaborador do Estado, de Nova York, onde dá aulas na Universidade de Princeton.

O escritor disse que o prêmio "é um reconhecimento à literatura da América Latina e da Espanha", revelando esperar que seus livros "tenham para os leitores uma importância comparável ao papel que Cervantes e Flaubert tiveram em minha vida". A Academia disse que concedeu o prêmio a Vargas Llosa por sua "cartografia das estruturas do poder e mordazes imagens da resistência, da rebelião e derrota do indivíduo". Llosa gostou da justificativa. A questão da soberania individual diante dos furacões históricos tem sido uma preocupação do autor, que, em A Verdade das Mentiras, faz a defesa intransigente da fortaleza interior do doutor Jivago de Boris Pasternak (1890-1960), um dos autores analisados no livro e que, como ele, ganhou o Nobel em 1958.

Vargas Llosa, que escreveu mais de 30 romances, peças de teatro e ensaios, enfrentou desde cedo a resistência moral de uma sociedade conservadora, identificando-se, portanto, com Pasternak, que fez de Jivago - "homem comum, sem qualidades excepcionais, esmagado pela revolução" - seu anti-herói modelar. Nascido em Arequipa, num vale de montanhas desérticas da cordilheira dos Andes, o escritor teve de migrar com a mãe divorciada para Cochabamba, Bolívia, onde Vargas Llosa concluiu seus estudos básicos. Só na volta ao Peru, em 1946, quanto tinha 10 anos, ele conheceu o pai, antes de ingressar num colégio militar.

Ecos de sua adolescência surgem em Tia Julia e o Escrevinhador. Nele, a protagonista, após se divorciar na Bolívia, tenta encontrar um companheiro em Lima, isso nos anos 1950. Varguitas, que vive com os avós e quer ser escritor, surge como candidato da tia, apesar da diferença de idade da balzaquiana. Desde que foi publicado, em 1977, esse permanece como um dos seus livros mais populares ao lado de Pantaleão e as Visitadoras, surgido em 1973, sobre um capitão do Exército encarregado de criar um serviço de prostitutas para as Forças Armadas do Peru. Pantaleão, o mais fiel dos homens, incapaz de trair a mulher, acaba como o maior proxeneta do país, para surpresa de seus superiores.

Vargas Llosa tem o dom de transformar crônicas sobre a realidade peruana em fábulas morais, recorrendo a personagens que migram de um livro para o outro sem muita cerimônia, como o cabo Lituma, que saiu do romance A Casa Verde para se tornar o protagonista de Lituma nos Andes. Neste, o escritor critica o irracionalismo dos guerrilheiros do Sendero Luminoso, olhando para o medo instaurado nos povoados - seja por intimidação militar ou pelo misticismo rasteiro - como manifestação de uma mesma origem. A tradição mística dos países latinos ligada a rebelião política seria analisada em detalhes em seu livro A Guerra do Fim do Mundo (1980), épico em que exercita seu lado jornalístico com rigor, reavaliando a figura de Antonio Conselheiro e a campanha de Canudos, temas do clássico Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Sua ligação com o jornalismo nunca foi rompida. Sempre disposto a reavaliar as próprias posições políticas, desde que começou a escrever para jornais, Vargas Llosa foi socialista e apoiou a revolução cubana, cobrindo para a rádio e a televisão francesa a crise de 1962, quando a ex-URSS instalou mísseis na ilha de Castro, provocando forte reação do governo americano. Durou pouco menos de uma década esse papel de idealista de esquerda. Mais precisamente, até 1971, quando publicou García Márquez: História de Um Deicídio, ensaio sobre a obra do escritor colombiano, também premiado com o Nobel (em 1982). Nesse mesmo ano, quando o dissidente poeta cubano Heberto Padilla (1932-2000) foi preso, Vargas Llosa renegou seu apoio à revolução de Fidel Castro, provocando o rompimento entre ambos. Essa é a versão, digamos, oficial. Há outra, nada política: o compadre García Márquez teria interferido numa crise conjugal do peruano. Vargas Llosa não gostou e teria dado um soco no colombiano num cinema mexicano. Romperam a amizade em 1976.

A militância política do escritor, nos anos 1980, seria menos pronunciada. Após sua oposição radical ao governo do presidente Alan García, em 1987, por sua posição nacionalista e socialista, Vargas Llosa candidatou-se às eleições presidenciais em 1990 e, apesar de aparecer como favorito, foi derrotado pelo candidato populista Alberto Fujimori. A reação do escritor foi imediata. Não renunciou à nacionalidade peruana, mas aceitou de bom grado a espanhola, em 1993. Na Espanha, Vargas Llosa é um ídolo. O rei Juan Carlos, ao saber da premiação da Academia, disparou um "te quiero mucho" sem nenhuma formalidade. Ele retribuiu, dizendo que na Espanha sua obra foi "publicada, reconhecida e promovida", destacando ainda o papel do editor Carlos Barral na divulgação de ??sua obra. Seu mais recente livro é Sabres e Utopias (Objetiva), em que critica o esquerdismo de colegas escritores e faz uma análise da política e da literatura latino-americana contemporânea.

 

 

  

O QUE DISSERAM OS MEMBROS DA ACADEMIA

A Academia Sueca sempre divulga uma justificativa oficial para a escolha de seus premiados. No caso de Mario Vargas Llosa, divulgou-se que o prêmio lhe foi concedido por fazer a elegia do indivíduo contra as estruturas do poder. Com isso, a Academia deixou claro que a premiação tem caráter político - além do reconhecimento do valor literário de Vargas Llosa. Em seu mais recente livro, Sabres e Utopias, ele critica o regime cubano e alerta para um retrocesso democrático na América Latina, citando como exemplo a Venezuela de Hugo Chávez. No livro, ainda sobram críticas ao governo Lula, particularmente a respeito das relações mantidas com o líder cubano Fidel Castro.

 

 

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