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Enfim, uma bandeira

A partir de hoje, o festival SWU usa o rock para convencer 170 mil jovens de que, se nada for feito, o Planeta vai mesmo acabar

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

A guitarra de Jimi Hendrix bem que mandou o aviso ao solar o Hino Nacional dos Estados Unidos naquele Woodstock de 1969. Se pudesse falar, diria algo como "pô presidente Lyndon Johnson, deixe o Vietnã em paz e traga nossos irmãos de volta, vai." Cinco anos depois, a nação pagaria pela teimosia de seus líderes: 54 mil soldados mortos em uma guerra inútil. Eric Clapton fez outro pedido em 1988 no estádio londrino de Wembley. Mais meloso que Hendrix, tocou Wonderful Tonight com Mark Knopfler para dizer ao então presidente sul-africano Frederik de Klerk: "Mandela está preso há 26 anos por querer igualdade racial. Não seria melhor soltá-lo?" O evento Free Mandela, visto pela TV em 67 países por 600 milhões de pessoas, deu resultados maiores. Dois anos depois do concerto, Mandela deixou a prisão.  

 

Há tempos sem uma bandeira digna de unir continentes, o rock é recolocado no front das causas mundiais. Festivais e artistas assumem um novo discurso ambiental e chamam para si a mais custosa de suas missões desde que o músico Bob Geldof resolveu diminuir a fome na África, em 1985, com um estelar show de rock em Londres. O rock, agora, precisa salvar o Planeta. O problema é que o novo inimigo, em forma de emissão de gás carbônico, aumento do nível dos rios e camada de ozônio, é todo mundo. E o pedido que as guitarras devem fazer em 74 shows que começam hoje e vão até segunda-feira, em uma fazenda de Itu, no interior de São Paulo, é algo mais, digamos, específico: "Então pessoal, vocês podem parar de jogar bituca de cigarro no chão e tomar um banho menos demorado?" O rock - que já conseguiu comida para a Etiópia e pediu o impeachment de Gerge W. Bush - teria tal força?

 

 

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A maior investida a usar o gênero como estandarte verde leva o nome de SWU - Começa com Você, uma espécie de Woodstock ambiental que espera receber 170 mil pessoas em uma área de 250 mil metros quadrados. O rock sustentável estará lá o tempo todo, com artistas representativos como os engajados Rage Against the Machine, Dave Matthews Band, Kings of Leon, Joss Stone, Sublime, Pixies e Queens of the Stone Age. Ao lado das barracas de quem preferir acampar, mil banheiros para duchas de no máximo sete minutos, área para recarregar celular com energia solar e zonas para reciclagem de lixo. A missão verde será ainda encampada em grande escala no Rock in Rio de 2011, que já havia enviado sinais de alerta na última edição do evento, em 2001, com o subtítulo de Por um Mundo Melhor. "É algo que funciona, as pessoas estão muito sensíveis a isso", diz Roberto Medina, mentor do evento. Em menor grau, o Festival Natura Nós, dias 16 e 17 de outubro, em São Paulo, também evocará questões sustentáveis com shows de Jamiroquai e Snow Patrol.

Salva ou não salva? Se o rock de hoje teria mesmo tal força para mudar comportamentos? De cada roqueiro, uma sentença: "Cara, o rock pode salvar a humanidade. É o único antídoto contra a loucura. Ele vem mudando o mundo desde que era blues", diz Sérgio Dias, líder do Mutantes, que faz hoje show no SWU. "Não sei se vamos mudar algo, só vamos ver isso daqui a uns cinco ou dez anos", fala o baterista do Los Hermanos, Rodrigo Barba, também atração de hoje. "Quem fala em sustentabilidade por achar que está na moda é um babaca", diz o publicitário Eduardo Fischer, idealizador do SWU. Ele explica que chegou ao tema depois de pesquisar que assunto sensibilizaria os jovens hoje. "Se antes era a paz no mundo, agora são as questões ambientais", diz.

O jornalista e escritor Nelson Motta vê de outra forma. "É uma grande picaretagem, enganação. Detesto qualquer forma artística com causa, isso é empobrecedor. Claro que tem gente séria nisso, mas é tudo uma causa fácil, que não garante nada de qualidade (para a música)." Os inimigos do rock, para Motta, têm de ser mais específicos para serem abatidos. "A libertação de Mandela era uma causa específica. A Guerra do Vietnã também, ali era a própria carne dos americanos. A bandeira da boa música, para mim, já seria o suficiente (para um festival). Não há causa que justifique música ruim." Motta não diz, mas a linha que puxa chega a outra contestação: a causa verde seria um chamariz fácil para se conseguir patrocinadores. "Nunca pensamos em escolher esse tema para atrair patrocínio", diz Theo Van Derloo, 28 anos, diretor artístico do festival SWU.

Cadê o grito? A música que nasceu nos Estados Unidos como filho rebelde do blues em meio à década de 1950, quando os jovens que viram Elvis Presley se cansaram de ser velhos, sempre precisou de bandeiras para justificar sua existência. Depois de BB King ser o primeiro negro a tocar em um bar de brancos, Bob Dylan falou da Igreja e dos políticos picaretas nos anos 60; John Lennon pediu paz nos anos 70; Michael Jackson arrecadou 55 milhões de dólares para a África nos 80; e Bono Vox pediu tudo nos 90 - paz, amor, dignidade, igualdade racial, tolerância religiosa e boas condições aos estrangeiros da Irlanda. Os anos 2000, com o conceito de ídolo enfraquecido pela internet, careceram de protestos. "Agora, escolhemos o rock porque ele fala com todas as idades", diz Van Derloo, do SWU.

Injustiça seria afirmar que só o rock tem esse poder. O rap abre caminhos aos jovens das periferias há três décadas. E a música clássica, nunca associada a questões ambientais, tem levantado suas bandeiras, segundo o maestro John Neschling: "Eu mesmo já regi um concerto em Nápoles pela paz no Oriente Médio e em memória de Itzhak Rabin. É que o Sting e o Bon Jovi chamam mais a atenção." Em um quesito técnico, o rock, de fato, ganha: nenhuma música soa mais alto do que ele. Eduardo Fisher, do SWU, conta com orgulho que o sistema de som será o mais potente já visto no Brasil. Serão 700 mil watts ecoando pelo verde de Itu. "Para você ter uma ideia, a Madonna veio com 300 mil watts." A próxima bandeira pode ser pela redução da poluição sonora.

CINCO DESEJOS DO ROCK

Paz. Mais de 500 mil pessoas foram ao Woodstock em 1969. Hendrix pediu pelo fim da guerra no Vietnã

Liberdade. Em 1988, Winnie Mandela, filha de Nelson, anunciava o show que ajudaria na libertação do líder

Combate à fome. Michael Jackson liderou o USA for Africa em 1985. Sucesso estrondoso e comovente

Perdão. Sting, em 2005, cantou no Live 8 para que os países ricos perdoassem a dívida dos pobres

Consciência. O Rock in Rio 2001, com Cássia Eller, foi o primeiro a trazer o conceito social ao Brasil.

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