Luiz Cequinel/Divulgação-8/5/2004
Luiz Cequinel/Divulgação-8/5/2004

Enfim, Pixies

A banda que inspirou até o Nirvana vem a SP pela primeira vez, no SWU

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Alternativo, independente. Essas palavras, usadas sempre de formas tão abstratas ou marquetológicas, adquirem sentido imediato quando acompanham o nome de uma banda: Pixies. Talvez só o Velvet Underground e o Sonic Youth tenham sido tão indies e tão influentes ao mesmo tempo na história do rock. Só para se ter uma ideia: seu disco de 1989, Doolittle, foi fundamental na formação de artistas como PJ Harvey e Nirvana (confessadamente).

O Pixies só veio uma vez ao Brasil. Tocou 27 músicas na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, em 2004, para felizardos 8 mil fãs. Já era uma turnê de reunião (o grupo se dissolveu em 1993, após 5 anos de carreira e 5 discos, muito provavelmente por conflitos entre a baixista Kim Deal e o cantor, compositor e guitarrista Francis Black). Mas, hey, agora vai ser em São Paulo, e para 60 mil pessoas. O grupo ainda liderado por Charles Thompson (ou Black Francis, ou Francis Black), desembarca no SWU Festival, na Fazenda Maeda, em Itu, no dia 11 de outubro, como uma das atrações cruciais da jornada. Em entrevista ao Estado, Joey Santiago, guitarrista da banda, falou do retorno e sobre seus sentimentos em relação a uma das mais cultuadas bandas do rock mundial (o grupo tem ainda David Lovering na bateria).

Eu gostaria de perguntar primeiro sobre seu disco mais importante, Doolittle. Ele foi eleito um dos 100 maiores álbuns do rock em votação de críticos da revista Rolling Stone. Mas, na época em que foi lançado, não foi tão badalado, certo?

Na verdade, o NME ("New Musical Express", semanário londrino) fez um artigo muito elogioso na época, e houve boa recepção. Acho que há alguns momentos em que algo que é único não atinge o mainstream, é natural. Porque era uma coisa que nunca tinha sido gravada antes, propunha uma mudança de gosto, de percepção. O culto, eu acho, aconteceu porque o álbum foi se mostrando mais sólido com o teste do tempo.

Doolittle é um tipo de paradoxo: musicalmente, é lírico, às vezes até doce, mas as letras são bastante violentas, falam de mutilação, estupro, vampirismo. Vocês buscavam mesmo esse confronto?

Bom, eu não escrevi as letras, Charles escreveu. É, obviamente, um conceito único. Mas as imagens violentas são apenas imagens bíblicas. Musicalmente, tem razão: há um certo lirismo sonoro. Mas certamente não é o típico estilo "eu te amo, ela me ama".

E quanto às guitarras? Tanto vocês quanto o Sonic Youth criaram um estilo de muita abstração, digressões, como se fosse uma música impressionista...

As pessoas falam muito que há semelhança entre nosso som e o do Sonic Youth. Eu mesmo não acho. É muito diferente. O Sonic Youth, na verdade, teve bastante influência sobre muita gente, inclusive em mim. Mas não nas guitarras. Eu creio que há mais de Hendrix em nosso estilo, outras misturas, o que pode ter tornado o resultado sonicamente interessante.

Quando o Pixies acabou, em 1993, você sentiu alívio ou ficou abatido?

Alívio. Na verdade, nós chegamos ao fim de uma turnê e depois disso não tínhamos mais planos juntos. Eu fiquei até feliz de estar vivo para terminar tudo. Voltamos anos depois porque descobrimos que ainda temos grande prazer em tocar aquelas músicas, e que tudo ainda funciona junto. Charles costuma dizer também que é bom tocar hoje em dia e receber algum dinheiro por isso.

Vi que vocês estão oferecendo, no Twitter, um serviço de venda de CDs com a gravação do show ao vivo, logo após encerrada a apresentação.

Sim, estamos providenciando souvenirs para os fãs, é uma forma de agradecer pela dedicação e energia deles. De fato, as gravações que surgem depois dos shows são terríveis, os microfones de captação dos fãs não são tão bons... (risos). E nós temos um caminhão inteiro de gravação para esse tipo de coisa.

Vão fazer o mesmo no Brasil?

Não tenho detalhes ainda... É algo que tem de ser acertado com os promotores. Mas eu espero que sim, vou torcer para que dê para fazer aí também.

Do que se lembra do show em Curitiba, em 2004?

Me lembro de entrar e sair de elevadores. Da pedreira. Do público, que me parecia muito familiar. Foi legal, bem legal.

Também há rumores sobre o Pixies entrando em estúdio para ensaiar canções novas, preparando talvez um novo disco...

Não é verdade. Ainda estamos apenas excursionando. Um disco pode parecer o passo adiante lógico, mas não está nos planos por enquanto. Nos dedicamos 100% aos shows, é o que estamos fazendo neste momento: sempre tentando surpreender alguém em algum lugar. É muito bom tocar, é algo muito completo e satisfatório, ajuda a recarregar as baterias.

Recentemente uma pesquisa perguntou quais seriam os maiores artistas saídos de Boston no último século. Você viu isso?

Deus! Nós ficamos em segundo lugar. Em primeiro ficou o Aerosmith. Em terceiro ficou James Taylor. Se você tivesse me perguntado lá atrás se algum dia eu teria sonhado em ficar numa posição dessas, eu daria risada. É uma coisa muito além dos meus melhores sonhos. O disco Toys in the Attic, do Aerosmith, é um grande álbum de rock, eu adorava esse disco. E James Taylor tem também um disco seminal, Sweet Baby James. São lendas da música, então a nossa colocação ficou muito além das nossas expectativas.

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