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Encruzilhadas

É preciso desfazer o vínculo entre igualdade e desigualdade para conciliar o Brasil

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

16 de janeiro de 2019 | 02h00

Estamos diante de entrecruzados. De dívidas e dúvidas.

A dívida é o passivo de um passado aristocrático absolutamente eurocentrado de imperadores, moradores no prédio do Museu Nacional que incendiou, complementado pela massa escravizada negra, igualmente estrangeira, igualdade ordenada que nossos pensadores viam como “naturais”. Não deixa de ser patético falar de “povo” ou “massa” numa sociedade na qual a força de trabalho era, até anteontem, escrava.

A dúvida chega com o ativo das demandas republicanas a reclamar mais igualdade e liberdade. Fáceis de falar e impossíveis de praticar sem um exame aprofundado – socioantropológico e histórico de quem fomos e somos – porque os costumes são tão coercitivos quanto as leis. 

Tudo muda, mas o passado pesa e cria encruzilhadas. O caso americano levanta suspeita sobre o liberalismo clássico de Hobbes, Locke e Spinoza, mas demonstra as complexidades de um sistema de governo cujo princípio gerador, tal como percebeu Alexis de Tocqueville, é uma igualdade inovadora, culturalmente instituída. Nela, os homens não teriam sido naturalmente livres (e cruéis, paranoicos ou ambiciosos, como queria o liberalismo clássico), mas começavam um autogoverno como livres e iguais. Sem realeza e religião oficial englobados, ademais, por um espaço continental. 

A discussão do liberalismo não pode ser divorciada de um estilo de vida igualitário. Foi o igualitarismo que chamou a atenção de Tocqueville na sua visita à América, em 1831. E não era para menos. Afinal, ele não só viveu numa exemplar aristocracia francesa, mas era um nobre cuja vida foi alinhavada por uma participação pública infensa e sofrida, com ascendentes guilhotinados. A revogação dos privilégios pela Revolução mostrou os obstáculos e a não prevista violência de passar da desigualdade aristocrática à igualdade cidadã.

A experiência etnológica de viver num país democrático, sem dúvida, aguçou uma profunda consciência de si mesmo. Quem sabe ele imaginava que liberalismo nada tinha a ver com individualismo, civismo e com democracia como um regime orientado por liberdade com igualdade. Uma forma de governo continuamente em dívida consigo próprio. Um sistema inacabado, caracterizado por persistentes autoajustamentos de “direitos humanos” (e hoje, do meio ambiente) e não de ordenamentos divinos ou etapas históricas.

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Os Estados Unidos são liberais, mas a América é democrática. Tanto que, em 1963 – 132 anos depois da viajem tocquevilliana – o cronista, filho de funcionário público federal e de mãe pianista tornada “do lar”; criado numa casa com domésticos e membro de uma sociedade extraordinariamente inconsciente de sua desigualdade, foi igualmente atingido pela impessoalidade estadunidense. Entendeu então que passar da desigualdade vista como irrevogável – como parte do “mundo” e da “vida” brasileira conforme fora criado – para o igualitarismo requeria acrobacias sociopsicológicas. Como viver sem empregados num sistema no qual estudantes de 20 anos discordavam de Marx, Freud, Durkheim e Weber?

As etiquetas individualistas do “do as you wish” e dos “do as you want” – faça como achar melhor – estavam no centro de um “choque cultural”. O peso da igualdade como um valor, porém, revelou a obra desse Tocqueville quando – no livro Carnavais, Malandros e Heróis – estudei o Brasil por um viés comparativo menos casual, jornalístico, histórico e político, adotando um viés cultural.

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É preciso desfazer a encruzilhada entre igualdade e desigualdade para conciliar o Brasil.

Reformar a previdência não pode ficar enjaulado no embate de direita ou esquerda, com a mesquinhez costumeira. Sem essa reforma as credibilidades ideológicas perdem sua instrumentalidade. 

A reforma previdenciária tem que fazer parte de num movimento arrebatador. Trata-se, no fundo, de uma guerra do Brasil contra o seu lado equivocado que acredita que Deus é brasileiro e que, no final, tudo vai dar certo. 

Entrar nisso é finamente estancar a consumação de um tão desejado e prenunciado suicídio nacional. 

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Entrementes, espero que o governo Bolsonaro não esqueça de um velho axioma político brasileiro: eu tenho a coragem para tudo – principalmente para ser politicamente incorreto e remar contra a corrente – mas não resisto ao pedido de um amigo... 

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