Encruzilhada na ladeira do Timbau

Leia a seguir trecho de O Senhor do Lado Esquerdo, novo romance do escritor carioca Alberto Mussa - cuja trama se desenvolve no início do século 20 -, programado para sair em junho, pela editora Record

, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2011 | 00h00

Não existe mais, na Formiga, a ladeira do Timbau. Na época - entre 1910 e 1912 -, era sinistra, essa ladeira. Terminava nos confins do morro, numa encruzilhada sem saída, deserta, sombria, abandonada, assombrada pela memória triste de pessoas que iam lá para morrer. Era também, a encruzilhada, um lugar para despachos.

A história envolve principalmente duas personagens: o Tião Saci - encrenqueiro, quizumbeiro, alcoviteiro, morador no Querosene; e o Lacraia - jongueiro, batuqueiro, macumbeiro, nascido e criado na serra de Madureira, tendo mudado para a Formiga por conta de uma mulher, Deodata, a Deó, a Datinha, que ofereceu casa própria.

Chamar o Tião de Saci, no fundo, era maldade: Tião tinha as duas pernas, embora fosse manco e sungasse do pé esquerdo. Não era pessoa querida, não era pessoa estimada. Mas também não era mau. E, nas andanças que fazia pelos morros, conheceu a casa da Deó.

É mentira grossa dizer que Tião Saci foi na Datinha por causa dela: tinha escutado histórias sobre o jongueiro Lacraia; e entrou lá procurando o homem.

Quem conhece sabe que jongo é feitiço, é dança de fundamento. Um verso de jongo nunca diz o que diz: é sempre uma mensagem cifrada, que mesmo um bom jongueiro pode não compreender. Na roda de jongo, quando alguém amarra um ponto, esse ponto (que é um verso) só deixa de ser cantado se um outro o desamarra - ou seja, se o interpreta. E é por isso que se chama, propriamente, "ponto", na acepção em que é sinônimo de "nó".

Lacraia, que já havia nascido mole de corpo, desamarrava um ponto atrás do outro, na serra de Madureira. Conhecia os subterrâneos dos vocábulos, enxergava o que existia por trás deles. Era um talento de nascença, uma herança recebida dos espíritos antigos.

Os leigos se impressionam muito com objetos esotéricos, fetiches, ritos e símbolos místicos, imagens demoníacas, animais sacrificados. Ignoram que a verdadeira magia é a fala, a linguagem humana.

Por isso, tendo sido o jongueiro que foi, tendo dominado o segredo da palavra, Lacraia também se tornou uma porteira. Fiz toda essa volta para dizer uma coisa simples: na casa da Deó, nos fundos, no quintal, construíram um barraco, onde o Lacraia incorporava uma entidade tenebrosa.

Antes do célebre pronunciamento do caboclo Sete Encruzilhadas, que se deu no interior de São Gonçalo, em 1908, e codificou algumas leis da jira, os espíritos de umbanda eram todos anônimos. Não sabemos, portanto, quem descia exatamente no corpo do Lacraia.

Mas, se para o Sete Encruzilhadas nunca houve caminhos fechados, para a entidade do jongueiro havia a linha contrária, menos de abrir que de trancar caminhos.

E Tião Saci foi muitas vezes lá, na Datinha, consultar o desencarnado que baixava no Lacraia. Embora continuasse manco, sungando do pé esquerdo, resolveu muitos perrengues, o Tião Saci. Só que tudo tem seu preço.

E houve um dia, uma noite, em que estavam os três no barraco dos fundos. Dou os detalhes: estavam Tião Saci, Deodata e o desencarnado - porque o Lacraia, propriamente dito, tinha a alma suspensa, totalmente inconsciente do que se passava. A Datinha era cambona; e municiava o espírito com o que fosse necessário. Tião Saci, arreganhado no chão, ouvia:

- Toma cuidado com o meu cavalo.

O tom sepulcral da advertência, vinda de entidade tão terrífica, apavorou os dois safados.

- Meu cavalo já manjou vocês.

Era, portanto, verdade o que andavam rosnando na Formiga: Tião Saci se enrabichou pela Datinha - no que foi correspondido. O que espantava, o que repugnava não era só o fato de o Tião mancar (tendo Lacraia aquele jeito tão maneiro de gingar o corpo); era a traição portas adentro, na casa, no quintal de um benfeitor.

Tião Saci, no entanto, tinha a consciência limpa: não devia nada ao Lacraia, mas ao desencarnado. E foi a própria entidade quem o preveniu:

- Ele vai querer te armar uma cilada. Lá em cima, na encruzilhada da ladeira do Timbau.

E disse o dia, disse a hora, disse como - já que o porquê era sabido. Mas a menção à ladeira deixou Deó em pânico. Era um lugar muito macabro; e ela pressentiu certa desgraça. Olhava para o desencarnado, mas via o rosto do Lacraia, congestionado, contorcido, irreconhecível. Há muito tempo era cambona; mas nunca ouvira dizer de nada assim. E, num certo sentido, a maneira como o desencarnado tratava o próprio cavalo - advertindo um inimigo que, reconhecia ela, tinha legítimo direito de matar - dava a ela absolvição da culpa. Deodata acabara preferindo o passo troncho do Saci, contra o molejo do jongueiro.

O conhecimento representa, sempre, uma vantagem: Datinha sabia que Lacraia não sabia que ela já soubesse. E percebeu como ele ficava cada vez mais impaciente, em relação a ela; e sonso, com o Tião Saci. Pouco tempo depois, Deó pegou um fio de conversa entre os dois homens. E foi sondar, no dia seguinte, com o amante.

- Pediu para ir com ele, na ladeira do Timbau.

O auxílio se justificava: Lacraia ia dar um bode na encruzilhada; e precisava de alguém para segurar o bicho. Tião Saci era manco, mas tinha força nos braços. O problema era a data e a hora - que coincidiam com a denúncia do desencarnado. Aliás, o espírito falara em ferro: o mesmo que sangraria o bode estaria destinado a ele, Tião Saci.

Datinha disse para o manco se esquivar, fingir um outro compromisso. Mas o homem tinha brios; e planejou uma segunda traição.

No dia aprazado, Tião Saci, com um revólver de empréstimo (coisa difícil de se conseguir, naquela época), bateu palmas na porta da Deó. Lacraia apareceu - mas disse que Datinha estava passando mal, que iria se atrasar. Foi a deixa: Tião Saci, intuindo que a mulher fingia para facilitar a emboscada, se prontificou a ir adiantando as coisas, carregando o alguidar, o facão, as velas, a cachaça. Só não aguentaria arrastar o bode até aqueles cumes, por conta do miserável defeito.

Lacraia concordou. E o outro subiu. A encruzilhada do Timbau era terrível, porque - já mencionei - dava para becos sem saída. E, àquela hora, o silêncio era tão grande, a escuridão era tão absoluta, que Tião Saci teve medo de errar o tiro.

Assim, precavido, decidiu jogar o facão no mato, para evitar qualquer destreza inesperada do Lacraia. Entrou, então, por um dos becos, tateando, até o fim; e lançou, o mais longe que pôde, por cima da pedreira, o ferro que executaria o bode e, depois, provavelmente, ele mesmo, Tião Saci.

Quando voltou, era a hora e o lugar.

- Põe o dinheiro no chão; e desce, sem virar a cara.

Tião Saci não distinguiu o vulto, mas deduziu de onde vinha a voz - que não era, com certeza, a do Lacraia. Como não sabia quem fosse, como não soubesse do que se tratava, fez um movimento sutil, com a mão direita, no sentido da cintura, onde estava a arma.

O desconhecido, porém, atirou primeiro.

Mais tarde, a própria Datinha, a própria Deó - mesmo tendo conseguido reter o marido em casa, grande parte da noite - espalhou que tinha sido um crime, urdido pelo espírito pérfido do ardiloso Lacraia.

Na Formiga, contudo, corria o ditado de que Deus é o Diabo de costas. Logo, não acreditaram nela. Eram pessoas já habituadas ao trato com desencarnados. Sabiam que coisas estranhas acontecem - principalmente num lugar ruim daqueles, numa encruzilhada, numa ladeira como a do Timbau.

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