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Encontros inusitados no centenário de Noel

Diferentes gerações e estilos se unem para prestar tributo ao Poeta da Vila

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2010 | 00h00

Na música, seguindo a máxima dos parnasianos, ainda hoje muita gente que não tem conteúdo abusa da forma. Até o início dos anos 1930, grande parte das composições brasileiras era marcada justamente por um rebuscamento exagerado. O quadro começou a mudar quando o coloquialismo deu um chega pra lá nos rococós e, temas, como o amor - e verdadeiras crônicas sociais, com descrições dos tipos da época -, passaram a ser tratados com uma linguagem mais simples e objetiva.

Muitos contribuíram com grande parcela, como os compositores do Estácio, entre eles, Ismael Silva, Bide, Mano Edgard e Brancura, além de Marçal, Sinhô e Joubert de Carvalho - muitos revelados ao público pelas vozes de Francisco Alves, Mario Reis e Carmen Miranda, na Era de Ouro do rádio. Inegavelmente, o nome de maior destaque foi Noel Rosa, responsável por fazer com que o samba do subúrbio e do morro vestisse o summer mais simples e elegante descesse aos salões da alta sociedade.

O centenário de nascimento dele é comemorado no dia 11 de dezembro, mas as homenagens a um dos nomes mais importantes da música popular brasileira tiveram início ainda no começo do ano. Depois do merecido tributo prestado pela Vila Isabel, no carnaval, com o enredo Noel: A Presença do Poeta da Vila, outros eventos pipocaram pelo País em 2010 e agora o compositor é lembrado em uma série de shows no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.    

 

 

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Com curadoria de Luís Filipe de Lima, o projeto Noel Rosa - Um Novo Século é realizado com shows sempre às terças e teve início na semana passada, com apresentação de Jards Macalé e a banda performática carioca Brasov.

As misturas são sempre inusitadas e, nesta terça, será a vez de Paulo Miklos ser acompanhado pelo Quinteto em Branco e Preto. Depois, a série segue com Marina de La Riva e o pianista Benjamin Taubkin (7/12) e uma grande turma de talentos formada por Kassin, Moreno Veloso, Domenico Lancelotti, Pedro Sá e o próprio Luís Filipe de Lima (14/12). "A ideia foi reunir intérpretes menos próximos da matriz e da órbita imediata do Noel. Queremos mostrar que a obra dele está muito viva, com grande poder de comunicação até hoje. Homenageá-lo no centenário é praticamente uma obrigação cívica", diz Luís Filipe.

A curadoria, seguramente, está em boas mãos, já que a ligação dele com a obra de Noel existe há tempos. Além de se aproximar dos temas do compositor de Vila Isabel desde os tempos em que começou a estudar música, Luís Filipe foi o responsável pela direção musical da peça Noel Rosa - O Poeta da Vila e Seus Amores (1999), assinou a trilha do filme Noel - O Poeta da Vila (2006) e, com a de agora, já dirigiu 11 séries no CCBB, em homenagens a Lamartine Babo, Ismael Silva, Carmen Miranda, entre outros nomes.

Nas quatro apresentações, a intenção não é traçar um panorama biográfico e histórico sobre vida e obra de Noel com um espírito didático. A única exceção, que aparecerá no show de Marina de La Riva e Benjamin Taubkin, é um trecho em que é ressaltada a qualidade de Noel como melodista, com toda a influência exercida sobre o poeta por meio das parcerias com outro gênio, que também completaria 100 anos em 2010, mas infelizmente é pouco lembrado do público, o pianista e compositor Osvaldo Gogliano, o Vadico.

A principal preocupação foi não repetir o repertório, tarefa difícil diante de um cardápio de mais de 300 canções compostas em uma vida de 26 anos, interrompida pela tuberculose. "Eu conheço o Noel desde antes de formar os Titãs. Quando recebi o convite pensei em me orientar pelas gravações antigas, que são as que eu mais gosto. A princípio, pensei em cantar as canções mais obscuras do Noel, mas acabei equilibrando o repertório, tinha que saborear os clássicos, ele foi um grande hitmaker", conta Paulo Miklos.

Clássicos. Os clássicos a que ele se refere, presentes na apresentação da próxima terça, são, por exemplo, Fita Amarela, Com Que Roupa?, Feitio de Oração, Tarzan, o Filho do Alfaiate, Tipo Zero, Positivismo, Onde Está a Honestidade, Palpite Infeliz, Último Desejo, As Pastorinhas, entre outros.

A parceria de Miklos com o Quinteto em Branco e Preto não é nenhuma novidade. O cantor e compositor se encantou com o grupo de São Paulo no ano passado, quando foi acompanhado pelos rapazes ao aparecer cantando em uma churrascaria no premiado filme É Proibido Fumar. A partir dali, ele ficou maravilhado com o talento de Magnu Sousá, Maurílio de Oliveira e companhia e foi conhecer a fundo aquele universo musical, frequentando inclusive o reduto do Samba da Vela.

Aproveitando o novo encontro com o quinteto, Miklos convidou Alex Miranda, da Trator Filmes, e vai registrar as apresentações pensando em fazer um documentário. "O Noel é o centro da história e tem o registro do encontro com o quinteto. Ainda não está claro na minha cabeça o que isso vai virar, mas eu não gostaria de fazer algo biográfico, histórico, chato. Quero registrar isso com uma visão artística, mais aberta", conta Miklos.

NOEL ROSA - UM NOVO SÉCULO

CCBB. Rua Álvares Penteado, 112, Centro, 3113-3651. 3ª, 13 h e 19h30. R$ 6. Até 14/12.

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