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"Rio de Janeiro, 1963. Stravinsky, discretamente sentado no escuro de uma frisa no Teatro...

, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2010 | 00h00

... Municipal, ouve o ensaio de seu Feux D"Artifice com a London Philharmonic, regida pelo maestro Robert Craft - seu maior intérprete e colaborador.

Espero que a porta da frisa do Theatro Municipal se abra e encontro o mestre pela segunda vez em minha vida: sério, curvado, de bengala, terno cinza, fisionomia cansada, distante.

Ele me agradece pelas flores que enviei. Conto-lhe que acabara de executar a primeira audição de sua obra para piano e orquestra - Movements com a orquestra da Rádio Televisão Belga, em Bruxelas. Ele responde: "Vraiment? Et qui l"a dirigé?" Ele sempre me falava em francês... com um ligeiro sotaque russo...

Da minha gravação, Stravinsky gostou, mas comentou com ironia que a obra foi encomendada pela pianista Margrit Weber e disse: "Ela tocou como se fosse Grieg. Conhecia bem as notas - só as notas -, mas imagine que me perguntou o que era música serial!""

"Depois do jantar, vamos a um terreiro de umbanda no alto do Leblon, precisando...

... subir a pé um morro íngreme com degraus cavados no caminho de terra em meio a uma mata densa. Fico apavorada, mas Stravinsky, bem-humorado, resolve subir devagar e apoia-se no meu braço. Meus saltos altos escorregam se fincam na terra, torcem-se. Enfim conseguimos chegar ao topo do morro, em pleno terreiro da macumba.

Ele se deixa seduzir pela magia do ambiente, o cheiro de mato, os espíritos que protegem o terreiro: grilos, galos cantando, cachorros, gansos, as mulheres de branco, noite clara estrelada e quente. Sentamos por um longo tempo num banco de pau.

A mãe do terreiro vem cumprimentá-lo e oferecer-lhe água (será mineral?), mas ele bebe assim mesmo. Pena que o ritual não seja dos melhores, mas ele se mostra contente, e responde amável aos gestos do preto velho que nos acompanha."

"Véspera do concerto: Stravinsky resolve ir ao ensaio apenas para reger o Capriccio...

... que eu havia ensaiado no dia anterior com Robert Craft. Pergunto-lhe se regerá também Pulcinella? "Não, apenas o concerto com você. Como tem solista é sempre mais delicado, por isto quero dedicar mais tempo." Maître, o senhor tocou muito o Capriccio? Ele responde: "Umas 30 vezes. Não é fácil, mas o Movements é mais difícil." Digo-lhe que sinto-me bem à vontade com o Movements. E ele continua: "É porque você é desta geração de hoje, da geração do meu Movements."

Stravinsky entra no palco para o ensaio. Sente-se um "frisson" no ar, a orquestra se levanta e aplaude.

Começamos. Ele quase não se vira para mim. Quando faz uma pausa, diz rapidamente os números do compasso e recomeça sem esperar:

Quando terminamos ele diz: "Not bad at all." Todos aplaudem. Agradeço-lhe. Ele beija meu rosto e diz "très bien, très bien, ma chère."

Estava cansado. Todos querem cumprimenta-lo, autógrafos, fotos? mas ele vai saindo rapidamente. Entramos no carro e ele volta em silêncio, mas contente."

"Dia do concerto. "Bon jour, Maître. Ça va?" E ele então me responde... ... "Le jour du concert, ça ne va jamais." Parece preocupado.

À noite vamos juntos para o Teatro. No carro, já pronta, com um vestido longo azul e prateado, lembro-me que esqueci os sapatos e vim só com as galochas para a neve! Conto-lhe o que aconteceu e ele diz: Agora, paciência, você vai tocar de galocha."

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