Encontros com o Estadão

Prazer e diversão na solidão. Esses são traços que Viggo Mortensen tem em comum com o escritor William Burroughs, que inspirou seu personagem, o poeta Old Bull Lee, em Na Estrada, dirigido por Walter Salles. Aos 53 anos, Mortensen preza tanto a privacidade que se recusa a falar dela, mas fala de todo o resto - inclusive do presidente Obama, cuja gestão considera sem coragem e oportunista. Pontual, assíduo e profissional ao extremo, o ator americano que vive em Madri está em todos os cantos. Prepara-se para lançar filme na Argentina (Everyone Has a Plan) enquanto já encaixa nova filmagem (Two Faces of January, com Kirsten Dunst).

, /PAULA BONELLI, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2012 | 03h08

Levemente flamenguista e brevemente terapeutizado, Mortensen destaca, nesta entrevista concedida por e-mail, a atitude que incendiou a contracultura dos anos 60 e 70, semeada pela geração beat: "Por que não dizer tudo? Por que não fazer tudo?"

Especialistas na geração beat dizem que você está mesmo muito parecido com William Burroughs, incluindo o tom de voz. Como foi o processo de construção do personagem?

Eu e Walter Salles decidimos fazer uma representação fiel de Burroughs, por causa da grande influência que ele exerceu sobre os escritores beats (Jack) Kerouac e (Allen) Ginsberg, entre outros. O tom de voz era a chave para isso. Burroughs falava muito bem e era uma espécie de mentor literário dos escritores mais jovens. Seu tom de voz era lento e seu jeito, mais estático. Um homem de ideias complexas, muitas vezes perturbadoras, não um homem de ação. Li muitas descrições de Burroughs, assisti a entrevistas e ouvi gravações dele até não poder mais.

O que livros e armas têm em comum?

Não sei dizer se Burroughs achava que armas tinham relação com livros, apesar de ter escrito livros que eram potencialmente tão ameaçadores e perigosos como as armas são para alguns leitores.

Os jovens da geração beat seguiam em frente, sem pensar. Você é assim?

Muitos dos personagens de Kerouac em On The Road eram impetuosos, mas nem todos. O livro, porém, capturou o sentido de uma nova geração de jovens reagindo a um clima muito conservador do pós-guerra nos EUA. Mas a juventude se fazendo perguntas difíceis, sendo inquieta e, às vezes, agindo contra os constrangimentos sociais não são características particulares de uma só época. Hamlet ou Romeu e Julieta são tão atemporais quanto On The Road. Já eu continuo interessado em aprender, mas é cada vez mais óbvio para mim que a vida é curta. Hoje sou cauteloso e penso mais antes de agir.

Como explicar que a geração beat e o trabalho de Burroughs ainda estejam vivos?

Burroughs fez seu próprio caminho, e sua escrita, na minha opinião, passou pelo teste do tempo e da originalidade mais que qualquer trabalho dos escritores beats. As ideias dele e seu estilo eram frios e cirúrgicos e muito menos místicos do que os de seus contemporâneos. Ele e Kerouac, Ginsberg, (Gregory) Corso, entre outros, plantaram as sementes dos movimentos de contracultura dos anos 60 e 70 no ocidente. Eles intensificaram a tendência natural dos jovens de se rebelarem contra todos os tipos de autoridade ao se perguntar, repetidamente, por bem ou por mal, "por que não dizer tudo?" e "por que não fazer tudo?". Nós vimos a influência dos escritores beats no trabalho de artistas norte-americanos, como David Cronenberg, Laurie Anderson, Lou Reed, Bob Dylan, The Doors, Tom Waits, Patti Smith, Frank Zappa.

Que tal a experiência de trabalhar com Walter Salles?

Ele é uma pessoa extremamente inteligente, perceptiva e paciente. Conhece e aprecia o valor de estar sozinho, de ficar parado e certamente sabe se divertir assim. Foi um líder muito profissional e calmo nas filmagens. Embora eu tenha ficado no set por apenas uma semana, foi uma das experiências mais agradáveis e produtivas que tive como ator.

O que você tem em comum com seu personagem?

Aprecio seu senso de humor muito seco. Além disso, como ele, posso me entreter e ficar sozinho sem me sentir solitário. Muitos dos principais personagens em On The Road não podem suportar a solidão e ficar parados por muito tempo. Sentem-se desconfortáveis.

Por que aceitou fazer Old Bull Lee, considerando que é um papel menor na história comparado aos que você costuma fazer?

Tem uma frase que capta com precisão a minha resposta à sua pergunta: "Não há pequenos papéis, apenas pequenos atores".

Como escolhe seus papéis?

Se eu não estiver falido, a história sempre vem em primeiro lugar. Depois, o diretor. E há alguns diretores com os quais eu não trabalharia por melhor que fosse a história.

Em Um Método Perigoso você interpretou Freud. Já fez terapia?

Há cerca de 20 anos, me consultei com um especialista por um período relativamente curto, talvez alguns meses. Foi útil e educativo para mim. Isso é tudo que estou preparado para dizer sobre a experiência.

Você parece muito preocupado em proteger sua privacidade. Como lida com a fama?

Não respondendo a esse tipo de pergunta, com todo o respeito.

Qual a função de um filme?

Não acho que filmes tenham qualquer missão ou função ideológica. Gosto dos que me levam a ver a vida de forma diferente, nem que por um breve momento. Prefiro histórias que fazem perguntas às histórias que presumem dar respostas, tanto em filmes quanto na vida cotidiana

Que habilidades mais admira em um ator?

Ser pontual, chegar preparado no set e ser generoso com os colegas de trabalho. Essas qualidades têm a ver com a importância suprema de colocar a história em primeiro lugar, acima dos interesses individuais.

Você é músico, fotógrafo, pintor. Como transita entre essas atividades?

Às vezes, rapidamente; em outras, lentamente. Ora faço várias atividades artísticas de uma só vez; ora, apenas uma. Nunca há um momento para mim que não seja potencialmente artístico. Ouvir e observar o mundo ao nosso redor, e aceitar que se é afetado por ele é provavelmente a atividade mais artística que existe. Essa capacidade para observar e responder é o que nos faz ser quem somos.

Algumas pessoas no Brasil não estão muito entusiasmadas com nossa produção cinematográfica, considerando o sucesso de nossos vizinhos na Argentina.

A Argentina está se saindo relativamente bem em termos de fazer bons filmes e nutrir diretores e atores talentosos ultimamente. O Brasil já fez isso em um grau maior. A verdade é que, na minha opinião, poucos filmes bons são feitos em qualquer lugar a qualquer momento e muitos filmes ruins e esquecíveis são feitos a cada ano na Argentina, no Brasil ou onde for. O financiamento do Estado, a promoção de escolas para diretores e atores e o incentivo à produção independente são, naturalmente, fatores determinantes. Mas bons artistas e boas histórias pipocam em qualquer lugar, apesar dos obstáculos. Veja o exemplo de sucesso do filme iraniano Separação. Isso é o que, muitas vezes, me faz participar de festivais de cinema - é um maravilhosa caixa de surpresas emocionais.

Você viveu na Venezuela e na Argentina durante a juventude. Considera-se aberto a trabalhar com diretores brasileiros?

Não sou mais mente aberta para trabalhar com diretores brasileiros do que com croatas ou australianos. É verdade que trabalhar com Walter Salles, Vicente Amorim e Ana Piterbarg é confortável por causa de nossas raízes culturais em comum. Em qualquer parte do mundo em que trabalhei com atores ou com uma equipe sul-americana senti uma conexão cultural, uma mãozinha tácita para comunicar ideias e sentimentos sem precisar falar nada.

Quando voltará ao Brasil?

Espero voltar logo, para viajar pelo Norte e pelo interior do País. Ou para qualquer lugar onde as estradas e a sorte me levarem.

É fã de algum time de futebol no Brasil?

Gosto do Flamengo, porque jogadores do meu time favorito, o San Lorenzo de Almagro, como "El Loco" Doval, jogaram muito bem lá.

Como avalia seus 27 anos de carreira?

Exijo muito de mim como artista, mas não me avalio nem em público nem na esfera privada. Cada trabalho é especial por si só. Aprendo e sigo em frente. Depois de tantos anos nessa profissão, olho o passado e vejo as imperfeições inevitáveis e as oportunidades perdidas. Assisto ao meu trabalho na tela e vejo como minha contribuição foi eficaz ou não para o esforço conjunto de contar aquela história. Um bom desempenho requer trabalho e decisões de muitas pessoas, por isso há sempre um pouco de sorte envolvida.

Em 2008, você foi indicado ao Oscar por Senhores do Crime. Qual a importância de ganhar prêmios como esse?

O Oscar tem uma grande importância econômica e de prestígio para quem faz cinema. Não levo prêmios em conta quando aceito papéis, mas outras pessoas o fazem. Na minha opinião, é lamentável essa preocupação, porque diminui o esforço conjunto e a qualidade e até a integridade artística da performance.

Tem algum tipo de crítica à indústria cinematográfica de Hollywood?

Não mais do que as que faço a mim mesmo ou a qualquer outra indústria.

O que acha do presidente Barack Obama?

Espero o melhor dele. Tenho me desapontado, frequentemente, com sua falta de coragem moral e oportunismo político, como acontece com todos os presidentes na história do mundo.

Você vive na Espanha, um país muito atingido pela crise. O que pensa sobre isso?

Espero que o governo não vá repetir o modelo dos EUA e de outras nações da Europa, de recompensar criminosos e os cidadãos mais ricos - que, frequentemente, são sinônimos - à custa do cidadão médio. Para mim, o governo tem de ser mais justo e equilibrado com a aplicação de medidas de austeridade. Muitos anos de sacrifício, de suadas vitórias, para que o país avance culturalmente e socialmente estão sendo desmontados em setores como a educação básica e a saúde. Não será fácil vencer essas batalhas novamente.

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