Encontros com o Estadão

Aos 68 anos, mais de 20 na Califórnia, Dori Caymmi vive a contradição de morar fisicamente longe e viver artisticamente perto do Brasil. Sobre seu último CD, Poesia Musicada, afirma: "É enraizado nesse Brasil utópico, sem laptop e celular". O arranjador e produtor agora também vive o conflito do reconhecimento como intérprete: "Acho difícil me ver assim. Sou um cantor de momento". Nem todos concordam. Dori é finalista em três categorias do Prêmio da Música Brasileira (cuja entrega é dia 13, no Municipal do Rio), inclusive a de melhor cantor de MPB.

, /PAULA BONELLI, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2012 | 03h10

O tema é complexo. Dori é filho de Dorival Caymmi, uma entidade da voz e do violão. Explica que sentiu necessidade de cantar quando viu seus pais desaparecerem na sua frente e com a maturidade resultante. O trabalho de Dorival é a porta de entrada para um universo de mar, Jorge Amado e Bahia - matéria-prima da qual Dori é herdeiro. Esse imaginário ainda promete muitos desdobramentos. Tanto que a Globo o convidou para musicar uma letra de Jorge Amado para o remake da novela Gabriela - assim como fez na versão de 1975, com Alegre Menina.

Num país cada vez mais plugado na tecnologia e carente de músicas "que fazem pensar", Dori já organiza as comemorações do centenário de nascimento do seu pai, em 2014. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por telefone, do apartamento de sua família, no Rio.

Como é a vida nos EUA?

O que me encanta é que, quando alguém comete um crime ou um deslize, vai preso e vai para júri. Esse troço de justiça é muito importante pra mim. O país pode ter um grande código penal, mas, se começam as falcatruas, como está acontecendo agora com um ex-ministro defendendo um bandidão... Nos EUA, isso não acontece. O juiz dá uma martelada no seu dedo.

Como é a rotina?

Acordo, tomo café, vou pro jardim, escrevo música. Há pouco tempo, estava musicando uma peça do Mário Lago, censurada pela ditadura. Também estava fazendo um songbook do meu pai.

Por causa do centenário?

É, estou planejando. Dando murro em ponta de faca. Estou querendo muito começar as comemorações no dia 30 de abril do ano que vem, porque 2014 já pega muito Copa do Mundo. Ele é de 1914.

E como é o songbook?

Escrevi um songbook da Rosa Morena - nossa editora, administrada pelo meu irmão, Danilo -, que tem umas sessenta músicas do meu pai. E também estou tentando fazer um disco da família. Algo simples, sem muito truque, os sambas que ele não gravou, que são realmente inéditos. Estão num livro dele chamado Cancioneiro da Bahia, da década de 40. Não sei os planos da Nana. Estou conversando com o Danilo, por enquanto. Possivelmente, faríamos uns quatro ou cinco shows.

Seu pai levava tempo para compor uma música. Como é o seu processo de criação?

Ultimamente, tenho feito músicas em cima de poesias já prontas. Esse meu último disco, Poesia Musicada, foi feito com poemas do meu parceiro, Paulo César Pinheiro. E a APCA me deu o prêmio de melhor disco de música popular. Também estou concorrendo ao Prêmio da Música Brasileira e recebi um convite do Roberto Talma, da Globo, para musicar uma letra do Jorge Amado para a nova novela Gabriela.

Como foi seu contato com Jorge Amado?

Ele e papai eram amigos, nós éramos os filhos. O Jorge não tinha muito interesse em ficar conversando com criança, não. Era quase uma confraria: papai, Carybé, Jorge Amado, Mirabeau Sampaio - o grupo da Bahia. As conversas mais sérias não chegavam pra nós. Só quando virei parceiro dele é que recebi um upgrade.

No começo, ser filho de Dorival mais ajudava ou atrapalhava?

Ajudava. Pude conhecer o lado intelectual brasileiro, muito forte. Tive contato com Di Cavalcanti, Baden Powell, João Gilberto, Tom Jobim. Passei a me interessar demais pela música.

E o outro lado da moeda?

Fiquei um pouco recatado em relação ao canto e ao violão, porque era o instrumento dele. Sempre fui muito apaixonado por suas canções ligadas ao mar. Ele tinha um programa semanal no rádio. Podia mandar dormir, eu me escondia para ouvir. Tinha um fascínio.

E o momento intimidante?

Sim, porque o jornalismo é cruel. O filho é sempre o filho. Lembro-me de quando fiz Saveiros, em 1966... das críticas. Diziam: "Foi o Caymmi que fez essa música e deu pro filho". Mas minha geração, pós-Bossa Nova, também é poderosa. Edu Lobo, Gil, Caetano, Gal, essas pessoas reconheceram meu trabalho. Nessa época, eu já estava fazendo arranjo para discos deles. E o Tom Jobim, a quem eu devo o incentivo de gravar e tocar violão.

Você se realiza mais como arranjador ou como cantor?

Não sei, porque não sou um cantor daqueles que as pessoas dizem "ah, esse é cantor". Ele não vem primeiro, não sei mais o que eu sou. Está tudo tão misturado. Senti necessidade de cantar o meu trabalho nestes últimos anos. Estou mais maduro. Fui atingindo uma certa idade, vendo meus pais ficarem velhos, desaparecerem na minha frente já doentinhos. E mudou um pouco. Tenho cantado muito. Talvez tenha me tornado um pouco mais cantor do que pretendia. As pessoas, de repente, há uns seis anos, começaram a prestar atenção.

E as lembranças do seu pai?

Uma vez perguntaram a papai quem cantava melhor as suas músicas. Ele falou: "Eu". (Dorival referia-se a si próprio). Era verdade. E o violão com a voz... papai é praticamente o fundador disso no Brasil. É o introdutor do violão na casa da família. Quando não pôde mais tocar, começou essa coisa de orquestra, conjunto, estragou muito a beleza do trabalho dele.

Você faz mais sucesso lá fora ou aqui no Brasil?

Meu público sempre foi mais brasileiro. Outro dia, ganhei uma medalha do Rio Branco justamente por divulgar a música brasileira no exterior. Tenho uma versão de Aquarela do Brasil, da gravadora do Quincy Jones, que é uma nostalgia, meio dark, fala sobre o conflito da distância, do país que não é mais o que eu nasci, mudou muito. Eu, morando nos EUA, falo menos inglês que os brasileiros que falam "commodities, bullying".

Mesmo morando fora?

Nós falamos português em casa. O meu coração sempre esteve num Brasil que abrange a poesia do Manuel Bandeira, a pintura do Di Cavalcanti, a música do Noel Rosa. Sou um nacionalista nesse ponto. Minha música só tem a ver com o Brasil.

Como é estar longe e perto?

Estou ligado a esse Brasil utópico, que já não existe mais. Estava ouvindo o rádio do táxi e toca muita coisa que não tem nada a ver com o País. Este meu CD novo (Poesia Musicada) é profundamente enraizado nesse Brasil sem laptop, sem celular. Eu não sei usar laptop, minha mulher me ajuda. E não uso celular porque, quando quero ser encontrado, eu marco. Quando não marco, não gosto de ser encontrado.

Sente falta do Brasil?

Sinto. Mas não sei se moraria aqui de novo. Tinha um sonho de ter uma terrinha, que eu não precisasse ouvir a música do vizinho do sítio do lado.

E aí você foi para Los Angeles?

Não, fui porque precisava gravar, viver minha vida. Aqui não havia mais espaço pra mim. E agora essa coisa de invasão de terra, de bandido e insegurança... estou com quase 70 anos, já não posso dar uma bolacha em ninguém.

Gosta da Dilma?

Fiquei muito desapontado com o governo Lula, com o fato de ele não ver a roubalheira. E fiquei admirado com essa senhora, que foi torturada, humilhada pelo governo militar, e teve pelo no nariz para conduzir o País. As pessoas esperavam que ela seguisse o Lula.

E a Ana de Hollanda?

Eu conheço muito pouco, mas, como compositor brasileiro, o direito de autor, pra mim, é coisa sagrada. E ela está a favor disso. Acho que está segurando firme no ministério, porque tem muito interesse escuso nesse setor, gente querendo controlar o direito autoral para não ter de pagar muito, há grandes grupos interessados nisso no mundo inteiro. Não acho que tem de cobrar nenhuma exorbitância, mas a gente vive disso. Às vezes, coloco música em novela, terei três em Gabriela. É um negócio muito bom, porque ajuda no leite das crianças. Tenho três netos também.

Qual a função da música?

A música tem um espaço no coração das pessoas. É muito usada como paliativo. Hoje, ouve-se música muito mais com a bunda do que com os ouvidos. Há muito mais preocupação em se divertir do que em parar para pensar. Prefiro ouvir Ravel, Debussy ou Tom Jobim. Tem uma música dele, chamada Saudade do Brasil, que eu ouço sempre e deixo cair uma gota de lágrima pelo meu rosto com saudade do Brasil, dos meus pais.

Seus irmãos também são artistas consagrados. Como é sua relação com eles?

É legal e explosiva, às vezes. O pessoal tem muito temperamento. De vez em quando, a gente se pega. Mas também se ama do mesmo jeito.

O que representa ser indicado em três categorias do Prêmio da Música Brasileira?

Acho importante. É uma das poucas vezes em que também fui indicado como cantor e como melhor disco. Sou sempre indicado como arranjador, o que fica mais fácil. Acho difícil me ver como cantor. Sou um cantor de momento. E estou concorrendo com o Cauby Peixoto, que tem uma voz espetacular. E na categoria melhor disco tem o Chico Buarque, que é unanimidade.

Quincy Jones foi uma influência?

Não, tive pouco contato com ele. Mas lembro que o Quincy me ligou quando eu fiz Brazilian Serenata, meu primeiro disco, e cantou a melodia pra mim no telefone. Ficou superfeliz com a música. Só um troço me chateou: ele vendeu a Quest Records e pegou dez discos da gravadora - entre eles Brazilian Serenata, meu predileto. E ninguém me dá permissão para relançar esse disco, que eu adoro.

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