Denise Andrade/AE
Denise Andrade/AE

Encontros com o Estadão

Aos 39 anos - e 21 de carreira - Luciano teve medo de morrer pela primeira vez ao ter quase cometido um "suicídio involuntário". De cinco meses para cá, está se tratando com psiquiatra, tomando remédios e tentando levar a vida de uma maneira "mais leve" - sendo menos administrador da carreira e mais artista funcionário da música. Tudo isso motivado pelo "pesadelo" de novembro, no teatro Guaíra, em Curitiba. Quando, depois de uma briga com o irmão Zezé, subiu ao palco e anunciou a um público atônito (e suas filmadoras) o fim da dupla. A combinação de tranquilizante, uísque, diurético, falta de potássio, estresse e emoções levou o cantor ao hospital por três dias, onde, segundo os médicos, poderia ter morrido. Com a cabeça fria e a coragem de admitir a vergonha que sente pelo episódio, o artista se abriu para a coluna.

Débora Bergamasco,

23 de abril de 2012 | 03h08

O que te levou a dizer que se separaria do seu irmão naquela noite no teatro Guaíra?

Na verdade, eu não tive coragem nem de assistir ao vídeo para ver o que eu falei, mas quando eu subi no palco e disse a besteira, eu já sabia que tinha feito uma grande m*. Verdadeiramente, eu nunca pensei em me separar do meu irmão. Naquela hora, a briga que tivemos antes do show foi apenas o estopim de algo maior. Meu médico me disse depois que eu já venho há algum tempo acumulando um estresse muito forte que culminou naquilo. E, depois, para esquecer tudo, consumi uma dose grande de tranquilizante, que costumo tomar apenas um terço para dormir. Somado a isso ainda bebi uísque, mais uma dose maior de diurético e não fiz a compensação com potássio. Jamais imaginei que o resultado pudesse ser tão grave. Minha mulher me mostrou o laudo médico e aí ele me contou que se eu demorasse cinco minutos para ir ao hospital, eu poderia ter morrido como consequência de uma parada cardíaca. Poderia até ser um suicídio, inconscientemente, mas poderia. Eu penso assim: a minha irresponsabilidade maior foi a de querer apagar os problemas. Cheguei no hotel e quis esquecer tudo e poderia ter me matado naquele momento. Não sei porque cargas d'água fiz aquilo.

E o que essa experiência te mostrou?

Vi que somos muito frágeis. Estou acostumado a tomar remédios e não imaginava que um diurético sem o potássio, por uma vez na vida, pudesse me levar à quase morte. Foi tão rápido. Só sei que depois que tudo passou, eu só conseguia pensar nos meus pais, olhava para minha mulher e começava a ter vergonha. Por mais que isso não tenha sido ocasionado por minha vontade, foi uma fraqueza minha, não consegui ser racional o bastante para evitar que um momento de emoção, de chateação, viesse a explodir naquela hora. Me culpo pela irresponsabilidade que eu tive.

Como você está agora?

Já está tudo mais esclarecido. Impus algumas regras na minha vida que vão ser determinantes para mim. Mesmo tendo meu irmão Emanoel, que cuida de tudo, passei os últimos dois anos muito envolvido com o nosso escritório. Ficava muito ansioso para que as coisas acontecessem e acabei desenvolvendo uma impaciência muito grande. O psicólogo estava me explicando que eu passei a acreditar que só existia o meu tempo. Só que o tempo não pode ser nem o meu nem o seu. Cada coisa tem seu ritmo natural.

Por exemplo?

Ah, por exemplo, se a gente estivesse discutindo a produção de um show e eu decidisse algo, queria resposta imediata da minha produção. Se não viesse, ou não chegasse no resultado que eu queria, adivinhe? Eu começava a sofrer antes, com uma ansiedade muito grande. E acabava sobrando para as pessoas mais próximas a mim. Mas agora eu não quero mais me envolver com nada. Quero que me tragam minhas tarefas: "Luciano, você tem isso pra fazer". Pronto. Não precisa perguntar se eu quero fazer. Sou um funcionário. Foi o que meu médico falou: tenho que me encarar mesmo como um funcionário da música. Não tenho capacidade e estrutura nenhuma para administrar nossa carreira. Isso ficou provado nesses dois anos em que estive dentro do escritório. Cheguei a um estresse muito alto. E claro, outras questões particulares que eu tive, como um problema muito sério com meu filho no ano passado. Tudo isso acabou me levando para que, naquela noite, eu tomasse aquela atitude. O estopim foi a briga com meu irmão, uma discussão tão boba. Esse estresse todo, essa ansiedade, essa coisa de querer mostrar que eu estava fazendo... Mas então eu vi que isso fez com que eu pudesse, num determinado momento da minha vida, não aguentar a barra e cometer uma loucura, uma besteira. Porque você não vai vendo o estresse no dia a dia. Mas ele chega e te derruba. Foi isso o que aconteceu comigo aquele dia.

Como está sendo o tratamento com o psiquiatra?

Nunca tinha feito, comecei depois do episódio. Tá indo super bem, nunca tive resistência de achar que se tratar com um psiquiatra seria coisa de doido. Mas só agora eu vi que eu precisei e preciso estar com uma pessoa conversando comigo uma vez por semana.

Consegue se abrir?

Acho até que falo muito, muito, muito. Além de ser uma pessoa muito profissional, ele tem uma coisa que não passa aquela imagem rígida. No dia a dia, ele é uma pessoa super normal, ele foi ver meus shows e a gente não fala de nada. Assunto pessoal é só no consultório.

Quais assuntos está levando para a terapia?

Começamos por telefone, porque logo depois da crise eu fui para Orlando, onde tenho casa. Mas sempre falo sobre como está sendo meu dia. A orientação é sempre tentar viver com leveza, mas ainda estou descobrindo o que eu posso levar para a sessão e melhorar. Posso dizer que já senti um resultado muito grande. Especialmente porque eu tinha medo de deixar uma impressão que eu estava querendo me acomodar, que eu não tenho responsabilidade. Pelo contrário. Descobri que eu tenho que ser um cumpridor de tarefas e não o idealizador de todas elas. Pensei que não iria conseguir. Graças a Deus que eu tenho os meus irmãos Emanoel e Zezé. Eles têm muita paciência comigo. Porque eu não sou o monstro que eu me revelei naquela noite.

Quem te achou um monstro naquela noite?

Eu. Eu me vi um monstro fazendo aquilo com o meu irmão. Imagine, eu morri de vergonha. Pedi perdão para ele. Primeiro por ter falado aquilo no palco, depois por ter sido tão irresponsável. Agora estou num momento de expectativa muito grande de que tudo possa melhorar. O que eu tenho que ter na cabeça é: eu realmente preciso de tratamento. Eu não estava conseguindo encarar as pessoas. Conversando com o Zezé, mesmo depois de uma, duas semanas, eu continuava com receio de que acontecesse qualquer coisa. E fiquei chorando muito, muito, muito. Sou bastante emotivo, mas não era um choro de momento. Era um choro de arrependimento, de vergonha, de medo.

Medo de quê?

Medo de tudo. Medo de morrer. Vergonha pelo que eu fiz. Ainda estou vivendo um momento de expectativa. Não posso dizer que passou o estresse, porque estou em tratamento. Além da terapia, estou tomando remédio para relaxar. Um calmante mesmo. E as pessoas querem me alertar e dizer para eu não misturar com bebida alcoólica. Mas eu nunca bebo. Tomo apenas um vinho esporadicamente com minha mulher. Uma vez tomei vodca com energético e achei o gosto horrível. Cerveja, para mim, fede, tem um mal cheiro muito grande.

Depois de sentir medo de morrer aos 39 anos, qual é a sensação que fica para você?

A sensação é de um despertar para a vida. Aliás, há vários despertares, né?. No comecinho da minha carreira, eu fiquei deslumbrado com tudo de material que eu nunca tive e estava conquistando. Daí despertei quando notei que aquilo era fruto de um trabalho bem sucedido. Mesmo que eu nunca nem tenha buscado isso. Não busquei a música, a música chegou até mim, tenho consciência. Meu irmão, sim. Ele ralou a vida toda, eu não. Eu entrei num estúdio, gravei, virou sucesso e no primeiro disco eu vendi 1 milhão de cópias. E pensar que tudo começou através de uma mentira para minha mãe. Porque eu queria sair e ela nunca deixava. Então eu comecei a inventar e falar que estava cantando no clube do banco de onde eu trabalhava, mas era mentira. Aí meus pais resolveram falar isso para o Zezé, ele acreditou (risos). Tentei fugir porque morria de vergonha e sabia que não tinha talento nenhum. Ou melhor, achava que não tinha. E foi assim que ele me descobriu. Esse também foi um despertar. A paternidade foi outro. E, claro, despertar para o amor, que foi quando conheci a Fal (Flávia Fonseca). Aí soube que aquele amor é para a vida toda.

E você já foi casado outras duas vezes, não é?

Sim. A primeira foi aos 15 anos, por livre e espontânea pressão. Depois me casei aos 21, sem nenhum sentimento, puramente porque eu era inexperiente e tinha medo porque engravidei a menina. E, se eu não casasse, achava que a imprensa iria acabar comigo. Eu já era famoso e ainda mais porque ela é irmã do Leandro e do Leonardo, também muito famosos na época. Então eu sabia que aquele casamento seria por pouco tempo, tinha consciência, mas tinha medo, veio pressão de todo lado para eu casar. Tanto de quem trabalhava comigo, quanto da minha família. Diziam que eu havia feito uma besteira, mas que não poderia estragar a carreira por isso.

E com sua atual mulher?

Com a Flávia me casei aos 33 anos. Até o nosso namoro foi diferente. Namoramos primeiro seis anos para depois nos casarmos. Ela fala que se apaixonou por mim já na primeira vez que me viu no telão em Americana (interior de São Paulo). Aliás, ela tinha ido forçada ao show, porque não gostava do estilo sertanejo - ela adora praia, surf. Enfim, aí ela descobriu que eu morava no mesmo condomínio que o dela, em Alphaville, e foi atrás de mim para pegar um autógrafo. Mas mesmo assim eu ainda tive que conquistá-la. Porque para o homem é muito fácil, especialmente quando você começa a trabalhar com a ilusão das pessoas. Chovem pessoas querendo morar com você, estar com você. Mas quando a Fal chegou na minha vida, eu tive que me moldar. Porque eu era mulherengo, gostava de farra. Ela não era uma menininha. Eu sabia que se eu não mudasse, ela não iria me aceitar. E eu mudei muito. Conheci a fidelidade com a Fal.

Acredita em fidelidade?

Claro que eu acredito em fidelidade. Em todo tipo. Aprendi pela necessidade, por amar demais, que a primeira coisa que eu tinha que ter por ela era respeito acima de tudo.

Por isso você, ao contrário do Zezé, é mais caseiro?

Não, eu gosto de ir em balada. Mas eu vou com a Fal. A gente sai para jantar, para dançar. Mas nunca sozinho, só quando eu era solteiro. Depois que nos casamos, ela passou a ir a 99,9% dos meus shows. Só parou quando ficou grávida das meninas. Agora está indo a todos de novo. Aliás, estou querendo mandar fazer um motorhome para poder levar as crianças também. Mas ela teria que me garantir que as meninas viajariam com a gente por, pelo menos, mais uns seis anos. A ideia é adaptar um ônibus igual ao que a equipe já tem. Mas aí só nós quatro.

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