Encontro simbólico entre pai e filho

Paródia, alusões e monólogo interior dão corpo à revolução no romance ditada por Ulisses

Ivan Teixeira, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2011 | 00h00

Ulisses define o que se considera moderno no romance do século 20. Não se tornou um livro popular, mas seu experimentalismo técnico e temático alargou as possibilidades da arte no Ocidente. Narra o encontro simbólico de um pai com o filho perdido. Depois da morte de Rudy, o agente publicitário Leopold Bloom assiste ao desmoronamento da família. Na Dublin de 300 mil habitantes, todos comentam o adultério de Molly. O marido sabe do escândalo, mas o tolera com resignação. Apesar da aparência vulgar, esse assunto suporta o tema da organização afetiva do indivíduo - presente tanto na Odisseia quanto em Dom Casmurro.

Assim como o herói grego se empenha na reconquista da família, o anti-herói irlandês procura no jovem artista Stephen Dedalus o filho que perdera. A lírica de Drummond também explora a tópica do "filho que não fiz". Em Aristóteles, a duração ideal da tragédia não deveria exceder 24 horas. O drama de Ulisses concentra-se num dia, entre o despertar e o adormecer dos protagonistas. Começa em ambiente familiar, desenvolve-se nas ruas e atinge o clímax num bordel, onde desejos e traumas explodem em alucinações fantasmagóricas.

Redimensionando aspectos do romance naturalista, Joyce enfatizou o corpo em Ulisses. O filho de Bloom fora concebido numa relação proposta por Molly, depois de se excitar com a cópula de dois cachorros. O protagonista defeca e masturba-se em cena. O monólogo final de Molly acompanha o fluxo de sua urina e menstruação. Publicado em Paris (1922), o livro seria proibido nos Estados Unidos e queimado na Inglaterra.

Paródia, alusão e monólogo interior suportam a revolução formal de Ulisses. Por meio da alusão, o romance incorpora diversos tempos históricos: peregrinação judaica, expansão marítima dos gregos, desenvolvimento da língua inglesa, nascimento da psicanálise e da publicidade no século 20. A confluência de diferentes tempos num só dia em Dublin explica a natureza ao mesmo tempo realista e mítica do romance. Variante da alusão, a paródia, misturando gêneros e discursos, associa-se ao princípio da reencarnação (palavra básica na trama e no sentido do livro), que corresponde ao conceito de que uma obra de arte nasce de outra, assim como o presente é manifestação distorcida do passado. A técnica do monólogo interior decorre do projeto estilístico de surpreender o mundo na cabeça das pessoas, proposta que desencadeia a renovação da sintaxe, da imagem e do uso artístico da língua.

IVAN TEIXEIRA É PROFESSOR DE LITERATURA BRASILEIRA NA USP E NA UNIVERSIDADE

DO TEXAS, EM AUSTIN

ULISSES

Autor: James Joyce

Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro

Editora: Alfaguara

(912 págs., R$ 92)

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