Encontro reúne historiadores de peso

Quem conhece a Universidade de São Paulo (USP) sabe que na Semana da Pátria ninguém aparece por lá. Ou melhor, quase ninguém. Mas quem participou do 15.º Encontro Regional de História da Associação Nacional de História (Anpuh) - Núcleo São Paulo, pôde conferir auditórios cheios e a presença de personalidades como Michel Vovelle, da Universidade de Paris 1, Emília Viotti da Costa, da Universidade de Yale, e José Tengarrinha, da Universidade de Lisboa.Considerado um dos mais importantes historiadores da Revolução Francesa, Vovelle lançou o livro Jacobinos e Jacobinismo (Editora Edusc, 281 páginas, R$ 27), com prefácio preparado por José Jobson Arruda. O historiador francês é um dos idealizadores e principais representantes da história das mentalidades e responsável pela ponte entre a nova história e o marxismo."Na realidade, o termo história das mentalidades está fora de moda, não é muito utilizado", conta o historiador. "Minha pesquisa está no campo da história das representações do coletivo, que retoma a temática da história das mentalidades com mais abrangência e profundidade." De acordo com o professor, Roger Chartier desenvolveu essa teoria como uma maneira de pensar a história cultural a partir dos conflitos com as representações coletivas.A história das mentalidades surgiu como uma subcorrente da história nova fundada pouco antes da 2.ª Guerra por Marc Bloch e Lucien Lebvre. Fernand Braudel, um dos fundadores da USP deu seqüência a esse estudo. Uma geração de historiadores teve a sua cabeça feita pelos organizadores da revista Les Annales.Eles enfatizavam o estudo do tempo de longa duração. Esses historiadores romperam fronteiras, passando a pesquisar temas como demografia, economia, sociologia e etnologia, partindo de asuntos anteriormente abordados pela lingüística e psicanálise, o que já prefigurava a instalação da história das mentalidades, uma maneira de pensar a história a partir de lentas modificações das representações coletivas da morte, da família, da religião, da sexualidade.Vovelle inicialmente se interessou pelas atitudes em relação à morte, mais tarde pela religiosidade, pela própria história das mentalidades, sendo um dos maiores pesquisadores da Revolução Francesa, ao lado de François Furet, com quem polemizava. Vovelle possui uma visão transformadora, isto é, de que a revolução continua, já Furet possuía uma visão liberal da realidade e para ele a Revolução Francesa é um processo histórico encerrado.Vovelle é um herdeiro da tradição jacobina, da historiografia marxista da Revolução de 1789, de Albert Soboul. Para ele, essa revolução é uma nova forma de pensar a cidadania.Indagado quanto à situação dos marxistas hoje, Vovelle afirma: "O marxismo tem sofrido crises profundas desde 1950 com a introdução e o desenvolvimento do neoliberalismo, recebendo uma série de críticas que foram aprofundadas após a implosão do sistema, mas o ponto positivo disso tudo é que evitou uma tentativa de sistematização e caracterização pós-stalinista; hoje se pode dizer que está na defensiva."E quem são os jacobinos hoje? "Podemos dar vários exemplos, como o problema na Córsega, porém é importante destacar que os jacobinos são vistos como guardiões de idéias de centralização regidas por identidades regionais e patriotismos contrários às supranacionais, como o ideal da União Européia, principalmente por rejeitarem a nova ordem mundial e a hegemonia norte-americana", diz. "O equilíbrio que essa nova ordem trouxe é aparente e frágil porque no interior dos países ocidentais as tensões estão aumentando, assim como o fosso entre nações ricas e o restante do mundo."

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