ENCONTRO PASSA POR ESTAÇÕES DA VIDA DE AMBOS

FRANCIS HIME E GUINGA

O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2013 | 02h08

O repertório de Francis e Guinga passa pelas quatro estações da vida dos dois compositores. Francis é mais velho. Nasceu no Rio, em 1939, estudou na Suíça, voltou ao Brasil no começo da bossa nova, virou parceiro de Vinicius de Moraes e, em 1969, formado em engenharia mecânica, trocou de profissão, casando com Olívia Hime. Francis passou pelos EUA, onde estudou composição com o maestro argentino Lalo Schifrin, um dos melhores músicos de Hollywood (são dele as trilhas de Bullitt e The Fox, entre outras).

Guinga, nascido também no Rio, em 1950, formou-se em odontologia e começou a carreira musical muito depois de Francis. "Eu o conheci em 1974, durante as gravações de O Canto das Três Raças, de Clara Nunes", lembra Guinga. O violonista foi chamado para substituir um colega. Francis assinava os arranjos do disco. Guinga deveria acompanhar a cantora na valsa Ai Quem Me Dera, mas não sabia ler partitura, a despeito de sua habilidade como instrumentista. Isso, para Francis, não significava nada. Ele o chamou num canto e, pacientemente, lhe passou os acordes. Os dois ficaram amigos. "Acompanho Guinga há muito tempo e já tinha planos de gravar com ele desde o lançamento de seu disco Casa da Villa." Isso aconteceu há seis anos. Francis ouviu Mar de Maracanã (que volta no CD Francis e Guinga) e, estimulado, compôs uma canção para ele.

A letra de Mar de Maracanã diz que em Maracanã "a zona norte é o Leblon numa van", definindo-o como a "morada do sol e do futebol" . Guinga, garoto de subúrbio, teve uma infância bem diferente do novo parceiro de família aristocrática que, apesar disso, sempre se mostrou sensível ao trânsito interclassista, a ponto de assinar com Chico Buarque a hoje clássica Pivete (1978), sobre um flanelinha que vende chiclete no sinal fechado.

A parceria com Chico, que rendeu outros clássicos (Atrás da Porta, Trocando em Miúdos), é lembrada no novo disco com o tema do filme A Noiva da Cidade, que faz pendant com a modinha Senhorinha, que Guinga e Paulo César Pinheiro escreveram para a novela Sinhá Moça, em 1986, cantada, na época, por Ronnie Von. Como se vê, não só Francis tem longa experiência como autor de trilhas (como Lição de Amor, A Estrela Sobe e Dona Flor e Seus Dois Maridos, cujos temas podem ser ouvidos no CD O Tempo das Palavras).

Guinga diz que adoraria compor para cinema. É um cinéfilo exigente, mas prefere rever em casa os filmes de seus diretores preferidos (Buñuel, Bergman, Demy). "Não vou ao cinema há dez anos, tenho fobia", revela. Em contrapartida, sabe tudo sobre compositores de trilhas e conta que ficou emocionado quando Sérgio Mendes colocou Henry Mancini ao telefone para conversar com ele. "Imagine, falar com Mancini, um dos meus ídolos ao lado de Johnny Mandel", conta com desconcertante simplicidade para um violonista e compositor à altura dos maiores músicos do mundo. Sobre a possibilidade de vir a assinar uma trilha com Francis, ele não fala, mas diz que suas referências musicais são as mesmas, dos impressionistas a Wagner, Pixinguinha e Jobim.

Um nome que se destaca no disco Francis e Guinga é o da cantora, letrista e produtora Olívia Hime. Ela não canta no disco, mas está presente como coautora em três das dez faixas (A Ver Navios, Parintintin e Desacalanto). Em contrapartida, no CD Almamúsica ao Vivo, que acabou de ser lançado, sua bela voz acompanha o marido em parcerias com Vinicius de Moraes (Saudade de Amar), Chico Buarque (Trocando em Miúdos) e Geraldo Carneiro (Existe um Céu). E, para alegria de Guinga, ela incluiu no disco, gravado ao vivo, La Valse de Lilas, de Michel Legrand. / A.G.F.

Francis e Guinga

Biscoito Fino, R$ 29,90

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