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Encontro Marcado

Prestes a desembarcar no Brasil, Théâtre du Soleil envereda pelo cinema

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2011 | 00h00

Entrevista

Juliana Carneiro da Cunha

ATRIZ E BAILARINA

O Théâtre du Soleil está de malas prontas para vir ao Brasil. "Os cenários já estão a caminho: os contêineres foram despachados de navio", conta Juliana Carneiro da Cunha, brasileira que há 20 anos faz parte do mítico grupo francês, um dos mais importantes do mundo.

De Paris, Juliana falou ao Estado por telefone sobre a temporada sul-americana de Os Náufragos da Louca Esperança - releitura de um obscuro e inacabado livro de Júlio Verne. Quem assistiu ao trabalho anterior da trupe deve se surpreender. Se em Os Efêmeros acompanhava-se um microcosmo, um rendilhado de histórias pessoais, agora a trupe dá uma guinada em direção a um território distinto. Aproxima-se do épico, gênero muito mais próximo da estrutura que sempre caracterizou o trabalho da diretora Ariane Mnouchkine.

O cinema também desponta em primeiro plano nesse novo espetáculo. Tanto que a história está prestes a virar filme. "Estamos gravando loucamente, de segunda a sábado", comenta a atriz, revelando que algumas cenas, inclusive, devem ser gravadas por aqui.

São Paulo será a primeira parada da turnê brasileira: a partir de 25 de outubro. (Os ingressos começam a ser vendidos em setembro.) A seguir, fazem temporada no Rio e em Porto Alegre, como parte do Festival Porto Alegre em Cena.

A peça vai virar um filme, não vai?

Estamos filmando agora. Rodando de segunda a sábado. Devem ser dois meses e meio de filmagens aqui na França. E vamos tentar ainda filmar no Rio e no Chile. O nosso cenário já está indo para aí.

Como é que vocês chegaram ao tema desse novo espetáculo? A Ariane costuma dizer que nunca chega com um tema pronto, que apenas sugere determinado território a ser explorado.

Como nosso espetáculo anterior, Os Efêmeros, era quase sem texto, baseado apenas nas histórias pessoais, ela nos sugeriu fazer algo diferente. É um meio justamente de fazer os atores progredirem. Ariane pensou em fazer um clássico. Pegou o Shakespeare, para começar a traduzir, e também um livrinho que comprou num mercado, na rua. Era um livro de bolso do Júlio Verne que se chama Os Náufragos do Jonathan. E aí, em pouquíssimo tempo, ela mudou de ideia completamente. Resolveu que iríamos trabalhar com essa obra.

Que é um livro inacabado do Júlio Verne, não é? Pouquíssimo conhecido.

É, um livro póstumo, que ninguém conhecia. O filho dele deu um novo tratamento e publicou. Mas o livro ficou como uma base de trabalho. Conta a história de um grupo de pessoas, no final do século 19, que deixa a costa de São Francisco, nos EUA, e vai de navio em direção à África, em busca de uma vida nova. O barco, no entanto, naufraga no Sul da América do Sul. Então, o que atraiu a Ariane é pensar sobre essas pessoas que, de repente, se encontram em uma ilha e tem que imaginar como criar uma nova sociedade, uma vida civilizada fora da civilização. É um grupo que põe em prática a ideia de criar uma sociedade socialista, que reveja seus valores, que tome conta de todos. Enfim, essa questão do ideal que sempre a atraiu muito.

Aparentemente essa noção dialoga com a própria ideia que move a companhia, que tenta se colocar como esse lugar sem hierarquias, onde tudo é feito com a participação de todos.

Precisamente. Mas não tínhamos essa visão. Foi só depois de uns seis meses de ensaio que a Ariane introduziu um novo elemento. Passamos então a imaginar que, em 1914, no momento em que o cinema está começando, há um grupo de pessoas que decide fazer um filme sobre esse livro do Júlio Verne. Aliás, a data precisa, 1914, chegou depois, porque queríamos que tudo se passasse na véspera da 1ª Guerra Mundial.

Mas por que o cinema entra em questão nesse espetáculo?

No começo era uma bengala. Tentamos imaginar um jeito de contar essa história. Começamos a pensar em contar por episódios. E essa estrutura é um pouco cinematográfica. Também foi a oportunidade de fazer uma homenagem ao cinema. O pai da Ariane era um grande produtor de cinema. Essa parte foi deliciosa, imaginar que vivíamos em Paris, no início do século, e queríamos fazer cinema. Um filme mudo, claro.

Vocês foram então colando as duas histórias: a do grupo que queria fazer cinema e a dos náufragos da Patagônia?

Isso mesmo. Aí também mudamos um pouco alguns elementos do livro do Verne. Eles não estão saindo mais dos EUA. Partem do Reino Unido. E não estão indo mais para a África e sim para a Austrália.

E como é o diálogo entre essa proximidade da 1ª Guerra, que aparece na história dos cineastas, e a utopia desses náufragos?Na realidade, essa questão entra por meio de um personagem socialista. Eles pensavam que conseguiriam impedir a guerra, que os operários europeus, todos juntos, iriam se recusar a ir para guerra, não iriam aceitá-la. Então, esse tema do social, de como viver em sociedade, está presente o tempo inteiro nas duas histórias. São como dois espelhos que se refletem.

Mas esse ideal não foi totalmente solapado pela Guerra?

Sim, ela destrói tudo. O filme não pode ser terminado. Fica esse absurdo da guerra, da morte de milhares que não sabem nem por que estão lutando.

OS NÁUFRAGOS DA LOUCA ESPERANÇA (AURORAS)

Sesc Belenzinho. De 5 a 23/10. Ingressos a partir de 15/9, nas unidades do Sesc ou www.sescsp.org.br - de R$ 12,50 a R$ 50

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