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Encontro marcado

Enrique Diaz dirige A Primeira Vista, peça sobre os desencontros e reencontros de duas mulheres

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2013 | 02h11

É uma teia de afetos o que o diretor Enrique Diaz apresenta em A Primeira Vista. Na peça, que abre temporada hoje em São Paulo, no Sesc Pompeia, Drica Moraes e Mariana Lima protagonizam a história de um amor insuspeito, improvável. Uma narrativa tão surpreendente quanto banal. Como costumam, aliás, ser as narrativas de todos os amores.

Duas mulheres de personalidades distintas se encontram, se perdem e depois se encontram de novo. Conhecem-se de maneira prosaica: enquanto compravam barracas de camping. Estranham-se em um primeiro momento. Mas, fãs de rock, unem-se pela música e montam uma banda. Em cena, as atrizes tocam baixo, guitarra e um ukelele havaiano. Miram com delicadeza, e até certo humor, um passado de mágoas e afeições latentes.

Esse emaranhado de sentimentos não está apenas no texto, escrito pelo canadense Daniel MacIvor. É nítida também a forma como ele se espraia pelo palco. O espetáculo, que estreou no Rio em março do ano passado, marcou a volta de Drica Moraes ao teatro, após se submeter a um tratamento para leucemia. E serviu para unir as pontas de laços antigos: Drica esteve ao lado de Diaz na fundação da antiga Cia. dos Atores. É sua amiga há 30 anos e foi sua namorada na adolescência. Já Mariana Lima é sua mulher, parceira constante no trabalho e mãe de suas duas filhas. "O texto surgiu como a justificativa perfeita para esse encontro. Era a melhor maneira de estarmos juntos", diz o diretor.

Reencontro. Ao escolher o texto de Daniel MacIvor, Diaz pode ter encontrado a "justificativa perfeita", mas não um mero pretexto. Com o dramaturgo canadense, ele também vive um "idílio": "É uma espécie de caso de amor. Tenho até medo de me tornar diretor de um autor só. Muito do que ele escreve bate com o que eu sinto, com a minha maneira de entender o teatro", define.

Do escritor, Diaz já encenou In on It, grande sucesso de 2009 que trazia Fernando Eiras e Emílio de Mello nos papéis principais. Agora, também está em pleno processo de construção do monólogo Monstro. Na semana passada, apresentou uma versão da peça - ainda inacabada - durante a abertura do Festival de Teatro Curitiba, na qual atuava e dirigia. E, entre os dias 18 e 21, leva o mesmo título ao Itaú Cultural.

São dissonantes os universos que o escritor delineia em cada uma de suas peças. Se A Primeira Vista é um relicário de afetos e delicadezas, Monstro surge como seu contrário. "É uma energia oposta, como se mostrasse o que de mau a gente pode fazer com o afeto", considera Diaz.

Há, contudo, alguns pontos de contato nas construções dramáticas de MacIvor que transcendem as diferenças temáticas. Está sempre sob escrutínio o espaço, intransponível, que separa um indivíduo o outro. Outra semelhança: não importa qual seja o assunto, há uma complexidade na estrutura que se mantém. Por detrás da linguagem corriqueira e dos diálogos que soam claros ao espectador, escondem-se jogos intrincados: recuos e avanços no tempo, planos narrativos que se sobrepõem, passagens que são capazes de ressignificar aquilo que o público absorvera como verdade. São como peças de um quebra-cabeça, com seus encaixes milimetricamente calculados.

A Primeira Vista faz mais do que embaralhar passado e presente. Traz ainda as perspectivas de cada uma das personagens sobre o que aconteceu. Não existe um caminho único. Existem caminhos. A memória é sempre o lugar da invenção. Se evocarmos Henri Bergson, podemos mesmo dizer que não existe lembrança que não surja dessa fricção entre o rememorado e o inventado. O jogo não para por aí. De posse de dois pontos de vista, não raro contraditórios, o espectador pode criar o seu própio.

Existem alguns lugares em que essas duas mulheres diferentes se encontram. A música, como já se disse, é um deles. Durante a peça, Drica e Mariana tocam e cantam canções, entre elas Come as You Are, do Nirvana.

A ironia é outro desses espaços. Ao construir seu enredo, o autor não teme focalizar tristezas e frustrações comezinhas. Ambas são mulheres comuns. Suas ambições, seus desejos esbarram em empecilhos prosaicos. O melodrama fica à espreita. Mas autor e peça salvam-se - e surpreendem - ao trazer leveza na maneira como olham para perdas e danos. "Ele toca em coisas que mobilizam o espectador. Fala da maneira como não controlamos as coisas, das surpresas", considera o encenador. "Poderia, com isso, resvalar no piegas, mas escapa pelo humor. Não se leva completamente a sério."

A PRIMEIRA VISTA

Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, telefone 3871-7700. 6ª e sáb., às 21 horas; dom., às 18 horas. R$24. Até 26/6.

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