Encontro inusitado no palco

A passagem da dançarina norte-americana Izadora Duncan pelos palcos do Rio de Janeiro, no auge da 1.ª Guerra Mundial, virou peça de teatro. Com estréia em Brasília, nesta quinta-feira, às 21 horas, o espetáculo Deserto Iluminado levará ao Centro Cultural Banco do Brasil, até o dia 22, atores conhecidos da televisão como Leonardo Brício e Roberto Bomtempo. O roteiro é do dramaturgo Caio de Andrade.Foi o encontro da irreverência brasileira com a revolução da dança moderna. No inverno de 1916, o cronista João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, à época com 35 anos, ofereceu em sua casa um jantar à dançarina Izadora Duncan, 37 anos. Depois da refeição, esticaram a noite num banho de cachoeira na Floresta da Tijuca. Frequentador do submundo e dos mais requintados salões do Rio de Janeiro, o jornalista era o cicerone perfeito para mostrar a então capital federal a uma mulher com o temperamento da artista.Com vários amantes e opositora ferrenha do casamento, Izadora Duncan se apresentava descalça nos palcos, rejeitando sapatilhas e roupas pesadas. Anos antes, ela doou o prédio de sua escola de dança em Paris, presente do industrial Paris Singer, para abrigar os feridos de guerra.Pouco se registrou sobre o encontro de João do Rio com Duncan no Rio. O escritor Gilberto Amado, um dos que viram a artista se banhar na Cascatinha, na Tijuca, escreveu num artigo que, na ocasião, ela dançava ?divinamente?. Em sua autobiografia Minha Vida, publicada em 1927, Ducan apenas relembrou ter recebidos aplausos de estudantes ao percorrer as ruas cariocas ao lado do cronista. João do Rio morreria anos depois de infarto. Já a dançarina sofreria um acidente fatal, na França, enforcada quando a echarpe que usava se enroscou na roda do carro conversível que a conduzia.História do Brasil - Há seis anos, o dramaturgo Caio de Andrade desenvolve roteiros baseados na história do Brasil. É autor das peças O Jeca Voador e a Corte Celeste, um retrato do modernismo brasileiro, e Os Olhos Verdes do Ciúme, sobre a correspondência trocada entre D.Pedro II com a Condessa de Barral.João do Rio foi um dos maiores cronistas do Rio, levando para as páginas dos jornais os tipos humanos das ruas cariocas. Espalhafatoso ,mulato, obeso e homossexual, o jornalista chegou a ser preso por suas idas a lugares considerados proibidos pela sociedade carioca. O submundo, no entanto, serviria de base para crônicas e reportagens reunidas em livros como A Alma Encantadora das Ruas, Vida Vertiginosa e As Religiões do Rio.Caio de Andrade preencheu com ficção as lacunas dessa história. João do Rio, interpretado pelo artista Xando Graça, e Izadora, por Angela Rebello, se envolvem com o jovem casal aristocrata Juliano Prado (Roberto Bomtempo) e Amália (Larissa Bracher), personagens fictícios. O artista plástico sérvio Kóstya Olbrzimeck, também inventado pelo dramaturgo, completa o grupo. O personagem de Leonardo Brício se envolve num triângulo amoroso com Amália e Juliano, amigo que conhecera na Europa.Antes de iniciar sua turnê pela América do Sul, Izadora Duncan perdeu dois filhos menores num acidente de automóvel na França. Enfrentamento o drama da perda dos filhos, ela troca confidências com Amália, que sonha em ter uma criança. Mas logo a jovem se depara com a possibilidade do marido ser infértil. Da dançarina norte-americana, Amália recebe conselhos que fugiam ao comportamento social de um Rio de Janeiro que sofria com as mudanças urbanísticas do prefeito Pereira Passos. "A modernidade chegou à cidade de forma imposta, sectarizando tudo?, afirma Adriana Maia, que também assina o roteiro.No desenrolar do espetáculo, Amália engravida. Aos poucos, o público vai descobrindo quem é o pai. Juliano, considerado até então infértil, ou o artista sérvio. ?Para Izadora, uma mulher jamais poderia deixar de realizar seus sonhos por causa de um homem?, diz Caio de Andrade.Xando Graça afirma que o maior desafio de interpretar João do Rio é demonstrar o humor ?agressivo? do cronista carioca. Por sua vez, a atriz Angela Rebello salienta que a simplicidade e o lado espiritual de Izadora Duncan são desconcertantes. Angela recorreu a biografias para compor interpretar uma personagem que agia por impulso, independente dos valores sociais. ?Tento mostrar a expressividade dela sem o peso das biografias?, salienta a atriz. Serviço: Deserto Iluminado. De 5 a 22 de junho, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília. Horários: De quinta a sábado, às 21h00, e domingo, às 20h00. Ingressos: R$ 20 (inteira); R$ 10,00 (meia). Mais informações: (0XX61) 310 7081. Ficha técnica: Angela Rebello, Larissa Bracher, Leonardo Brício, Roberto Bomtempo e Xandro Graça. Direção: Caio de Andrade e Adriana Maia.

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