HÉLVIO ROMERO | ESTADÃO CONTEÚDO
HÉLVIO ROMERO | ESTADÃO CONTEÚDO

Encontro de Samuel Rosa e Lô Borges rende novo álbum ao vivo

Os músicos mineiros, que já se apresentavam juntos há anos, oficializam o projeto com o registro em CD e DVD 'Samuel Rosa & Lô Borges – Ao Vivo no Cine Theatro Brasil'

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2016 | 11h47

Quando era criança, Samuel Rosa foi apresentado às canções do Clube da Esquina pelo pai, que mantinha também em seu acervo particular discos de outros nomes importantes, como Beatles, Chico Buarque, Caetano Veloso – que ajudaram a cunhar o gosto musical daquele menino que se tornaria líder da banda Skank. Nos anos 1990, com a carreira já consolidada, e solo, Lô Borges, que foi um dos fundadores do Clube da Esquina, se encantou pelas canções do segundo disco do Skank, Calango (1994), que ouviu durante uma festa. Gostou, em especial, de duas delas: O Beijo e a Reza e Te Ver. Para essa última, Lô fez uma versão ou, como ele mesmo graceja, deu uma “lôborgiada”, e a gravou no disco Meu Filme, de 1996.

As duas pontas dessa história se encontravam naquele momento: de fã de Lô Borges, Samuel Rosa (que assina Te Ver em parceria com Lelo Zanetti e Chico Amaral) passava a ser reverenciado também pelo ídolo. Pouco tempo depois, os dois mineiros se conheceram pessoalmente, engataram amizade e parcerias, e começaram a se apresentar juntos, esporadicamente, a partir de 1999. Ao longo dos últimos 17 anos, eles foram azeitando o repertório do show e, agora, lançam em CD e DVD Samuel Rosa & Lô Borges – Ao Vivo no Cine Theatro Brasil, que registra esse encontro em apresentação gravada em Belo Horizonte, em agosto do ano passado.

No palco, acompanhados por banda, os dois compositores cantam, juntos, músicas marcantes da carreira de cada um: do lado de Lô, clássicos como Para Lennon e McCartney, O Trem Azul e Clube da Esquina n.º 2; e, do lado de Samuel, os hits Te Ver, Sutilmente e Resposta, entre outros. Incluíram ainda uma canção assinada pelos dois (em parceria com Nando Reis), a bela Dois Rios, que está no disco Cosmotron, do Skank (2003). “O projeto já existe há muito tempo, então muita coisa foi testada”, explica Samuel, em entrevista ao Estado, ao lado de Lô, em São Paulo. Nos extras do DVD, entraram duas inéditas, Lampejo, de Samuel e Nando Reis, e Dupla Chama, de Lô e Chico Amaral, além de um simpático documentário que mostra os dois percorrendo locais fundamentais para eles em Belo Horizonte. “Lembrando que a prioridade não era música inédita”, avisa Samuel.

E por que, depois de anos, o registro só veio agora? Lô conta que, em 1999, as canções dos dois dialogavam menos, por causa do distanciamento estético. “A gente fazia um show que era bem diferente do que faz agora. Desde o momento que o Samuel foi fazendo (os álbuns) Maquinarama (200o), Cosmotron, a música dele deu uma certa mudada. Ficou mais fácil para as canções funcionarem umas com as outras, de eu sentir meio que autor das músicas do Samuel, e ele poder ser um pouco autor das minhas. Hoje, isso se dá de uma maneira natural.”

De fato, a música de Samuel (e do Skank) passou por uma fase de transição, que começou a se esboçar no álbum Siderado, de 98, e se fortaleceu no Maquinarama. Samuel conta que não queria ficar limitado apenas ao “formato reggae, eletrônico, ensolarado”. “Tudo bem que a gente criou uma legião de seguidores desse formato, está no DNA do Skank. Quando a gente começa a tocar, sempre sai um reggae, mas não espero só isso da música”, diz ele. “Mudei meu modo de ver a música, mudei os discos que escutava. Se, nos anos 1990, estava muito o reggae, a música eletrônica, a música latina, naquela virada do Maquinarama para o Cosmotron, peguei minhas raízes beatlemaníacas, Clube da Esquina.”

A escolha do local da gravação, o Cine Theatro Brasil, também passa pela história de ambos. Lô morou ali perto, no Edifício Levy, naquela região central de Belo Horizonte, dos 10 aos 16 anos, período decisivo na sua vida: foi quando ele conheceu Milton Nascimento, o Bituca, que morava no mesmo prédio que o dele, e Beto Guedes – eles se tornariam parceiros, junto com outros músicos, de Clube da Esquina. Já Samuel viveu em outro bairro, mas sempre ia no centro com os amigos. Era o shopping center da sua geração, na época. O tempo afastou Lô de Beto, seu amigo na vida e na devoção aos Beatles, mas o manteve próximo de Milton. Bituca, aliás, faz participação especial nesse projeto Ao Vivo, assim como Fernanda Takai. “O Milton, para mim, é mais do que o convidado, é o homenageado”, acarinha Lô.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.