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Enciclopédia das ruas

Tem o Alexandre, que é socorrista e já foi detido pela polícia enquanto estancava o sangue de um rapaz atingido por estilhaços de bomba de efeito moral. Ele é natural de Bauru e possui um jabuti chamado Tango. (Caso um dia descubra que o quelônio é fêmea, pretende mudar para "Rumba".)

Vanessa Barbara, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2015 | 02h04

Tem o Manoel, que trabalha com terraplenagem, é católico e membro do grupo de Observadores Legais. Vestidos com um colete amarelo, eles acompanham e registram a ação dos policiais durante as passeatas. Manoel afirma que fez três faculdades e só não fez a quarta "porque acabou o cimento".

Tem o Igor, advogado que às vezes leva o cachorro Carlos à missa, sofre de astigmatismo e alega veementemente que a gata Theodora esconde as meias dele.

Tem a Vânia, que possui uma dezena de cães em casa e apareceu uma vez no Jornal Nacional protegendo os policiais de pedradas. E o Pierre, que usa joelheiras, lê Brecht, gosta de astronomia e entra em discussões longuíssimas sobre política e participação popular.

E o Vitinho, de 21 anos, que foi atingido por uma bomba de efeito moral em setembro de 2013 e perdeu a visão do olho direito, mas continua nas ruas. Ele costuma compor a frente do ato e anda por aí de tapa-olho, assim como o fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu a visão do olho esquerdo após ser ferido por uma bala de borracha em junho de 2013.

E o Vinícius, estudante de química que distribui livros para moradores de rua e perdeu quatro dentes após ser surrado numa manifestação em janeiro do ano passado.

Tem também o Donato, jornalista, corintiano, que eu não conseguiria reconhecer na rua sem o capacete. No time dos fotógrafos também podemos citar o Adorno, que me ensinou a consertar um pino solto da máscara de gás, e o Eli, um gigante que usa máscara, capacete, óculos e uma sólida couraça. (É a ele que uma repórter da revista Vice se referiu ao escrever que, em meio a uma nuvem de gás, "um maluco passou correndo por mim com uma armadura preta, tirando foto enlouquecidamente".)

Outro que está sempre nas ruas é o Pablo, professor da USP que gosta de doce de leite e tem um filho de 8 anos. E o padre Júlio, de 66 anos, que às vezes participa do cordão da frente e já foi ferido na perna por uma bala de borracha.

E a minha mãe, uma revisora de 61 anos, 1,49m de altura e 43kg que carrega nos atos uma bolsa repleta de gaze, soro fisiológico e leite de magnésia, materiais notoriamente utilizados para fabricar coquetéis Molotov.

São esses alguns dos "vândalos" e "vagabundos" que participam das manifestações pela redução da tarifa em São Paulo.

"Mete bala", gritou um senhor da janela do prédio.

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