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Enchentes, temporais, perdas e sofrimento

Sabemos que o sofrimento é esperado e normal – desde que seja evitado!

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 03h00

O planeta que, até onde sei, não tem ideologia de direita ou de esquerda, mas é tão vivo quanto nós – um dos seus inúmeros filhos – certamente reage ao nosso estilo de vida globalizado, fundado na sua implacável exploração. 

A Mãe Terra exibe em terremotos, tempestades, geadas e vendavais, antigamente tidos como “naturais”, as consequências de um impiedoso monopólio. Vale lembrar Lévi-Strauss: “O direito do meio ambiente, de que tanto se fala, é um direito do meio ambiente sobre o homem, não um direito do homem sobre o meio ambiente”. 

Não preciso invocar queimadas nem gigantescas enchentes que causam mortes, perdas materiais e muito sofrimento para sentir no coração esses gemidos. 

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Uma radical divisão entre o pessoal e o impessoal, entre o humano e o natural, impede de perguntar por que ocorrem mais enchentes aqui do que lá. Os meteorologistas se distinguem dos jornalistas porque não se podem atribuir razões mortais ou ideológicas ao clima, que somente comporta atenções factuais preventivas. Se há (como, infelizmente, é o caso) um tsunami no Japão, uma epidemia na China ou um temporal em Belo Horizonte, ninguém vai buscar sua causa final na vida de um político. Eventos imprevistos, promovedores de imenso sofrimento, são fundamentalmente “matutais” e estão imunes de atribuições morais.

Sistemas políticos e econômicos não seriam culpados por eventos naturais ou coincidências negativas e acidentais, exceto em sociedades dominadas por “misticismo”. Mas essa divisão radical entre os desastres causados por forças naturais e interesses humanos mudou. O aquecimento global, como o problema crítico de um mundo globalizado e pela primeira vez visto de fora para dentro com um todo, produz uma consciência aguda de nossas ações (e relações) com a Terra. Não estaríamos destruindo o planeta por meio de um sistema fundado no egoísmo, que interrompe a velha reciprocidade do dar-e-receber que tem governado mares, ares, florestas e desertos desde o começo do mundo?

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Em algumas sociedades, o natural e o social estão de tal modo relacionados que um bruxo pode causar trovoadas ou malefícios em tal ou qual pessoa. Não se trata de Disney ou de Harry Potter, mas daquilo que pode reequilibrar moralmente rotinas interrompidas por infortúnios ou trágicas coincidências. 

Bruxarias não são fantasias descartáveis pelo nosso ímpeto intelectualista, tecnologicamente orientado. Bruxarias são buscas dos motivos que promovem mais sofrimentos e pobreza em João; ao passo que Antonio e Pedro vivem ricos e felizes. 

A questão básica da atribuição moral de um evento que causa perda e sofrimento – seja essa atribuição legal racional ou mágica – é sempre a mesma: por que aconteceu comigo e não com outra pessoa? 

As causas próximas são fáceis de determinar: a bala penetrou a cabeça ou estilhaçou o coração, não havia como escapar; o velho não ia ao médico e, quando o visitou, constatou o câncer avançado; o enfarte fulminante devido a uma monumental tristeza levou o amigo e por aí seguem essas óbvias e intermináveis constatações das causas próximas do sofrimento. Mas o que realmente perturba é a causa final: por que a enchente levou a minha casa e não a do meu vizinho; por que foi o meu filho não um outro jovem qualquer?

O filósofo Henri Bergson e E.E. Evans-Pritchard, o primeiro antropólogo a analisar um sistema de bruxaria em operação numa sociedade africana, já haviam observado que podemos aceitar tudo, menos o caos de uma interrupção da plausibilidade das rotinas que fornecem o significado da vida. Interrupções radicais de rotinas são como “balas perdidas” e achadas, Deus nos livre, no corpo de uma pessoa amada por obra do acaso. Elas nos levam diretamente à questão do acaso, que só uma enorme dose de compaixão, fé e resignação pode equilibrar.

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Quando a adversidade é mais frequente do que a felicidade, o anômalo vira um valor. Sabemos que o sofrimento é esperado e normal – desde que seja evitado! Se, entretanto, o procuramos, ele vira um valor e, como uma epidemia ou a desonestidade, revela o quanto devemos à nossa humanidade. 

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