Encantos de Visconti

Vagas Estrelas da Ursa, mais uma obra-prima, soma-se à brilhante coleção do cineasta

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2013 | 02h14

Com o lançamento da obra-prima Vagas Estrelas da Ursa, a Versátil completa sua coleção Luchino Visconti. Ou quase isso: fica faltando um título - O Estrangeiro, de Albert Camus.

Vagas Estrelas seria, no entanto, um magnífico epílogo para a coleção completa de Visconti (1906-1976). Talvez não se possa dizer que seja o seu maior filme, mas a dificuldade de escolha reside exatamente na estatura da obra. Como decidir entre Vagas Estrelas e O Leopardo, por exemplo, ambos estrelados por uma magnífica Claudia Cardinale? Ou como deixar em segundo plano a saga meridional de Rocco e Seus Irmãos? Ou o sublime decadentismo de Morte em Veneza? Ou Os Deuses Malditos, ou Violência e Paixão? Enfim, como não podemos nos decidir, fiquemos com todos e com o encanto particular de cada um.

O de Vagas Estrelas da Ursa consiste em nos levar a uma Itália primeva, em que conflitos e paixões familiares emulam os da Grécia antiga. A tradução cinematográfica dessa atualização nos é apresentada desde as primeiras imagens. Vemos uma recepção burguesa em Genebra, cosmopolita sob todos os aspectos. Ouvem-se conversas em inglês, francês, ocasionalmente em italiano. Nessa festa se encontram Sandra (Claudia) e seu marido norte-americano, Andrew (Michael Craig). Dali o casal sairá, de carro, rumo a Volterra, o paese natal de Sandra.

O espectador contemporâneo, acostumado à montagem rápida dos filmes atuais, pode estranhar a lenta viagem de Genebra a Volterra. A câmera vai registrando estradas e paisagens, montanhas e ruínas históricas. Não se trata apenas de um deslocamento geográfico; evoca muito mais uma trajetória no tempo, da modernidade à antiguidade. Por isso, Sandra faz o marido notar a muralha etrusca, pré-romântica, na entrada de Volterra. Estamos nos primórdios. Daí a impressão, que a direção de Visconti reforça a cada cena, de que adentramos um mundo para nós desconhecido, soterrado, de ruínas e aposentos abafados, cheios de segredos que não devem conhecer a luz do dia. O clima é levemente fantástico, ocasionalmente aterrorizante, como se a cada instante fosse surgir algum fantasma de opereta e nos assombrar.

Mas, claro, os fantasmas que Visconti tem em mente não são exatamente emanações do sobrenatural. Estão em nós, profundamente, sob a forma de mitos, do pensamento ancestral, das antigas narrativas, como a Oréstia, de Ésquilo. Nessa linha, Sandra é como uma Electra contemporânea, guardiã da ordem familiar. Os papéis vão se distribuindo segundo a referência ao teatro grego. A mãe, Corinna (Marie Bell), é uma Clitemnestra enlouquecida; Egisto é o advogado Gilardini (Renzo Ricci).

Mas nada se dá de maneira linear. Mesmo porque, à parte Sandra, o personagem mais forte e surpreendente será seu irmão Gianni (Jean Sorel), com sua sensualidade máscula, seu atrevimento e fragilidade. Gianni é um Orestes que não cumpre à risca o roteiro do mito. Quanto ao Agamenon contemporâneo, ele será o pai de Sandra e Gianni, um ilustre sábio judeu que, denunciado durante a guerra, foi mandado a Auschwitz, onde veio a morrer.

Há, então, o drama familiar, no qual se agitam as tensões e os desejos escondidos. E há o drama do fascismo italiano, a aliança com o nazismo, as delações e os crimes depois recalcados. Neste pano de fundo histórico, a trama individual ganha sentido. Nas disputas entre os personagens, aos poucos vai se insinuando o quanto cada um deles tem a esconder. O mesmo no plano político. A culpa não é dividida claramente. Ela paira como um legado coletivo do qual, naturalmente, nunca se fala.

Andrew, o homem da civilização nova, será o personagem que, à maneira bem americana, tudo deseja ver e esclarecer, ignorante da verdade antiga de que, às vezes, é melhor fechar um olho e seguir adiante. Ele é quem será atormentado pela possibilidade de incesto que entrevê na intriga familiar. E que, portanto, precipitará o desfecho.

A trama, da premissa à conclusão, é modulada pela música de Cezar Frank, Prelúdio Coral e Fuga, onipresente. O título do filme vem dos versos de Leopardi: "Saberia eu, belas estrelas da Ursa/ Que um dia iria rever-vos/Cintilando acima do jardim de meu pai/ Que vos falaria ainda das janelas/ Da morada onde vivi criança/ Contemplando o fim de minhas venturas?"

O título do poema, que evoca a consciência do tempo perdido face à impassibilidade das estrelas, será também o do livro que Gianni prepara. Nele, sob o manto da ficção, expõe os segredos da família e, por isso, Sandra insiste que não deve ser publicado. Mas o mal já está feito e a própria ameaça da revelação indica um caminho sem volta para todos os envolvidos e para Gianni, de maneira particular.

A magnífica tragédia de Vagas Estrelas da Ursa foi filmada em preto e branco. Destaca a beleza quase sobrenatural de Claudia Cardinale que, no entanto, nada tem de etérea. É carnal e respira uma sensualidade antiga. Esse confim do que é mais profundo e, ao mesmo tempo, mais primevo, era necessário para que Visconti encenasse aquele que considerava o último tabu da época moderna - o incesto.

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