Encantos de dragão

Agressivo, dócil ou protetor, esse ser mágico dos contos de fadas clássicos torna-se protagonista em histórias contemporâneas

BIA REIS, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2012 | 03h12

Eles costumam ser enormes, esverdeados, com dentes pontiagudos e asas. E, claro, soltam fogo pela boca quando querem amedrontar seus inimigos. Na maioria das culturas, em especial no Ocidente, são associados à destruição; às vezes, considerados a própria encarnação do mal. Mas no Oriente a história é outra. Lá, são festejados, protegem o poder do imperador e têm ligação com a irrigação e a fertilidade.

Na China, por exemplo, o surgimento dos dragões é antiquíssimo, anterior à escrita, conta a especialista em contos de fadas Katia Canton, professora da Universidade de São Paulo (USP) e curadora do Museu de Arte Contemporânea (MAC). "O dragão aparece em várias culturas de diferentes maneiras e como personagem de conto de fadas. Há registros de seres mágicos até na pré-história, quando o desenho e a escrita eram uma coisa só."

Katia relata que em cada cultura o dragão assume uma função particular, mas hoje, no mundo globalizado, é comum vermos uma mistura de características. "Por aqui, sempre tínhamos um ser agressivo, mas a tendência é mostrar o outro lado do que seria um clichê. Isso não é nem ruim nem bom; é apenas uma forma de lidar com o tema. Eu prefiro reforçar a tradição que está por trás dos símbolos, recontar as histórias com a força que elas carregam. Mas há bons autores que fazem o oposto", diz a escritora, autora de cerca de 50 livros.

Nos contos de fadas clássicos, os dragões protegem as princesas que são mantidas em torres gigantescas, lutam contra príncipes vindos de lugares longínquos. Defendem as donzelas e aproveitam o seu poder intimidador para testar os pretendentes.

Em A Bruxinha e o Dragão, lançado pela Companhia das Letrinhas, o escritor e ilustrador Jean-Claude R. Alphen brinca com os dois lados da personalidade dos dragões. Alphen conta uma história que se passa em um tempo para lá de antigo, quando as filhas dos bruxos ganhavam um dragão ao completar 8 anos. O presente podia ser de todo jeito: voador, soltador de fogo, com chifres, grandão ou pequenino.

Mas havia uma menina que não queria qualquer um. Sonhava com o maior dos dragões, o mais feroz, o mais colorido, com o maior número de chifres, aquele que voasse mais alto. Preocupado em agradar à filha, depois de tantas buscas ele decide se transformar no próprio presente.

O dragão em que o mago se transfigura não é feroz, não tem chifres, tampouco voa. Como diz Alphen, é muito mais uma criatura "da família das lagartixas bem alimentadas do que um dragão". A transformação do mago em dragão foi inspirada na história do escritor, que vivencia as dores e as delícias da adolescência das filhas, Julia e Clarice. "A metamorfose tem a ver com essa transição. Essa fase deixa a criança em polvorosa, sem saber para que lado ir. Na verdade, o personagem é um só: o dragão é a menina, é a vontade que ela tem de crescer, de alçar voo", conta.

Na história, o mago acompanha a filha de perto, mas fica perdido frente aos desejos da garota. "O mago, atrapalhado, simboliza o pai e mãe em uma só figura. A adolescência é uma época desajeitada tanto para os pais quanto para os adolescentes."

Em meio às inevitáveis dificuldades do período, Alphen mantém o otimismo. "Eu percebo nitidamente como elas vão descobrindo o mundo. Temos a responsabilidade de encaminhar e dar limites, e isso não é fácil. No começo, o pai fala: você quer um dragão? Eu vou conseguir o mais bonito. Ele arruma vários, mas ela impõe diversas exigências. O pai erra muito, se transforma ele próprio em dragão, no ser que ela quer, que é amigo. A criança sempre escolhe a face mais amena dos pais e depois vai descobrindo outras facetas."

Em A Bruxinha e o Dragão, Alphen mais uma vez escreveu e ilustrou, como vem fazendo há seis anos. Aqui, os desenhos ganharam tons surpreendentes de azuis, roxos e verdes com a ajuda da tecnologia. "Já usei aquarela, pastel, acrílica, guache. Experimentei de tudo e fique siderado pelo pastel oleoso. Mas, para trabalhar com ele, teria de fazer figuras imensas. Por isso, criei uma maneira de fazer o mesmo no computador", afirma.

Com afeto. Um ser ainda mais doce é a figura central de outro lançamento que trata do mundo dos dragões, o Outra Vez!, da escritora e ilustradora Emily Gravett (Editora Salamandra). Com um texto simples, Emily narra a história de um filhote que, grudado em seu cobertor, se apaixona por um livro sobre um dragão vermelho que cospe fogo. O pequeno pede infinitas vezes para a mãe contar a história, mas ela adormece. E o filhote mostra, de fato, o que é ser um dragão.

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