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Encantamento

Os estilos muito elaborados são, um pouco, como as rabanadas do Natal: é melhor consumi-las cedo, quando ainda estão crocantes

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2018 | 02h00

Os livros que compunham O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, causaram sensação no seu lançamento, no fim dos anos 50 e começo dos 60. Eram uma evocação mágica de um lugar - Alexandria - e de uma época. Alexandria, a capital da memória, como a descreve Durrell. Minha memória é do encantamento com que li o primeiro dos quatro volumes, Justine, há, meu Deus, quase 60 anos, mal podendo esperar para ler os outros que já existiam, Balthazar e Mountolive, e o que ainda estava por vir, Clea.

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Não sei se o encantamento seria o mesmo, hoje. O estilo suculento do Durrell do quarteto talvez não tenha resistido bem ao tempo. Não vou ler outra vez, porque só há vaga na fila de coisas esperando a minha leitura em 2050, se o derretimento dos polos não interferir, e para não me decepcionar. Mas se você ainda não entrou no universo fascinante de Durrell, procure a edição em português, acho que da Ediouro, para conhecer Darley, Justine, Melissa, Nessim, Pursewarden e os outros personagens da sua memória. E principalmente a cidade evocada, a sensual Alexandria, suspensa no ar áspero do deserto como uma miragem ondulante, onde todas as raças e culturas se cruzam, todos conspiram e tudo é erotismo e mistério, e que provavelmente só existia na imaginação do autor.

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Os estilos muito elaborados são, um pouco, como as rabanadas do Natal: é melhor consumi-las cedo, quando ainda estão crocantes, porque depois ficam meio pegajosas. Às vezes só falta o tempo para transformar densidade em preciosismo. Desconfio que com o texto de Durrell aconteceu isso, o que não diminui seu sabor - como também pode ser dito das rabanadas passadas. Nada como um criminoso para escrever num estilo rebuscado, diz o Humbert Humbert, do Nabokov, e o crime que mais inspira a criação rarefeita é o incesto.

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Segundo escreveu o John Updike a respeito de não me lembro mais o que ou quem, incesto, o mais antigo dos tabus, é o mais moderno dos temas literários. Está, disfarçado ou declarado, em boa parte da literatura atual, como o adultério predominava na do século 19. Se me lembro bem, um dos personagens de Durrell (Mountolive? Pursewarden?) tem um caso amoroso com sua irmã cega. Anos depois da publicação do Quarteto, soube-se que uma filha de Durrell, chamada Sappho Jane, se suicidara, acusando o pai de tê-la seduzido.

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O Quarteto de Alexandria foi uma sensação, mas Durrell não fez mais nada parecido. Tentou a mesma técnica de narrativa multifacetada, que chamava de “continuum”, num Quinteto de Avignon, sem o mesmo sucesso. O Quarteto não é exatamente para ler embaixo do cobertor em noites de inverno, mas é uma experiência para ser lembrada com prazer. 

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