Encaixotar os EUA?

Justo na terra dos livres e no lar dos bravos, Trump vai construir o seu muro

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

08 Março 2017 | 02h00

Num mundo tocado pelo mercado (que, por sinal, inventou este mundo!), abandonar os preceitos do custo-benefício equivale a remar contra a corrente que, com ajuda da má-fé, conduz - sabemos bem demais - à bancarrota.

Por isso é que um patriótico Trump fala dos altos custos de uma nova ameaça: os imigrantes. Fossem marcianos ou comunistas, ficaríamos surpresos, mas, quando se trata de gente que ainda acredita no sonho que os próprios americanos estão perdendo, não temos dúvida de que Trump deseja encaixotar os Estados Unidos.

 

E, se os Estados Unidos forem encaixotados, mata-se o espírito glorioso da América. Essa dimensão fabricada por milhões de imigrantes, estrangeiros, foragidos, perseguidos, aventureiros, sonhadores, injustiçados e descontentes. Esse sumo humano marginalizado que encontrou um lar nos Estados Unidos desencaixotados.

 

Mas Mr. Trump não quer assim e a prova do encaixotamento jaz no muro que Trump vai construir. Com ele, a nação receptora torna-se um país fechado. Os Estados Unidos liberalizados pela paz e pela guerra - o farol que tudo fez para derrubar o cinzento Muro de Berlim - vão hoje - what a shame! - construir o seu muro. Justo na terra dos livres e no lar dos bravos...

O impedimento ao direito de ter uma terra é exemplo de castigo, inferioridade e subordinação. Escravos eram absolutamente individualizados e tidos como mortos sociais. Perdiam - como revela o sociólogo Orlando Patterson - sua terra natal. Sem ter o pertencimento, que J.G. Herder dizia ser mais importante do que comer ou dormir, eram despidos de suas humanidades.

 

Todo estrangeiro ou expatriado tem um vasto potencial de ser explorado, simplesmente porque ele não sabe das coisas no mundo onde está voluntária ou involuntariamente enfiado. Eu fui expatriado nos Estados Unidos e sei o preço que se paga por ter sotaque e, eventualmente, ser mais inteligente do que os nativos. Sobretudo quando eles têm uma fé cega no seu monoglotismo e se pensam como povo escolhido.

Nada pode ser mais chocante do que estigmatizar imigrantes num mundo globalizado. Um mundo que proclamou os tais Direitos Humanos inalienáveis, mas que, se pudesse, criminalizaria foragidos. Agora, eu entendo por que Erving Goffman dizia que pensar numa natureza humana universal não era uma coisa muito humana! 

Vista de um satélite, a Terra não tem fronteiras. Mas, para um Trump que quer encaixotar o país menos encaixotado do mundo, somos obrigados a perguntar quanto custa um filho, um neto, uma mulher amada, um amigo ou um hóspede...

Esquecido de que os deuses e os heróis civilizadores são imigrantes que desceram dos céus ou vieram de algum país exótico para viver entre nós, Trump - trocando a parte ruim pelo todo - ensaia amaldiçoar o contato entre os povos.

Quanto custa o altruísmo é a questão. 

No caso dos imigrantes, há o custo marginal do suposto terrorismo ou banditismo; no caso das alianças político-militares, é o justo oposto: o todo deve pagar pela sua associação com o povo escolhido, os Estados Unidos. Antigamente, a “raça” justificava o etnocentrismo; hoje, a economia financeira tem esse papel.

Nesse discurso ao Congresso, que ouvi e li com uma tonelada de dor no meu coração, o qual tanto deve aos ideais americanos, não posso esquecer de que a América foi feita por estrangeiros. Por puritanos e por levas de imigrantes que emprestaram aos seus hospedeiros novas artes civilizatórias, dando-lhes cosmopolitismo, polidez e sabedoria que só são alcançadas quando se descobre a alteridade em estado bruto. Pois, para cada nativo desiludido ou cínico, havia um estrangeiro crente na liberdade, na igualdade e na solidariedade como um valor. O horror é descobrir que são esses imigrantes o foco do discurso exclusivista de Trump.

 

Quando Trump diz que a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos revela que os imigrantes custam - como diz o New York Times do dia 1.º do corrente - US$ 5,4 bilhões ao país, ele omite que os filhos desses imigrantes repõem um benefício de US$ 30,5 bilhões e que a terceira geração acrescenta US$ 223 bilhões!

 

A antropóloga Margaret Mead, uma das mães fundadoras da antropologia cultural americana, conhecia bem essa história. O filho do imigrante italiano, dizia, se recusava a falar o idioma dos seus pais e tinha vergonha de suas origens. Virava americano, escondendo costumes e cultura. Seus filhos, porém, plenamente integrados, redescobriam as tradições impossíveis de serem mensuradas em dólares ou preconceitos da velha Itália. Então, voltavam aos locais de origem e reinventavam um modo de anunciar o seu reconhecimento, construindo museus ou misturando “love” com “amore”. 

A mistura é o centro da experiência humana. Aventura que só ocorre quando queremos ser iguais ou mais do que os outros. 

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