Empresa cria museu para resgatar sua memória

Os bons tempos estão de volta. Se a expressão não pode ser colocada em prática em função de fatores sociais, culturais, políticos, econômicos, tecnológicos, ou pelo simples fato de que tudo na vida passa, pelo menos uma boa parte da História de tudo, e de todos, pode ser rememorada. Imbuídos deste pensamento, um grande número de empresas brasileiras e de multinacionais instaladas no País estão investindo pesado no resgate de sua memória, com projetos que vão desde a publicação de livros, à criação de museus. Segundo estimativas da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), os 20 principais projetos de empresas brasileiras de resgate de memória devem movimentar, até a metade do próximo ano, uma quantia em torno de R$ 7 milhões. Gigantes como Gessy Lever, Companhia Vale do Rio Doce, Bradesco, Petrobrás e Chocolates Garoto, entre outras, estão envolvidas em projetos ligados à história empresarial brasileira. "Acho que o Brasil e os brasileiros, carregaram durante muitos anos aquele sentimento de ser o País do futuro e, por isso, só olhavam para frente, esquecendo-se do passado. Isso pode ter ocorrido até por uma falta de perspectiva das pessoas. Hoje, podemos dizer que nos identificamos e nos orgulhamos do nosso passado", afirmou José Estanislau do Amaral Souza Neto, diretor de Assuntos Corporativos para América Latina da Gessy Lever, durante o II Encontro de Museus Empresariais, realizado na semana passada, em São Paulo. Estanislau é o responsável pelo projeto de resgate da memória dos 70 anos de atuação da multinacional no País. Apenas na primeira etapa, compreendida no período entre os meses de dezembro de 1999 e 2000, serão investidos R$ 500 mil para a formação de um centro de memória e documentação de 20 marcas da empresa. Comunicação interna - No futuro, o centro deverá contar com toda a história da presença de todo o Grupo Unilever no Brasil. Segundo Karen Worcman, diretora do Museu da Pessoa, instituição responsável por registros históricos da vida social e familiar de pessoas, e uma das principais consultoras dos projetos de resgate de memória de empresas, ao se envolver nesses projetos, os empresários acabam atingindo focos importantes de comunicação. "Dependendo da demanda, o projeto pode ter uma importância muito grande na comunicação interna da empresa, no contato e conhecimento dos funcionários, ou também na apresentação externa, ao demonstrar uma relação mais próxima com clientes, fornecedores e comunidades instaladas nas regiões das indústrias", explica. O caso da Gessy Lever, por exemplo, demonstra a necessidade encontrada pela empresa em atuar em duas frentes. "Quando pensamos em realizar esse trabalho, tínhamos em mente atender o público externo, como imprensa, estudantes e professores. Depois, percebemos que o público interno também queria e precisava participar. Quando, por exemplo, um gerente mudava de área, ele não tinha um banco de dados para se informar sobre aquele produto", afirmou Estanislau. "A participação dos funcionários colabora com a elevação da auto-estima dentro da empresa", complenta Karen. Para ela, os museus empresariais têm uma participação fundamental no processo de consolidação empresarial junto às comunidades e consumidores. "O museu mostra o que a empresa fez, enquanto a publicidade fica só no discurso." O diretor Regional do Serviço Social do Comércio do Estado de São Paulo (Sesc-SP), Danilo Santos Miranda, afirmou, durante o seminário, que o resgate da memória também tem um caráter educativo e de cunho social. O Sesc produziu, em 1996, uma pesquisa sobre a história do comércio na cidade de São Paulo. O trabalho, elaborado, principalmente com depoimentos de antigos moradores e comerciantes de bairros paulistanos, resultou no livro Memórias do Comércio. "O livro possibilitou aos comerciários da cidade de São Paulo entenderem melhor a importância de seu trabalho. É importante, por exemplo, entender como o comércio de uma determinada região foi crescendo, suas peculiaridades, para que quem trabalha no local tenha uma referência, para o reconhecimento dos sinais urbanos de sua presença", disse. Segundo Miranda, os depoimentos "não buscam uma veracidade científica, mas apenas histórias que possam ter ocorrido de fato". O direto-executivo da Aberje, Paulo Nassar, alega que, a utilização dos museus, abrem espaço para as empresas darem concretude às suas ações, e não apenas ficar no falatório. "Os discursos estão muito iguais. Ficam sempre na repetição, ao afirmar que as empresas têm responsabilidade social, são cidadãs, e que cuidam do meio ambiente. É preciso sinalizar atitudes concretas, como os museus." Resgate importante - A diretora do Museu da Pessoa, Karen Worcman, afirma que o movimento em torno do resgate da memória nas empresas ganhou força nos últimos anos. "A noção da importância da história é recente e está passando por um processo de crescimento." Vários fatores estariam motivando a busca por informações do passado pelas empresas. "Os processos começaram a tomar corpo diante dos movimentos de comemoração dos 500 anos de descobrimento do Brasil", afirma. O processo de redemocratização do País, segundo Karen, seria outro fator importante para a ativação dos investimentos no setor. "Após o fim da ditadura, os consumidores passaram a cobrar mais qualidade das empresas. Na época dos militares, a relação com a população ficava em um segundo plano, pois o mais importante era manter um bom relacionamento do governo." Karen afirma que, hoje, as empresas precisam convencer que são diferentes e, por isso, procuram novos nichos de marketing para mostrar esse diferencial. "Os empresários querem mostrar que tem uma história com a comunidade, procuram encontrar uma identidade." Ela cita o exemplo do livro lançado, em 1998, nas comemorações dos 80 anos da então Rhodia, hoje Aventis, após a fusão com a Hoescht. "O trabalho mostrou que a indústria esteve vinculada ao início da expansão e do desenvolvimento da cidade de Santo André, no Grande ABC." "O livro também contribuiu no processo de fusão das duas empresas", garante o gerente de Comunicação da Aventis, Marco Falcão. Segundo ele, o projeto de US$ 300 mil, tornou-se uma carta de princípio da Rhodia, que deveria servir para o processo de fusão. "É uma referência, um resgate da nossa memória. Mostrou o compromisso da nossa empresa perante os nossos funcionários, lembrando que nós tínhamos uma história, que não partíamos do zero em nossa nova companhia." Se o trabalho colaborou no processo da Aventis, Karen afirma que essa não é uma constante em outros processos que envolvam a globalização da economia e a abertura de mercados, em especial o brasileiro. "Temos de lembrar que é um processo globalizado é avassalador. Em muitos casos, a aquisição de um grupo por outro simplesmente varreu a história da empresa adquirida." Para ela, um exemplo a ser seguido é o adotado pela CTBC Telecom, empresa de capital nacional com 46 anos de atuação em Minas Gerais, e que está construindo um centro de memória empresarial na cidade de Uberlândia (MG). A empresa mineira está aproveitando o fato de as suas concorrentes serem, na maioria, estrangeiras, para demonstrar a sua identidade com a comunidade. "Isso mostra uma relação íntima com a população local, o que é diferente do relacionamento de outras empresas de telefonia." Expansão - Karen afirma que a expansão dos museus empresariais tem proporcionado um aumento de postos de trabalho de jornalistas, historiadores e pesquisadores. Segundo ela, a maior dificuldade é falta de organização do setor. "Não temos uma associação", diz. Em sua opinião, a ausência de organização também provoca a concentração dos museus empresariais nas regiões Sul e Sudeste do País. "O Nordeste, por exemplo, tem um enorme potencial e foi pouco desenvolvido." Ela projeta também um crescimento rápido do setor nos próximos anos. "Menos de 10% das 100 maiores empresas do País, apontadas pela Revista Exame, não possuem centros de memória."

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