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Empatias

Na última semana, duas decisões anunciadas nos Estados Unidos devem afetar especialmente a vida dos negros americanos e, em menor, grau, a vida de latinos.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 02h14

O Secretário de Justiça de Obama, Eric Holder, o primeiro negro a ocupar o cargo, anunciou que vai alterar a recomendação de penas para crimes menores de porte ou uso de drogas. Este país tem 5% da população do mundo e 25% da população carcerária, graças às leis de penas de prisão obrigatória impostas no combate às drogas há 30 anos.

Holder é acusado por críticos de chegar atrasado a uma reforma tão cara aos negros e já iniciada individualmente até em Estados conservadores. Mas o fato é que ele compareceu e disse, num discurso, que os Estados Unidos devem parar de usar as prisões como depósitos de gente. Ponto para a empatia.

A noção de que o envolvimento de não criminosos com o sistema penal aumenta as chances de torna-los criminosos de carreira não é nova. E ela faz parte de outro anúncio importante ao longo de quase 200 páginas, feito por uma juíza de Nova York. A tática de 'stop and frisk' (deter e revistar), defendida com paixão colérica pelo prefeito Bloomberg e pelo comandante da célebre força policial de Nova York, é inconstitucional. Durante dez anos, quase cinco milhões de pessoas foram paradas por esta tática rotineira e, supresa!, a maioria era formada por negros e latinos - em números muito mais altos do que sua proporção demográfica na cidade.

No jargão sarcástico dos jovens, seu crime era "caminhar enquanto negro", a infração que custou ao jovem Trayvon Martin sua vida na Flórida, em 2012. A tática policial, disse a juíza, viola duplamente a Constituição porque discrimina racialmente e porque invade a privacidade com uma revista sem suspeita razoável.

Um apoplético Mike Bloomberg denunciou a juíza como se ela tivesse o estado mental nublado de uma das seguidoras de Charles Manson, nos anos 60. Bloomberg, que deixa o cargo em 1º de janeiro, já começou a usar todos os recursos de apelo contra a decisão.

É interessante notar a linguagem de instigação ao medo, usada na reação do prefeito, que associa a contínua queda no índice de crime à agressividade de sua polícia. Ele basicamente anunciou que a mudança vai matar policiais e cidadãos inocentes. Não há um consenso entre estudiosos sobre o peso do 'stop and frisk' na manutenção das estatísticas de crime.

Mas não é preciso ser estatístico para observar o efeito da tática na alienação de rapazes negros e latinos. Entre os corajosos que se juntaram à ação civil contra a cidade que resultou na decisão da juíza, ouvimos depoimentos eloquentes. Falam da intimidação constante, da desconfiança da autoridade policial, da ideia de que as ruas da cidade não são para eles.

Como disse um vereador aqui, imagine se testemunhássemos, no setor de embarque do aeroporto Kennedy, os agentes de segurança mandando todos os passageiros brancos passar direto e segurando os negros e marrons para tirar os sapatos e esvaziar seus bolsos.

Embora Bloomberg queira colar nos críticos o rótulo de descaso com a vida humana, quem teve a paciência de ler a longa decisão da juíza sabe que ela não só é a favor do 'stop and frisk' como sugeriu medidas para tornar a rotina mais justa e monitorada, com a instalação de câmeras no equipamento dos policiais.

O que me leva a esta linguagem do apelo ao medo para avançar sobre a liberdade individual. Nova York está em plena campanha eleitoral, depois de 20 anos de prefeitos republicanos, nesta cidade onde a maioria é democrata.

No crepúsculo da dinastia Bloomberg, uma pesquisa surpreendeu ao revelar o que os nova-iorquinos mais esperam de um novo prefeito: empatia. Exatamente o que falta ao bilionário Bloomberg, um homem que se vê acima do bem e do mal e financiou suas três campanhas políticas com a própria fortuna.

Nova York está mais limpa, mais segura, fuma menos e faz mais exercício em centenas de quilômetros de ciclovias. Mas tem também 50 mil pessoas - 21 mil delas crianças - vivendo nas ruas ou em abrigos de homeless. Nem no auge da crise fiscal da década de 70, a cidade tinha tanta gente morando na rua. Hoje, 1% dos nova-iorquinos ganham 40% da renda na cidade, o dobro da disparidade de renda nacional.

O New York Times lembra que no emblemático período retratado pelo primeiro filme Wall Street, de Oliver Stone, o mesmo grupo de 1% dos mais ricos ganhavam 15% da renda total. O mesmo Times destaca um episódio, em março do ano passado, quando a página editorial do jornal publicou um artigo de Greg Smith. O então diretor executivo do banco Goldman Sachs anunciava que se demitia por não concordar com a cultura corrupta que havia tomado conta de uma instituição financeira com quase um século e meio de tradição. No dia seguinte, Bloomberg foi comer hambúrguer com o CEO Lloyd Blankfein na sede do banco. Não deixa de ser uma forma de empatia, mas não é a que vai eleger o próximo prefeito ou prefeita da maior cidade americana.

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