Empatia do elenco é o que salva o tráfego

Espetáculo da Cia. Nova Dança 4 ainda precisa de acabamento

Critica, Helena Catz, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2010 | 00h00

A Cia Nova Dança 4 chega ao fim da trilogia que iniciou em 2008, com Influência, Primeiros Estudos, e continuou, no ano passado, com O Beijo. No primeiro, foram guiados por Hitchcock e pelos mestres da improvisação por contato Lisa Nelson e Steve Paxton, talvez a mais sólida referência de todo o seu percurso, presente não apenas nessa obra. No segundo, focaram sobretudo Nelson Rodrigues. Agora, voltam ao cinema, via Jacques Tatit, Charles Chaplin e Buster Keaton, para a criação de Tráfego, que realiza uma turnê pelos Sesc Consolacão (21 e 22/07), Interlagos (18/07), Ipiranga (28/07), Pinheiros (12 e 19/08) e Itaquera (21/08).

Fundada em 1996 por Cristiane Paoli Quito (direção) e Tica Lemos (pensamento corporal), a companhia se distingue por manter o mesmo elenco desde então, o que assegura um tipo de sintonia bastante rara nos palcos da cidade. Fala-se muito em escuta corporal, hoje em dia, mas, quem quiser um exemplo claro do que seja isso, a encontra nos acordos que os excelentes Alex Ratton, Cristiano Karnas, Diogo Granato, Érika Moura, Gisele Calazans e Lívia Seixas estabelecem quando dançam juntos.

Nos últimos anos, a companhia descobriu que o seu desejo é ser uma boa contadora de histórias, mas contar história com dança talvez seja uma das mais difíceis tarefas a serem empreendidas. Geralmente, a dança precisa pedir colaboração a outras artes quando conta histórias: ao teatro, à pantomima, à literatura, etc. O ajuste entre movimento e significado é sempre precário, uma vez que o movimento aponta as direções que o constituem e se adequa com mais facilidade ao sentido, como explicou o filósofo Mark Johnson no livro que lançou em 2007, The Meaning of the Body (O Significado do Corpo).

A dramaturgia de O Beijo deu conta de encenar um roteiro que intensificava o suspense e o mistério na história que não contava da obra de Nelson Rodrigues, porque fazia dela uma cola com o que não lhe pertencia. Agora, no Tráfego, parece que a dramaturgia ainda não se consolidou, como se a obra estivesse ainda a caminho de finalizar-se. Ela se sustenta por conta da empatia que exala do elenco, mas as escolhas do que compõe cada cena não parece burilada. A coreografia está por demais próxima de suas fontes, com um uso excessivo de representações miméticas.

Compromisso. Em dança, o humor é sempre mais arriscado, justamente porque suas dramaturgias não têm sido muito exploradas. A responsabilidade em colaborar com o desenvolvimento desse segmento aumenta ainda mais o compromisso da escolha que foi feita.

E, no momento,Tráfego ainda pede por mais tempo para aprofundar o que já selecionou para nos mostrar. As tipologias de corpo que celebrizaram Tatit, Keaton e Chaplin estão ainda muito coladas ao elenco, que detém todas as condições para assenhorar-se delas com a excelência que caracteriza os artistas do Nova Dança 4.

A trilha sonora se compõe do que Lívio Tragtenberg chama de música meteorológica, aquela que produz "climas". Criada e tocada ao vivo por Claudio Faria, Mariá Portugal e Natalia Mallo, atua como mais uma camada de explicitação. Figurino e iluminação também padecem do mesmo que acomete a dança: pedem mais tempo de ensaio para seus ajustes, como se tivessem sido precocemente finalizados.

Tráfego não parece pronto. Dada a qualidade artística de todos os que compõem a Cia. Nova Dança 4, talvez tenha faltado tempo de convívio para que as propostas pudessem ter amadurecido. Com a série de apresentações que estão fazendo, quem sabe essa situação possa começar a ser sanada.

TRÁFEGO

Sesc Consolação. Teatro (320 lugares). Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 4ª e 5ª, 21h. R$ 4/R$ 16. Até 22/7.

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