Emoji or not

A questão do beijo com coraçãozinho me intriga. É para ser usado entre amigos ou apenas paqueras?

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

09 de fevereiro de 2019 | 02h00

Muitos dizem que não existe a palavra “saudade” em outras línguas. Não menospreze o leque da língua inglesa. Tem palavra para tudo, até para um encontro em que se perguntam, e deixam claro, se há possibilidade de contato físico afetivo: “dating”, de que defendo o uso por aqui, com uma readaptação antropofágica.

Alguns brasileiros preferem jogo, suspense, misteriozinho. E inventaram uma expressão pós-dating, “ficar”, que não deixa claro o que rolou. Brasileiro prefere a neblina, quando o assunto é amor. Uma amiga americana reclama que somos no xaveco como na dança: “Vou, não vou, vou, não vou...”. Na real, ela faz uma aliteração com o verbo ir e dar.

No começo da Nova República, político brasileiro falava que as acusações contra ele eram “inverdades”. Depois da Lava Jato, viraram “ilações”. Político corrupto acha que, se parecer culto, acadêmico, parecerá educado, portanto ético. E adora “elencar” ilações.

Já fui chamado a um almoço oficial com reitor e pró-reitores da USP. Habituado a bandejão acadêmico subsidiado, tanto da Unicamp como da USP, aqueles em que, na digestão, na volta à classe, é difícil não desmaiar pelo gramado, dopado de tanto salitre (nitrato de sódio que colocavam sem nos informar, que sacia a fome, mas pesa). Me espantei com o luxo do gabinete da reitoria, garçons de uniforme branco, comida excelente, vinho, entrada, prato principal e sobremesa servidos em louças separadas e momentos separados, que não dava sono. Ético?

Existe, sim, saudade em inglês. Usam “missing”, que é como “sentir a falta”. Como existe em francês “envie”. Existem expressões de uma polidez e beleza incomparáveis em inglês, como “I beg your pardon” (eu imploro seu perdão), quando o interlocutor não entende o que o outro quer dizer, e em francês, como “a bien tout” (que tudo fique bem), quando duas pessoas se despedem. Existem expressões belíssimas em todas as línguas.

Mas vivemos novos tempos. A linguagem do emoji (da qual, já vou avisando, sou adepto), é universal, simples, direta, econômica, tudo o que as pessoas, que na Revolução Tecnológica chamamos de usuários, aquelas que na Industrial chamávamos de consumidores, e na Francesa, de cidadãos, querem.

A invenção dos japoneses, que escrevem em ideogramas há séculos, caiu no gosto do mundo ocidental, mas peca pela simplificação necessária da globalização. 

Como agradecer via emoji? Muita gente usa mãozinhas coladas, como japoneses agradecem, mas que, para nós, país de tradição católica, parece uma reza, e para indianos, uma saudação. Quando me mandam, nunca sei o que significa. 

Uso dedos cruzados, quando quero dizer “tomara”. Mas sei que cruzávamos os dedos nas costas, quando alguém perguntava “jura?”, e mentíamos, como se fosse o visto no passaporte das inverdades, ilações.

O sinal de positivo é o mais utilizado por ser útil. Um amigo me contou que, quando quer uma noite apimentada com um caso, sugere horário e local, e sem nenhum romantismo ela responde com um positivo. Ele me contou rindo: “É um caso com um emoji só”. Sou mais romântico... Gosto das flores e do cadeado, que uma amiga me mandou, quando combinamos um encontro despretensioso. “Fechado.” Fofíssimo. Adotei. 

Mas o dedo mais utilizado na nossa comunicação visual, aquele em que você manda uma pessoa àquela parte, não tem no emoji. É preciso comprar (imagino, porque já me mandaram àquela parte).

Senti muita falta de emojis que traduzissem a polarização ideológica, como a que ocorre também no Brasil. “Vai pra Cuba!” e seu similar, “Vai pra Venezuela!”, podem ser montados: um aviãozinho e a bandeira do país sugerido. “Golpista” não tem. “Coxinha” não tem (tem coxa de frango, não o petisco). Não tem mortadela, bandeira vermelha manchando a brasileira, referências à maconha ou Deus acima de tudo. 

Não tem Allahu Akbar ou Mazal Tov, para saudar amigos de outras religiões. Como filho de Xangô, sinto falta dos orixás. 

A questão do beijo com coraçãozinho me intriga. Tenho certeza de que já escrevi sobre isso. E sei, por experiência literária, que, se me intriga, intriga a muitos: É para ser usado entre amigos ou apenas paqueras? Tem segundas intenções?

As carinhas são todas excelentes e traduzem bem sentimentos como felicidade, vergonha, raiva, tristeza, estar pensativo, arrependido, orgulhoso, furioso, enojado, entediado, doente, resfriado, machucado, ganancioso. O emoji cérebro ainda não entendi a que veio. Nem pegadas. 

Gosto da contemporaneidade e falta de preconceitos: casais papai, papai e filhos, mamãe, mamãe e filhos, ou pais e mães solteiras. 

Bebidas são restritas: chope, cerveja, vinho (só tinto), espumante, uísque, saque, claro, e dry Martini. Nada de vodca, rum, mojito, marguerita, negroni cachaça ou o hit aperol.

Esporte, incrível, não tem o segundo mais praticado no mundo: skate. E olha que tem snow board, esqui e patins. 

O símbolo de deficiente, parabéns, é o novo, em que há um cadeirante em movimento. O antigo pictograma foi criado no começo da revolução dos direitos civis, em 1968, por uma desenhista dinamarquesa, Susanne Koefoed, adotado pelo Brasil em 1985. Mas o símbolo destaca a cadeira de rodas, indica passividade, não o cadeirante. 

Na maioria dos países, há a readaptação para o novo, que mostra mais agilidade, ação, um cadeirante inclinado, em movimento. No Brasil, ainda não se fala nisso. Sempre atrasado...

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