Emoções no labirinto invisível

Criação combina vidro, ferro e som

Crítica: Helena Katz, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Um labirinto? Mas de vidro, deixando ver os caminhos? Sim, pois mesmo sendo de vidro, nele não se adentra ao reino da transparência. Bem ao contrário. Não raro, alguém bate de frente em uma das paredes de vidro porque parecia que ela não estava lá. A instalação coreográfica do Núcleo Artístico Vera Sala, que fica no porão do Centro Cultural São Paulo até domingo, nos pergunta sobre isto: os objetos que vemos estão onde os vemos? Somente hoje, às 16 h, e amanhã, às 20 h, você pode adentrar nos Pequenos Fragmentos de Mortes Invisíveis e testar o que lá acontece. Vale a pena correr para ver.

Se possível, fique um tempo, se dê a chance de experimentar os distúrbios de percepção que devem ocorrer. Porque o espaço que Hideki Matsuda criou com as angulações que inventou para as paredes de vidro e ferro que formam o labirinto, e o modo como as ilumina, nos fazem perder a perspectiva renascentista na qual estamos tão bem treinados. Os percursos dos sons que vão caminhando lá dentro e lá fora, produzidos por Daniel Fagundes, adensam a sensação de que um mesmo corpo pode, sim, estar em distintos locais ao mesmo tempo.

Dependendo do ponto em que se fica dentro da instalação, ela aparece de maneira diferente. Não se trata de um lugar a ser descoberto em um percurso, mas de um percurso que vai criando o lugar. Por isso, nunca está povoado da mesma maneira. Os corpos aparecem e desaparecem à medida que andamos pela instalação. Cada um dos que lá estão aparece desdobrado em várias imagens, viramos espectros que atravessam os vidros.

Somos nossos deslocamentos que vão criando os ambientes sem identificar qual corpo é o "real", porque também ele se transforma em um espectro. Não existe ponto zero, não existe reprodução. Esse é um ambiente somente de produção. Nele, não se fica de fora, observando. Vamos nos espectrando nele, e ele vai se espectrando em nós. É um outro regime para os sentidos, que escapole da tirania da causalidade, pois pouco importa quem causa o quê.

Felizmente, é pela terceira vez que a instalação se apresenta. A primeira foi na Galeria Olido, em junho do ano passado, e a segunda, há dois meses, em abril, no Lugar, a sede da Cia. Corpos Nômades, ambas na cidade de São Paulo. A oportunidade de poder trabalhar com a instalação nessas diferentes oportunidades permitiu que os três corpos fossem desenvolvendo caminhos próprios. Antes, os corpos eram engolidos pelo desequilíbrio, pareciam se dissolver no tecido do figurino ou no contato com o chão. Nesta instalação, emergiu algo novo em Vera Sala. Os micromovimentos se ampliaram e ficaram mais velozes, e o seu corpo parece se expandir em torno da verticalidade com uma potência que inaugura um outro discurso para a tensão entre equilíbrio/desequilíbrio. Um outro limiar está sendo atravessado e a continuidade do trabalho vai indicar para onde ele seguirá.

Os dois intérpretes convidados para participar dessa pesquisa, Paulo Henrique Alves e Thiane Nascimento, ecoam, de maneiras distintas, o percurso até aqui. Paulo parece intuir a necessidade de controlar o desequilíbrio de outra maneira, enquanto Thiane está a ele submetida.

As linhas que unem os três formam outro labirinto, também transparente, dentro daquele onde se fica. A violência do impulso que leva os 99 lobos do artista Cai Guo-Qiang a se atirarem contra o vidro na sua obra Head on (www.caiguoqiang.com), referência importante para Vera Sala, está lá, em cada um dos pequenos fragmentos da morte invisível que compõem o trabalho, e também, reconfigurando-o nessa nova direção para a qual a pesquisa começa a apontar.

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